Vida longa ao jornalismo posicionado

LINKEDIN – 19/03/2020

Ana Brambilla

Nesta semana, durante webinar da ANER/ANJ, falei rapidamente sobre o crescimento do jornalismo posicionado. Uma das participantes perguntou, ao final, se eu me referia aos editoriais ou ao restante do conteúdo de um veículo. É difícil mesmo aceitar a ideia de que o jornalismo pode assumir um lado, um conjunto de princípios que orientem a atividade editorial. Mas veja bem: isso já acontece; a dificuldade está apenas em aceitar.

Hoje nasceu a revista Oeste, um veículo jornalístico que “não pretende ser imparcial, porque a realidade não é imparcial”, nas palavras de José Roberto Guzzo, um dos fundadores da publicação.

Oeste se posiciona segundo valores sociais conservadores e sublinha não ver nada de negativo em conceitos como patriotismo, família e senso moral. “Acreditamos no capitalismo”, escreve Guzzo, “e achamos que os seus problemas devem ser corrigidos com mais capitalismo, e não menos”.

Ao declarar seu voto no mérito, no talento, no esforço e no trabalho individuais, Oeste manifesta, serena e transparentemente, que as ideias de esquerda não funcionam, haja visto o acúmulo de fracassos das teorias e práticas socialistas pelo mundo e na história da humanidade.

A clareza e a tranquilidade com que Oeste se posiciona refletem uma tendência confirmada por uma série de estudos que pautam o movimento de reader revenue stream, ou de modelos de negócio jornalístico baseados na receita gerada pelo usuário. Seja por doação, assinatura ou associação, a aposta de 85% dos publishers de 32 países é que o público deve bancar os veículos jornalísticos de forma crescente a partir deste ano. E a principal razão para que este leitor aceite pagar por jornalismo é o alinhamento de suas ideias com a linha editorial seguida pela publicação.
O desejado fim do “dois-ladismo”

Este provável resultado da polarização mundial aparece massivamente nos resultados de uma pesquisa da Universidade de Michigan (maio/2019). Segundo os autores, Esther Thorson e Weiyue Chen, a principal motivação do usuário que paga para consumir notícias vem do quanto este conteúdo contribui para “definir” e “promover” suas identidades e status sociais entre seus pares. As razões não estão ligadas a “qualquer sentimento de que as notícias possam ter sobre jornalismo ser bom para a democracia”, observa Alex Curry, nesta análise da pesquisa para o American Press Institute.

Neste artigo que pede pelo “fim do dois-ladismo”, a ex-editora do New York Times e do Washington Post, Geneva Overholser, diz que o jornalismo pretensamente imparcial “está causando um dano terrível” à população. E ao próprio jornalismo também! Enquanto dissemina a sensação de que não há nada sólido em que se possa acreditar, o discurso da (falsa) pluralidade editorial corrói uma das bases do jornalismo como instituição: a confiança.

O (praticamente) livre acesso a ferramentas individuais de publicação decretou o fim do baile de máscaras em vários contextos. Manter aparências se tornou mais caro e quase impossível para empresas de qualquer segmento. Abrir o jogo com o público e jogar de cara limpa tem sido não apenas uma estratégia, mas a única forma viável de comunicar-se com a sociedade. Mesmo em situações de crise, as empresas nunca tiveram tão poucos melindres em pedir desculpas e admitir erros. E esta é uma excelente notícia, enquanto “humanizar” se tornou um mantra da cultura digital.
Respeito ao exercício da liberdade

O jornalismo posicionado – da Oeste, assim como da Crusoé, do Antagonista, do Intercept, do Brasil 247 e outros veículos – atende uma necessidade humana de encontrar sentido na informação que se consome. Pensar em fortalecimento da bolha, nessas horas, é subestimar o raciocínio da população e rotulá-la como incapaz de exercer o direito ao livre arbítrio.

Para a Oeste, contar fatos sem dizer o que significam é como descarregar um caminhão de tijolos num terreno e achar que se está construindo uma casa, compara Guzzo, no texto de apresentação da revista. É nessa hora que jornalistas, indivíduos, cidadãos, humanos que somos apresentamo-nos ao trabalho, com a flexibilidade que os tempos pedem aos conceitos clássicos do jornalismo e sob o compromisso inquestionável com a realidade.

E o que há de mais real do que a crise da atividade? Se os tempos mudam e a população demanda um jornalismo posicionado, quem somos nós, jornalistas, para impor o tipo de informação que ela irá consumir? Este, talvez, seja o maior exercício de respeito à liberdade que o jornalismo precisa aprender. Deixemos que cada indivíduo faça a sua escolha e nos empenhemos com a transparência. É mais viável, é verdadeiro e é humano.

Jornalista, Doutora em Comunicação Digital. Professora do Departamento de Comunicação do ISE Business School.

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