Revista CONCERTO, 25 anos de música clássica e ópera no Brasil

CONCERTO – 14/09/2020

Nelson Rubens Kunze

Em setembro de 1995 era lançado o número 1 da Revista CONCERTO, o guia mensal da música clássica no Brasil. Desde então, produzimos ininterruptamente 275 edições, provavelmente um marco inédito para publicações culturais no país. Nesse período, a despeito de intempéries, a atividade musical clássica teve um grande desenvolvimento, em uma trajetória que, com seus avanços e retrocessos, foi registrada mensalmente nas páginas da Revista CONCERTO.

A vocação original da Revista CONCERTO foi herdada de nossa publicação anterior, o guia São Paulo Musical, criado por Herbert Landsberg e que circulava já desde 1983. Era uma listagem dos eventos clássicos da cidade, com todos os serviços e informações para os frequentadores das temporadas de concertos. Após o malfadado plano Collor de 1990 – que em poucos meses conseguiu arrasar a cultura nacional (até a chegada de Bolsonaro achávamos que era a pior coisa que poderia acontecer) –, Cornelia Rosenthal, Mirian Croce e eu, que até hoje seguimos juntos na Revista CONCERTO, nos associamos a Landsberg e, com os então “novos e modernos” aparelhos de comunicação chamados fax e computador, conseguimos retomar as suas edições. Alguns anos depois, com a morte de Herbert Landsberg, aos 83 anos, encerramos o São Paulo Musical e lançamos a Revista CONCERTO, com a ambição de criar uma verdadeira revista de jornalismo cultural clássico e com alcance nacional.

Tivemos sorte. Em 1995, ninguém imaginava que daqui a 5 anos o Brasil contaria com uma sala de concertos e uma orquestra sinfônica de padrão internacional. Sob a liderança do maestro John Neschling, o governo do estado de São Paulo na gestão de Mario Covas, tendo Marcos Mendonça como secretário da Cultura, implantou a Sala São Paulo e a nova Osesp, um divisor de águas para a atividade clássica em todo país. Construiu-se um projeto que virou paradigma de excelência como política pública na área cultural.

A Revista CONCERTO acompanhou com entusiasmo todo o processo, dando voz a todas as opiniões. Ainda me lembro do discurso emocionado do maestro John Neschling no concerto em que foi anunciada a obra da Sala São Paulo, no hall da Estação Júlio Prestes, então ainda a céu aberto. Diante do governador Mario Covas e diversas autoridades, Neschling afirmou: “Nunca mais dirão que a Osesp é a ‘Orquestra Sinfônica Em Sede Provisória’”, um acrônimo irônico para a Osesp que havíamos criado na Revista CONCERTO.

Em termos estruturais, a institucionalização de todo o projeto, em 2005, por meio da Organização Social Fundação Osesp, talvez tenha sido ainda mais determinante do que a própria sala e orquestra. Tenho para mim que a parceria público-privada estabelecida por meio do modelo de Organização Social é a mais importante conquista da gestão pública em nosso tempo. Que bom que ganhou força a ideia de se envolver a sociedade civil na consecução de serviços públicos. Com controle dos órgãos governamentais, o estado financia os equipamentos culturais, que passam então a ser geridos por especialistas de entidades sem fins lucrativas. Com o modelo das OSs, avançamos para superar um dos entraves para o desenvolvimento do setor, que é a submissão de orquestras e teatros à lógica eleitoral da política partidária, dificultando a sua profissionalização.

Em São Paulo, o modelo de OSs deu um impulso inédito a todos os órgãos culturais públicos, alçando alguns deles a um nível de excelência internacional. Mas não só em São Paulo. O modelo de OSs também é um dos grandes trunfos e impulsionadores de diversos outros projetos pelo país, como o da espetacular Filarmônica de Minas Gerais/Sala Minas Gerais ou o do incrível Neojiba da Bahia.

Mas a modernização da gestão cultural pública é complexa. E a partir dos anos 2010, no bojo de uma onda liberal, o governo relativizou suas responsabilidades no apoio e fomento da cultura. Com raras e honrosas exceções, os orçamentos foram cortados drasticamente e os contratos de gestão com as OSs foram seguidamente aditados e recompactuados, o que, no caso mais dramático, levou à dissolução da Banda Sinfônica do Estado de São Paulo. Nessa situação, a estabilidade garantida pelas orquestras geridas diretamente pelo Estado ganhou um novo significado – afinal, melhor ter uma orquestra pública com todos os seus defeitos do que correr o risco dela ser sumariamente encerrada.

Em termos de políticas públicas, é fundamental citar também o imprescindível instrumento de incentivo fiscal que é a Lei Rouanet. Em sua formulação geral, a Lei Rouanet é uma legislação bem-acabada e completa que contempla todos os aspectos da promoção cultural. Para além de sua face mais conhecida – e muitas vezes, por problemas pontuais, injustamente criticada –, que é a do patrocínio via isenção fiscal, a Lei Rouanet contém mais dois braços de atuação fundamentais, que no entanto, por falta de vontade política, nunca foram devidamente implementados, que são o Fundo Nacional de Cultura (FNC) e o Ficart. É bom registrar, que grande parte dos espetáculos das entidades promotoras internacionais, capitaneadas pela Cultura Artística e Mozarteum Brasileiro em São Paulo e pela Dellarte no Rio de Janeiro, bem como centenas de projetos de concertos, óperas, festivais e gravações de produtores independentes não teriam sido realizados não fosse a existência da Lei Rouanet.

Nos últimos 25 anos, também diversas orquestras públicas viram o seu trabalho ganhar corpo Brasil afora. Do Norte, com a Orquestra Amazonas Filarmônica, cuja criação em 1996 também foi acompanhada de perto pela Revista CONCERTO, ao Sul, com a Orquestra Sinfônica de Porto Alegre, que vive um momento de grande impulso com a criação da Casa da Ospa, essas iniciativas devem muito ao compromisso e trabalho de valiosos e engajados músicos e maestros, que contribuem decisivamente para a construção de nosso mundo musical.

E a ópera? Bem, a ópera é um caso à parte. Há, sem dúvida, histórias de sucesso, como a do longevo Festival Amazonas de Ópera, que, com uma programação impressionante, conseguiu atrair atenção internacional e transformou o precioso Teatro Amazonas no principal referencial da música lírica do Brasil na atualidade. Também no Norte, em Belém do Pará, consolidou-se o Festival de Ópera do Theatro da Paz. E o Palácio das Artes, em Belo Horizonte, um centro cultural que atende diversas linguagens artísticas, se destaca no campo lírico nacional, tendo mantido a produção de dois títulos por ano.

Mas o que dizer do Theatro Municipal de São Paulo, em nossa metrópole mais rica, ou do Theatro Municipal do Rio de Janeiro, maior e mais tradicional casa operística do Brasil? Diversas administrações se sucederam nesses 25 anos, algumas dinâmicas e exitosas, outras nem tanto. É verdade que sempre houve óperas, mas, no cômputo geral, em quantidade e qualidade as temporadas ficaram aquém do que essas centenárias instituições mereceriam. O problema maior ainda é o dos teatros estarem submetidos a modelos administrativos estatais ultrapassados, não gozarem de prioridade nas ações públicas e sofrerem com ingerência de interesses estranhos à cultura.

Não seria possível falar da música dos últimos 25 anos sem lembrar de um dos mais importantes fenômenos desse período, que foi a ascensão dos programas de inclusão social. Tendo como paradigma o histórico El sistema venezuelano criado pelo maestro e economista José Antonio Abreu (1939-2018), a ideia ganhou o mundo e, também no Brasil, inspirou e impulsionou iniciativas de educação e difusão musicais. Entre dezenas, quero citar apenas duas, até por suas diferenças: o Neojiba da Bahia, fundado e dirigido pelo maestro e pianista Ricardo Castro – um projeto público mantido pelo governo da Bahia –, e o Instituto Baccarelli em São Paulo, legado do maestro Silvio Baccarelli (1931-2019) – uma instituição privada sem fins lucrativos que funciona por meio de incentivos fiscais da Lei Rouanet (olha ela aí de novo, garantindo com recursos de impostos públicos a execução de iniciativas transformadoras da sociedade civil).

Desde pelo menos o começo do século, orquestras e teatros de ópera no mundo todo buscam novas maneiras de interagir e se comunicar com a comunidade e seu público, também para legitimar o investimento que neles é feito. A sua função museológica, de depositário e difusor de vasto patrimônio histórico – talvez um dos mais valiosos criado no mundo ocidental – serve de ponte para a uma nova criação cultural contemporânea, com a discussão dos grandes temas que vivemos na atualidade. Desde o eminente colapso ambiental, passando pelas oportunidades e perigos da internet até os questionamentos sobre as desigualdades sociais, tudo – e assim sempre foi com a arte – é conteúdo que se reflete na criação da música e da ópera nos dias de hoje.

Para a Revista CONCERTO, foram 25 anos de muito trabalho, sucesso e emoções. As nossas conquistas não teriam sido possíveis sem o apoio de nossos milhares de leitores, de nossos anunciantes e do meio musical, e sem a competência e o engajamento de nossos jornalistas e colunistas. Entre os redatores que durante muitos anos colaboraram regularmente com a Revista CONCERTO quero citar os saudosos Flavio Florence e Lauro Machado Coelho, bem como Clóvis Marques, Graham Griffiths, Heloísa Fischer, Leonardo Martinelli e Luis Krausz. Hoje o time é formado por Camila Fresca, Irineu Franco Perpetuo, João Marcos Coelho, João Luiz Sampaio, Jorge Coli, Julio Medaglia e Luciana Medeiros. Na minha opinião, a melhor seleção. Eu me orgulho de contar com alguns dos principais profissionais de nosso país e agradeço a cada um deles!

Olhando confiante para o futuro, seguiremos trabalhando com empenho para difusão dessa grande arte, na certeza de que a cultura é uma das mais poderosas ferramentas de que dispomos para superar os grandes desafios que humanidade enfrenta!

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