Showrooms e trade shows se adaptam ao modelo digital na era pós-pandemia

VOGUE – 17/07/2020

CAROLINA MELO

Enquanto as semanas de moda se posicionam entre apresentações digitais (como será o caso de NYFW) e físicas (como é o caso das semanas de moda de Paris e Milão), showrooms e trade shows de moda se preparam para a sua primeira temporada completamente digital.

Historicamente, as semanas de moda são também semanas de vendas de atacado para as marcas, que apresentam suas coleções para compradores de lojas de departamento, websites e boutiques. Com as restrições de viagens e quarentenas instauradas em diversos países do mundo, a turma fashionista, acostumada a cruzar o globo para conhecer pessoalmente as coleções das marcas e colocar seus pedidos, está se adaptando ao novo normal e recebendo convites para participarem de feiras digitais e visitarem showrooms online.

No Brasil,  esta segunda-feira (20.07) marca o início da primeira edição digital do Veste Rio, evento da Vogue em parceria com a revista Ela, no qual 30 marcas (incluindo oito novos talentos) apresentarão suas coleções para lojistas de todo o País. Grifes também vêm organizando seus próprios espaços, caso da NXT LVL, que criou a Digital Room, plataforma exclusiva para que donas e compradoras de multimarcas possam fazer os pedidos do conforto da sua casa ou da sua loja, com atendimento guiado pelo time da marca.Enquanto isso, a ABEST (Associação Brasileira de Designers de Moda), ABIT (Associação Brasileira de Têxteis e Vestuário), Apex-Brasil (Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos) e Abicalçados (Associação Brasileira das Indústrias de Calçados) se uniram para organizar uma plataforma B2B online voltada para exportação, com duração inicial de seis meses, que será apresentado através da BLANC Fashion (www.blancfashion.com).

Showrooms globais como o Rainbow Wave, com presença em New York, Londres e Paris, apresentam, desde junho, as coleções de Pre-Spring 2021 das marcas que representam, através de plataformas de atacado digital como a NuOrder, que possibilitam a troca de catálogos, mensagens e até a efetuação de pagamento do pedido pelo comprador para a marca.  Atendimentos personalizados ainda são possíveis, mas apenas para quem está presente em Londres (onde fica o escritório principal do showroom) e estão sendo feitos com hora marcada.

O mesmo acontece com as semanas de mercado, como a semana de moda praia de Miami, que acontece há mais de 15 anos no final de julho e também teve sua versão física cancelada esse ano. As feiras e showrooms, que se instalavam em Miami para apresentar as novidades do mercado de moda praia global, estão também buscando alternativas digitais para apresentação das coleções de Verão 2021.  Esse será o caso da feira Cabana, que fechou parceria com a plataforma de atacado digital Joor para possibilitar que marcas e compradores possam se comunicar e efetuar vendas.

As plataformas digitais de atacado, como a Joor e a NuOrder, já eram ferramentas conhecidas tanto das marcas como dos compradores.  Porém, a presença física nas feiras e visitas pessoais aos showrooms eram a norma e o usual da indústria.  Marcas e organizadores apontam vantagens e desvantagens para o formato exclusivamente online.  Entre as vantagens está a sustentabilidade inerente ao formato digital, que possibilita a troca entre compradores e marcas  em países distintos sem a necessidade de viagens.  Entre os pontos fracos, está a falta do contato pessoal e interação entre designers e buyers, que fica, por enquanto, restrita ao online.

No Hemisfério Norte, marcas de moda já se preparam para apresentar suas coleções de primavera e verão 2021 digitalmente nas próximas semanas.“Nós lançamos nossa coleção de pré-primavera 2021 no dia 15 de junho em formato online e foi um completo sucesso.  As pré-coleções trazem modelos mais conhecidos e comerciais da marca.  Portanto, não foi um grande desafio apresentá-las digitalmente.  No entanto, para as coleções principais, que precisam apresentar novas tendências, tecidos e idéias inovadoras, será mais difícil de fazê-lo de forma totalmente digital”, conta Donata Yirmiyahu, CEO da Ulla Johnson. “Marcas de luxo e semi-luxo precisam ser tocadas e vistas pessoalmente. Se reduzirmos a venda ao digital, as compras das lojas serão conservadoras e repetitivas, o que é um problema ao longo prazo e um desfavor à moda”, continua.

Com todo o espectro da indústria da moda (incluindo o consumidor final) se adaptando a esse novo momento mais digital, seria fácil imaginar que a venda de atacado também se adaptaria sem maiores problemas. No entanto, ainda existem lacunas que a tecnologia atual não é capaz de preencher, e é nesses espaços que a interação humana ainda é considerada necessária. “A experiência pessoal, a reação, o feedback e a troca de informação em tempo real é o que nos faz humanos e capazes das coisas que fazemos.  Eu fui sempre a favor de um misto entre o novo e o antigo, contanto que o antigo funcione.  Feiras e showrooms são interessantes porque, quando bem organizados, possibilitam essa experiencia humana, essa troca de idéias e informações”, argumenta Lisa Pomerantz, consultora e executiva do mercado de luxo que trabalha com marcas como a Bottega Veneta e Michael Kors.

Ainda sobre se as atividades do atacado poderiam ser permanentemente feitas apenas no formato digital, Lisa articula:  “Eu acho que, nesse momento, não podemos dizer com certeza o que podemos e não podemos fazer usando somente o digital.  A tecnologia está avançando a todo momento.  O que não imaginamos hoje pode ser totalmente possível em um futuro próximo com a evolução da inteligência artificial e da realidade virtual”.

O formato digital encurta fronteiras, aumenta a escala e diminui barreiras financeiras, de logística e tempo mas, afinal, com feiras e showrooms operando em formato digital, se torna mais fácil para uma marca pequena ser notada por compradores?  “Eu acredito que o digital foi essencial nesse momento de crise, mas se os buyers se tornarem cada vez mais acostumados com o online acho que será mais fácil para eles dispensarem marcas novas quando receberem simplesmente imagens de lookbooks. Normalmente, quando buyers vêem uma coleção pessoalmente e conhecem o time e o designer, existe um entendimento muito maior dos valores básicos da marca, e eu acredito que é mais fácil para o buyer selecionar novas marcas dessa forma”, pondera Ramya Giangola da gogoluxe.com, empresa que presta consultoria a varejistas do mercado asiático como a Lane Crawford e a Joyce.

A crise não apenas impossibilitou essa interação pessoal entre marcas e compradores, como também colocou em xeque as consequências ambientais e gastos relacionados com as viagens internacionais necessárias para lojistas conhecerem pessoalmente até quatro coleções anuais em diversos países.  Com o mundo absorvendo um dia-a-dia cada vez mais digital, é fácil de imaginar que parte desse costume será integrado de forma permanente no atacado da moda.  Porém, o mercado ainda não parece pronto para descartar totalmente o contato pessoal e o aperto de mão que sela parcerias, desenvolve relacionamentos longos e estimula a criatividades entre lojistas e designers.

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