“Ter mais diversidade nos ajuda a nos conectar com nossos consumidores”

ÉPOCA NEGÓCIOS – 20/11/2020

ANA CAROLINA NUNES

Maxine Williams, diretora global de diversidade no Facebook, fala como a empresa avançou na diversificação do seu quadro e as estratégias do grupo para avançar na inclusão de minorias.

No Facebook há sete anos, Maxine Williams, diretora global de diversidade do grupo, tem o desafio de tornar mais diversa uma empresa que tem mais de três bilhões de consumidores pelo mundo. A executiva se orgulha de ter aumentado em 44% a presença de mulheres negras na companhia, mas reconhece que o percentual reflete o fato de que o número inicial era muito baixo e que ainda há muito a ser feito.

Em termos de diversidade como um todo, não apenas racial, o Facebook tem a meta de, em cinco anos, ter 50% de seus colaboradores de grupos minoritários politicamente. Para isso, a estratégia passa por rever os vieses desde a seleção de estagiários até a retenção.

Maxine diz que considera a Bahia um lugar muito especial. O estado está na mesma direção de seu país natal, Trinidad e Tobago. A executiva conversou com Época NEGÓCIOS na véspera deste Dia da Consciência Negra, que ela considera uma grande oportunidade para as empresas trabalharem o tema internamente, principalmente aquelas que pouco fazem em relação à diversidade racial.

O tema da diversidade tem estado cada vez mais em pauta. Você acha que as empresas se deram conta de que diversidade é importante para os negócios ou o tema ganhou mais força pela demanda social, dos consumidores?
Depende da situação. Há muito tempo, em muitas empresas, as pessoas têm o senso de importância da diversidade. Mas, talvez, a forma como elas definiram a diversidade pode ter sido diferente. Até hoje, você tem empresas diferentes e países diferentes definido de forma diferente o que é diversidade. Por exemplo o Brasil, tão multi-étnico, tantas diferenças, maioria da população é diversa, então a questão sobre raça é maior ao falar de diversidade. Se você for para a Finlândia, você verá uma discussão menor sobre raça, mas ainda assim, eles vão também discutir diversidade, mas sobre gênero ou pessoas com deficiência. É um campo e um conceito muito amplo. Mas sim, quando as coisas se tornam mais públicas, quando a onda cresce, leva as empresas a pensar mais sobre.

As empresas estão sempre tentando se conectar com seus consumidores, e por mim, está tudo bem se são eles que provocam a companhia a encarar seriamente a diversidade. E é muito bom que os consumidores falem, se posicionem também. É como votar com o seu dinheiro. Para mim, por exemplo, quando empresas de cosméticos parecem não notar que há pessoas como eu, que tem o cabelo como o meu, nem em suas campanhas nem em seus produtos, ele não estão fazem produtos para mim, e quando as empresas começam a fazer isso, eu sou mais leal a empresa que faz isso. Como consumidora, eu tenho um poder nessa questão.

Muitos usam diversidade em suas campanhas de comunicação, com fotos de pessoas negras, por exemplo. Como fazer com que essas imagens se transportem para a realidade de dentro da empresa?
Você tem que olhar para quem são os seus consumidores e se os consumidores são mais diversos que sua empresa, e se quiser conectar com eles, você terá que conduzir uma campanha de marketing que se conecta com eles e, ao mesmo tempo – espero – trabalhar para fazer seu público mais diverso também. Isso vai depender como as lideranças da companhia entendem o valor da diversidade para a campanha, em ter mais diversidade internamente.

E como é a diversidade dentro do Facebook? Houve um aumento de diferenças internamente?
Facebook hoje é muito mais diverso que sete anos atrás. Digo sete anos pois foi quando entrei na companhia. E foi quando começamos os esforços estratégicos para aumentar a diversidade. Então, por exemplo, nós agora temos um cenário que mais de 50% das pessoas que não tem papel técnico são mulheres. Nos Estados Unidos, mais de 20% da equipe em papeis não técnicos são negros ou latinos. Mesmo dentro dos papeis mais técnicos, sete anos atrás eram 15% de mulheres. Hoje são 24%. Há bastante incremento em nossa diversidade. Mas ainda queremos mais. Nós estabelecemos metas agora: nos próximos 5 anos, queremos ter 50% dos nossos colaboradores sendo de grupos minoritários. No mesmo prazo, também queremos chegar a 30% de presença de lideranças negras no Facebook.

A cada ano estamos aumentando nossa diversidade, mas ainda estamos distantes de onde queremos estar. Queremos ter um grupo que seja tão diverso como a população que usa os nossos produtos. Temos mais de 3 bilhões de pessoas usando nossos produtos e mais de 87% deles estão fora dos Estados Unidos. É uma companhia americana, mas as pessoas que usam nossos produtos não são norte-americanos. Há uma diversidade global que precisamos ter.

E o quanto esse aumento da diversidade impactou nos negócios da empresa?
Só posso dizer que ajudou dramaticamente. O ponto em se ter mais diversidade, você pode construir coisas de uma melhor forma e que um grupo mais diversificado pode usar. E estamos vendo ao longo do tempo que mais pessoas estão usando os nossos produtos. Então, gostaria de fazer uma correlação entre isso. Mas, para além do que eu estou falando, há pesquisas apontando que empresas têm mais vendas se elas têm mais diversidade em seu quadro de colaboradores. Acreditamos que isso tem acontecido no Facebook.

Outro ponto em se ter mais diversidade é sobre risco. É importante estar apto a se antecipar. ‘Se eu fizer tal coisa, talvez não funcione bem para estas pessoas X ou não terá apelo para o grupo tal’. E você poderá tomar decisões baseadas em mais diversidades cognitivas em seu quadro de colaboradores.

Quando começou o Facebook, você ia criar uma página e havia apenas duas opções para gênero. Você só podia dizer se era homem ou mulher. Nós aprendemos, conforme aumentamos nossa diversidade, que isso não representa todas as pessoas no mundo. E melhoramos isso e, dependendo do seu pais, há dezenas de opções. Por que assim é o mundo. O que fizemos foi apenas reconhecer as diferenças na população aumentando nossa própria diversidade internamente. Foram funcionários LGBTQIs que levantaram essa questão. Então ter mais diversidade nos ajuda a nos conectar com nossos consumidores que usam nossos produtos.

E se diversidade e inclusão fossem o tema central do Fórum Econômico Mundial?
E quais são as estratégias que estão adotando para chegar nas metas de diversidade que estabeleceram?
É bastante complicado. Temos muitas estratégias. É uma meta global, mas para cada grupo de trabalho, talvez você tenha que ter uma estratégia diferente, dependendo da sua representação atual. Uma coisa que posso dizer é que para se chegar a esses números, e trabalhar com retenção, nossas estratégias estão também no processo de contratação.

Temos alguns esforços de curto médio e longo prazos. Por exemplo, divulgar as nossas oportunidade de forma mais ampla. Você tem que aumentar o conhecimento sobre suas oportunidades. Talvez as pessoas nem saibam das oportunidade em sua empresa se você não fizer um trabalho de divulgação para um público diversificado.

Ou então quando você sempre vai atrás de pessoas nas mesmas universidades. Você precisa ampliar esse grupo. Há várias diferentes estratégias para fazer um local de trabalho mais inclusivo e mais justo. Como você seleciona, como contrata, como reconhecemos, como medimos seu impacto, como olhamos para a promoção…e precisamos olhar para todos esses processos e avaliar como interrompemos os vieses.

E há a inteseccionalidade, que importa também. É outro ponto bastante complexo. Atualmente, um grupo que aumentamos muito a representatividade foi o grupo de mulheres negras. Aumentamos 44 vezes em relação há sete anos. Mas porque começamos com muito poucas. E exige muito você criar essa situação, ter candidatos tão diversos.

Neste 20 de novembro temos o Dia da Consciência Negra no país. De que forma essa data pode ser relevante para as empresas trabalharem internamente a questão da diversidade racial?
Acho que é uma grande oportunidade. Mesmo que não seja uma empresa ousada o suficiente, para fazer o que é certo, para entender onde está a desigualdade, e o que mais possa ser feito, ter um dia como este te dá a oportunidade de fazer isso de forma coletiva , pode ser apenas um dia, mas te dá a oportunidade de ajustar isso. Talvez essa seja a oportunidade de se dar conta de que talvez você não tenha feito muito como empresa, mas então faça uma promessa ou um compromisso, dê um passo à frente neste dia.

Se você está no Brasil, com 54% da população negra, e você não tem diversidade, não tem pessoas negras, você está perdendo. E você se posicionando nessa data, te dá uma vantagem de dizer isso ao mercado também. E assim, você passa a atrair pessoas que tem os mesmos valores e são os melhores talentos e prontos para trabalhar com você. É uma situação ganha-ganha.

Mas muitas empresas tem receio de abordar o tema justamente por que não tem essa questão encaminhada ou num bom quadro.
O medo acaba levando à paralisia e você acaba não fazendo nada, e ano que vem você ficará novamente constrangido se não fizer nada. Eu encorajaria as pessoas, pois você terá muito mais credibilidade quando reconhecer o problema e se comprometer a fazer algo sobre ele. Porque não fazer isso se você ganha crédito por isso? E as pessoas são mais receptivas quando você está seguro o suficiente para dizer o que você não sabe, em oposição a dizer nada ou não se importar. Não pense que fingir que não há problema irá levar a algum lugar.

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