“Vemos a valorização da legitimidade da ciência”, diz editora do ‘Lancet’

GALILEU – 10/01/2021

LARISSA LOPES

LARISSA LOPES

Criado em 1823 pelo cirurgião Thomas Wakley, o periódico The Lancet surgiu como uma publicação semanal que divulgava as principais novidades no campo da medicina com o propósito aprimorar conhecimentos sobre saúde e, assim, transformar a sociedade. Hoje, quase 200 anos após sua fundação, o periódico conta também com edições especializadas que se tornaram referência em estudos sobre HIV, oncologia, diabetes, infância e mais uma dezena de outros temas.

Durante a pandemia, tem sido uma das revistas científicas mais importantes, na qual podem ser acompanhados os principais resultados sobre vacinas como a CoronaVac, a eficácia do distanciamento social e a gravidade da infecção pelo Sars-CoV-2.

A editora executiva da América do Norte, Rebecca Cooney, conversou com GALILEU sobre como tem sido os bastidores do periódico nos últimos meses, como são selecionados os artigos a serem publicados, o perigo da desinformação e as expectativas para o “pós-pandemia”. Confira:

Como é o processo de aprovação de um artigo no The Lancet?

Todos os trabalhos passam por um processo muito intenso, com múltiplos estágios. O primeiro deles consiste em direcionar os papers para que os editores analisem, definindo se o artigo representa um avanço para alguma área do conhecimento e decidam quais devem ir para a revisão de pares. Nessa segunda etapa, precisamos encontrar especialistas em determinado campo para que avaliem e comentem o trabalho. Uma vez com as revisões em mãos, nós discutimos todas em grupo. São cerca de 20 ou 30 editores em uma videochamada discutindo detalhadamente se estamos satisfeitos com o trabalho que foi feito. A esse ponto, o trabalho também é revisado pelos autores, para que eles verifiquem se há algo que possa ser rejeitado. Também avaliamos em qual de nossas publicações o artigo se encaixa melhor. Pode ser algo que nós não queiramos publicar da edição semanal, então repassamos nossas revisões para os editores responsáveis pelo periódico mais adequado. É um processo muito intenso e democrático.

A pandemia tem exigido ainda mais agilidade e acurácia dos pesquisadores e revistas científicas. Como vocês têm lidado com essas novas demandas?

Eu acho que o maior desafio está na revisão de pares. Nós somos muito sortudos por sermos um periódico fundado há quase 200 anos e com uma boa reputação. Todos os editores despendem muito tempo para conhecer pesquisadores ao redor do mundo, para que, quando tivermos um trabalho potencialmente revolucionário diante de nós, estejamos aptos a encontrar revisores capazes de dar um parecer rápido e preciso.

Como editora de um periódico tão prestigioso como o The Lancet, qual é a maior dificuldade que você tem enfrentado durante os últimos meses?

Eu diria que este tem sido um período desafiador para todos que conheço. Acho que, como mãe de crianças pequenas, tem sido muito desafiador equilibrar tudo. Uma das maiores mensagens que eu gostaria de deixar para todos é essa ideia de que pandemias e catástrofes têm consequências baseadas no gênero. Elas afetam pessoas diferentemente, e haverá consequências de longo prazo para mulheres na academia e em pesquisa, incluindo editoras, que lidam com esse processo, por conta das demandas colocadas às mulheres no lar. Isso é definitivamente algo que eu realmente penso quando estamos revisando um paper e alguém precisa de flexibilidade. Nós realmente tentamos pensar que todos estamos passando por isso juntos. Nessa época extraordinariamente incomum, ser flexível e ter compaixão pela situação dos outros é realmente importante.

Ao mesmo tempo que há essa urgência entre os acadêmicos em encontrar respostas eficazes para combate ao coronavírus, informações falsas também têm se espalhado rapidamente por meio das redes sociais. O The Lancet tem alguma iniciativa para combater essa pandemia de desinformação?

Nós temos um editor dedicado às redes sociais, que cuida desses desafios em tempo integral. Uma peça-chave nesse processo é trabalhar com jornalistas e assegurar que eles se sintam confiantes em como estão escrevendo e apresentando as informações. Para isso, temos que ser acessíveis e isso é muito importante para combater a desinformação.
Estamos muito conscientes sobre qual informação nós damos ao público e muito disso está nos comunicados à imprensa (press releases) e em como trabalhamos com os autores dos estudos para ter certeza de que estamos transmitindo a interpretação correta da ciência. Nosso editor de redes sociais e as equipes de marketing e comunicação trabalham muito próximos. Juntos, eles abordam os autores e editores de certos papers para ter certeza de que estamos sendo consistentes em nossas mensagens. Se há algum erro, corrigimos.

E como podemos alcançar pessoas que não têm o costume de ler periódicos científicos?

Obviamente nem todo mundo vai ler artigos de periódicos, mas a maioria das pessoas tem interesse pelas apresentações dos resultados de estudos científicos, sejam eles sobre ensaios clínicos, vacinas ou doenças infecciosas. Então, é necessário garantir que todos os meios de comunicação estejam na mesma página. Eu acho que haverá uma mudança positiva entre os leitores, porque a pandemia fez com que mais pessoas se interessassem por ciência. Os desafios em relação à desinformação não serão os mesmos, porque estamos observando uma valorização na legitimidade da ciência. Acho que teremos um futuro mais brilhante nesse sentido.

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