“Liberdade de Imprensa e Responsabilidade”

Fala de Fabio Petrossi Gallo, presidente da ANER, na 13ª Conferência Legislativa sobre Liberdade de Imprensa

“Liberdade de Imprensa e Responsabilidade”

Brasília, 21 de maio de 2019.

 

Senhoras e senhores,

Vivemos uma época na qual jamais houve tamanha ameaça às liberdades de expressão e de imprensa. E isso se dá em escala global. Ao mesmo tempo, o jornalismo nunca foi tão importante como hoje para as sociedades.

Na chamada Era Digital, as redes sociais e os aplicativos de mensagens são uma realidade, fruto da fantástica capacidade de invenção do ser-humano. O ambiente nas mídias interativas, entretanto, tornou-se caótico e sem controle, dominado pela desinformação capaz de chegar a qualquer pessoa que esteja capacitada a acessar a internet. Isso, atualmente, ocorre até em alguns dos lugares mais remotos do planeta.

Infelizmente, aqueles que sempre promovem ações no interesse de impedir que a verdade seja desvendada e relatada ao público agora armaram as redes sociais. O poder bélico passa por mentiras, boatos, informações desvirtuadas, ilusões, teorias conspiratórias, entre outras falsidades.

O objetivo é alimentar o ódio e, com isso, causar instabilidade, confusão, divisão social, desconfiança e desesperança.

Ao mesmo tempo, aproveitam-se dos chamados efeitos colaterais das redes sociais e aplicativos de mensagens. Algoritmos empurram as pessoas a permanecerem em diálogo apenas com quem pensa como elas. Uma barreira ao pluralismo; um fermento para o sectarismo e extremismo.

Está evidente para todos nós que a intolerância que vemos no meio digital se espalha rapidamente. Tem sido incentivada não apenas nas autocracias, mas em democracias. O resultado é um assustador elo entre o virtual e o real, sustentado pelo uso de ferramentas das redes sociais, como grupos e transmissões ao vivo.

Nos Estados Unidos, no Brasil, na Nova Zelândia, em Mianmar e em tantos outros lugares, a desinformação espalhada nas redes sociais e nos mensageiros
resulta na barbárie. No descrédito à ciência, na morte trágica e até mesmo no genocídio.

A democracia e o progresso, senhoras e senhores, estão ameaçados.

Para o nosso bem, as sociedades livres têm ao seu alcance o mais eficaz contraveneno à desinformação deliberada na internet: o jornalismo profissional.

Jornalistas e organizações noticiosas têm o compromisso com a verdade, espinha dorsal do jornalismo. É função basilar para todos os profissionais de comunicação proporcionar às pessoas o que lhes é de direito: a informação.

Além disso, o trabalho de observar, apurar, investigar e relatar a verdade ao público é o nosso negócio. Das revistas, dos jornais e das emissoras de rádio e televisão. É dele que vem a nossa credibilidade.

Outro ponto fundamental é o nosso know-how, acompanhado de constante inovação. No Brasil, a imprensa atua de forma centenária. Ao longo desses anos, jornalistas, jornais, revistas e emissoras de rádio e televisão exercem e aperfeiçoam os princípios jornalísticos.

Os jornais do país, meu caro Marcelo Rech, presidente da ANJ – Associação Nacional de Jornais, têm aqui um papel-chave e pioneiro. Há quase 30 periódicos brasileiros com mais de 100 anos de atuação, e outros tantos que estão quase lá. Os primeiros jornais surgiram há dois séculos e, desde então, os veículos de comunicação como um todo têm acumulado a experiência necessária para oferecer informação de qualidade.

Em paralelo, a imprensa brasileira acompanhou as mudanças de hábito dos leitores, ouvintes e telespectadores. Por isso, está presente em todos os meios, impressos e digitais, com a mesma qualidade. Faço aqui minha homenagem aos 40 aos da ANJ, comemorados neste ano.

A Associação tem sido decisiva para essa constante transformação dos jornais, que se adaptam aos novos tempos sem perder qualidade. Pelo contrário. Sabemos que a tecnologia exige respostas em alta velocidade. Exercer o jornalismo aprofundado, característico dos jornais, e oferecer informação constante (uma realidade do meio digital), não é tarefa fácil. Mas os jornais brasileiros têm obtido sucesso nesse desafio, muito por causa do conhecimento, da capacitação e da cooperação fomentados pela ANJ.

Senhoras e senhores, essas são garantias inquebrantáveis da responsabilidade da indústria jornalística e dos profissionais da imprensa na produção e distribuição de conteúdo à sociedade por meio da pluralidade.

Dessa forma, os conteúdos jornalísticos oferecem a informação necessária para que as pessoas possam formar suas opiniões e estabelecer suas agendas.

A nossa responsabilidade – é importante destacar isso – também é regrada por código de ética e legislações.

Claro, o jornalismo é uma atividade essencialmente humana – e é bom frisar essa característica diante do maior uso da robótica, que traz enormes benefícios, mas não substitui o jornalista.

A imprensa não está livre de erros. O diferencial é que, para nós, isso representa um momento muito crítico, pois nosso objetivo é o de não cometer equívocos.

Nosso modelo de negócio exige precisão, base da confiança da audiência e das marcas anunciantes em relação ao jornalismo. É de nossa responsabilidade assumir os erros e corrigi-los o mais rápido possível.

Nenhuma outra organização ou setor pode oferecer tais garantias ao público. Nas redações, dentro do processo de elaboração de uma reportagem, os profissionais de comunicação verificam exaustivamente os fatos – de forma independente e por meio de técnicas específicas.

Aliás, muito antes da popularização da internet, o jornalismo já exercia a verificação de fatos. Agora, entretanto, é fundamental para separar o joio do trigo no meio digital.

Os inimigos da democracia e das liberdades de imprensa e de expressão sabem que o jornalismo é o algoz da desinformação espalhada por eles e, ainda, protagonista do direito à informação.

Atualmente, nas 24 horas por dia, nos sete dias da semana, o jornalismo descobre, esmiúça e torna públicos casos de contravenção e corrupção, muitas vezes envolvendo pessoas ou grupos poderosos nos setores público e privado.

Lamentavelmente, a reação à verdade é furiosa. Há retóricas agressivas que alimentam o discurso contrário à imprensa.
E a violência contra a imprensa é alarmante.

Já são mais de dez jornalistas assassinados neste ano no mundo, enquanto outros quase 200 estão presos, segundo a organização Repórteres Sem Fronteira (RSF).

O Brasil, por sua vez, é o sexto país mais perigoso do planeta para o exercício da atividade jornalística. Além de ataques físicos, cresce o número de ataques digitais aos profissionais de comunicação, com agressões e ameaças com condão de censura a jornalistas e veículos.

É dever da imprensa e de todos os democratas brasileiros estabelecer uma união contra essa ameaça.

Muito obrigado.

 

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