VACINAS CONTRA FAKE NEWS

ÉPOCA – 20/12/2029

Igor Sacramento em depoimento a Evelin Azevedo

Pesquisador da Fiocruz conta como a desinformação reinante no WhatsApp e nas redes sociais se tornou um problema de saúde pública.

Sou pesquisador da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), instituição de pesquisa ligada ao Ministério da Saúde. A partir de 2017, começamos a investigar a opinião das pessoas sobre campanhas de vacinação. Focamos as entrevistas em dois postos de saúde: um no bairro do Catete e o outro na favela da Rocinha, ambos no Rio de Janeiro. O que percebemos é que as pessoas deixaram de temer a doença para temer a vacina — e as fake news têm um papel importante nisso. No caso da febre amarela, ouvimos pessoas que defendiam o uso do própolis como fator protetor contra a febre amarela. Também tinha gente que dizia que macacos eram transmissores do vírus — quando, na verdade, eles são vítimas da doença. De todas as histórias falsas, uma das mais esdrúxulas foi a que falava de uma “Nova Ordem Mundial”. Em poucas palavras, haveria a necessidade de diminuir a quantidade de pessoas na Terra, por causa de uma suposta falta de comida para alimentar todo mundo, e esse “controle populacional” seria feito por meio das vacinas, principalmente as destinadas aos idosos, como a da gripe. Mais recentemente, a vacina tríplice viral também foi alvo de fake news. As notícias falsas, de modo geral, focam a ignorância das pessoas e mexem com os sentimentos mais básicos para todos nós, que é o desejo de proteção.

Ao longo do tempo, percebemos que a disseminação das fake news foi mudando. Há alguns anos, ela se dava em sites e blogs como Yahoo Respostas — na maioria das vezes, de forma anônima. Hoje as notícias falsas são compartilhadas pelo WhatsApp, pelo Facebook e pelo YouTube, normalmente baseadas em falsos testemunhos ou em testemunhos parcialmente verdadeiros, que associam uma condição prévia de saúde a um possível efeito colateral da vacina, sem ao menos investigar o que aconteceu de verdade. Uma das conclusões de nosso trabalho é que não podemos responsabilizar unicamente o indivíduo pela queda na cobertura das vacinas. Muitas vezes as pessoas não têm instrumental para apurar se uma informação é verdadeira ou não. Muitas vezes, o pacote de dados que a pessoa tem no celular dá acesso gratuito ao WhatsApp, mas não às ferramentas de busca. Muitas vezes, quando as pessoas passam por essa barreira e procuram informação, ela não é facilmente acessada — ou porque são sites pagos ou porque os sites do governo não disponibilizam as informações de maneira rápida e clara.

Outros motivos que levam as pessoas a não se vacinar são a agenda de costumes e percepções sobre a política. Como é o caso da vacina contra o HPV. Vi mães indo aos postos de saúde se vacinar, mas dizendo que não vacinariam suas filhas com medo de que elas iniciassem a vida sexual mais cedo por causa da vacina. Há também quem diga que o Brasil é um país corrupto e que, portanto, as vacinas devem estar todas corrompidas. Alguns pais que tomaram a vacina quando eram crianças não vacinam seus filhos agora porque “naquela época, a vacina era boa e agora não é mais”. No período da febre amarela, conheci uma mãe que só estava vacinando contra a doença porque ela estava “rolando”, mas que não tinha vacinado os filhos contra o sarampo porque a doença não existia mais. Ela não sabia, por exemplo, que sarampo mata. Ao contrário do que acontece na Europa e nos Estados Unidos, aqui não temos um movimento antivacina estruturado.

Nestes últimos anos, fomos percebendo, na prática, que o direito à saúde envolve uma política de comunicação e informação. Teremos de ser criativos para combater os efeitos das fake news. Talvez alguma parceria com empresas de telefonia móvel para que as pessoas tenham acesso a sites de busca. Certamente, temos de reforçar as equipes nos postos de saúde. Eles precisam ser vistos pela população não apenas como um lugar para ir quando passar mal, mas também um ambiente onde seja possível tirar dúvidas. Outro caminho é preparar lideranças religiosas para disseminar informações verdadeiras sobre questões de saúde. Muitas vezes essas lideranças têm dúvidas que não são solucionadas e acabam sendo passadas para a frente.

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