A relevância distorcida

Ana Brambilla

(Publicado originalmente em 3 de março de 2020 no LinkedIn)

O Uber de hoje queria conversar. E quando perguntou a que me dedico, a conversa foi pros lados do “ah, eu também já trabalhei na imprensa, fui da área comercial do jornal Valor”.

O Ricardo era esperto e logo perguntou “Mas com essa coisa toda de Internet, notícia virou grátis, né? Não tá difícil pra vocês?” – não, Ricardo, não tá difícil. Tá um horror!! E não é só porque notícia virou grátis. É porque tem informação demais sobre coisas bem mais interessantes, relevantes pra ti do que a maioria do conteúdo publicado por veículo jornalístico.

Ele franziu a testa, como quem duvidasse. Então fiz um teste com ele. Abri o aplicativo de um veículo generalista e comecei a ler as manchetes:

“Governo espera decisão do Senado para aprovação de emendas”

“Crise na Síria aumenta chegada de refugiados na Europa”

“Superterça consolida duelo entre Sanders e Biden”

“Veja como cultivar plantas dentro de casa”

“Novo coronavírus faz universitários brasileiros desistirem de intercâmbio na Coreia do Sul”

E aí?, perguntei pra ele, isso tudo é importante pra ti? – “É, né?”, respondeu ele, de imediato. Eu insisti: É mesmo? Teu filho estava indo pra Coreia do Sul fazer intercâmbio? Tuas plantas em casa estão morrendo? Tu ainda não sabes se a proposta do Sanders é melhor que a do Biden nas eleições norte-americanas? Fala a verdade, Ricardo, o quanto essas notícias vão realmente impactar o teu dia?

“É mesmo, né? Nada!”

Segui a conversa contando pra ele que há três meses fiz uma cirurgia no pé esquerdo; em breve, farei no pé direito: “Tu achas que se eu estivesse diante de uma matéria que falasse sobre novas técnicas para curar joanetes eu não iria preferir ler esse conteúdo do que qualquer um desses que te listei agora?”

“Nossa! É mesmo! Outro dia me chamou a atenção no jornal que um motorista do Uber levou 5 horas para levar uma moça até em casa! A viagem era pra durar 30 minutos! Daí eu pensei… como é que a Uber permite que isso aconteça? E como a gente tem que fazer o serviço bem feito, né? – eu disse que o Ricardo era espero. E ele me entendeu.

Claro, Ricardo! Qualquer notícia sobre a Uber te chama a atenção porque TU és motorista da Uber. Assim como qualquer notícia sobre um novo programa gratuito para aprender idiomas também te chamaria a atenção, se tu estás buscando um emprego melhor, por exemplo. E por aí vai. Mas o foco de interesse é cada vez mais pessoal, porque HÁ OPÇÃO, ao contrário de 25 anos atrás.

“Sabe, hoje de manhã cedinho, um amigo meu mandou pra um grupo que a gente tem no WhatsApp um vídeo de um sujeito bem ‘chucro’, que é pedreiro e apronta cada bobagem… Mas é bom demais! O sujeito é muito engraçado! A senhora acredita que esse sujeito tá ganhando dinheiro com esses vídeos?”

Acredito, Ricardo! O mais impressionante nem é que o pedreiro engraçado esteja ganhando dinheiro no YouTube, mas o TEMPO que tu passou assistindo os vídeos dele é o mesmo tempo que, no passado, talvez, tu estivesse ouvindo o Boechat ou assistindo o Bom Dia Brasil ou ainda lendo a Folha. Mas TEM vídeos engraçados que chegam a ti pelas mãos dos teus amigos e tu vais preferir gastar teu tempo com eles.

Acho que ele pensou que eu estava criticando a escolha que fez e se justificou:

“É que a vida é tão difícil, né Dona Ana? Às vezes é bom a gente dar um tempinho pra dar risada, descontrair um pouco…” – Tu-do-beeeem, Ricardo! Tu tens toda a razão! É isso mesmo! Não é à toa que a gente fica duas horas assistindo um filme e não consegue ler muitas notícias até o fim. O filme, a música, o vídeo engraçado do pedreiro chucro mexem na química do teu cérebro, te fazem rir, te causam prazer e é absolutamente normal que as pessoas prefiram cada vez mais isso do que as notícias de sempre, feitas como na época em que não tínhamos tantas opções de informação a consumir.

Comentei brevemente com ele sobre a tendência do noticiário ultra-segmentado, especializado, para pequenos e fortes grupos que não são apenas geográficos.

Minha ficha caiu e a relevância tem sido “falsificada”
Chegamos. Cinco estrelinhas e uma baita, tremenda, profunda percepção de quanto o entendimento de “informação relevante” está absurdamente distorcido.

Não quero ser utilitarista e limitar relevância à aplicabilidade das notícias à vida de cada um (embora aplauda muito essa possibilidade). Mas o simples fato de ~estar no jornal~ cria a falsa sensação de que aquele conteúdo é relevante ao indivíduo.

É falsa porque nas pesquisas o indivíduo vai dizer que, sim, aquela notícia na capa do jornal, na home do portal é importante. Só que ele não vai consumi-la. E não se trata de falta de tempo. É porque há coisas muito mais atrativas, gostosas de consumir e até que provoquem mais identificação com a realidade daquele indivíduo do que os fatos de sempre, selecionados por jornalistas que só conversam com jornalistas.

A régua do senso comum para relevância
Ainda existe um glamour ao redor da mídia. Tudo o que “sai” no noticiário se projeta na sociedade, ainda que essa projeção aconteça seja muito mais perceptível desde do ponto de vista do emissor. É o bom e velho “Mãe, tô na Globo!”, só que eu não sou sua mãe.

No fim das contas, “estar na mídia” ou “virar notícia” é um mérito (pro fato, pra pessoa), em primeira instância. Mas até aí a individualidade pega. Se o lixo na praça em frente à minha casa saiu no noticiário da TV como denúncia, isso só é relevante pra mim porque o lixo está em frente à minha casa e não porque saiu na TV. Se fosse um buraco de rua no outro lado da cidade, por onde eu nunca passo, provavelmente meu nível de atenção seria mínimo.

Antes que isso pareça uma crítica ao individualismo (que é diferente de individualidade) ou uma lamentação sobre o egoísmo da sociedade contemporânea, tomemos com muita calma: interessar-se por algo que te toca é, no mínimo, normal. É claro que a notícia sobre a Uber vai interessar mais ao Ricardo do que a quem não é motorista nem usa o serviço. Isso é humano e não é novidade!

Jornalismo relevante: uma questão de prioridades (do público, não do editor)
Então significa que o jornalismo não deve mais noticiar sobre o Governo ou a Síria? Não é isso e já falei disso aqui. Só é preciso ter em mente que, além das pautas de sempre, a oferta e a variedade de informações são infinitas e é claro que a atenção do indivíduo vai se direcionar, prioritariamente, àquilo que gera identificação, que impacta no seu dia a dia, que faça sentido para ele.

Não se trata de ficar na bolha. Claro que ela é confortável e em certa medida os assuntos ligados diretamente a ti te ajudam a viver melhor. Mas calibremos as expectativas sobre o futuro da nossa atividade. E aprendamos a noticiar o “fora da bolha” com o olhar de quem está dentro dela. É uma questão de enfoque. Se algo acontece lá fora, como impactará aqui dentro (da minha casa, do meu bolso, do meu carro, da minha família, dentro de mim)?

Com o perdão de ser repetitiva, mas no dia em que a imprensa entender que o olhar do ser humano mudou, porque o mundo à volta dele também mudou, as empresas de mídia talvez se mobilizem a procurar pela relevância que podem exercer na vida das pessoas. Façamos isso sem olhar de dentro da redação, sem ignorar o contexto externo e admitindo que o jogo da informação, assim como a noção de relevância, definitivamente não são mais os mesmos. Portanto, o que era notícia ontem, hoje pode não ser mais. E não é de novidade que estou falando.

Para ser mais clara: critério de noticiabilidade de 1995, por mais que esteja em uso desde o século XVII, não funciona em 2020. Ao menos não na mesma medida. Ou nos contentamos em concorrer com – e perder do – vídeo do pedreiro engraçado do YouTube, ou aprendamos a ser mais certeiros na identificação de pautas. E isso só se consegue através de um movimento: aproximação com o público.

Obrigada, Ricardo, pela reflexão.

Observação: neste texto uso relevância, importância e interesse como noções que não podem ser separadas nem se excluem entre si, por pertencerem ao mesmo campo semântico (Muñoz-Torres, 2002).

Ana Brambilla é jornalista, Doutora em Comunicação Digital. Professora do Departamento de Comunicação do ISE Business School.

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