Relatório da FIPP revela as principais estratégias da mídia global para enfrentar a crise de COVID-19

O impacto da pandemia de COVID-19 é o maior desafio da indústria jornalística em 75 anos, segundo relatório especial da associação mundial dos editores de revistas (FIPP). A necessidade de colocar em prática políticas de afastamento social, assinala o estudo, transformou de forma radical o cotidiano das redações e impactou os processos de produção e distribuição. A análise, realizada a partir de reuniões on-line com 20 representantes de associações nacionais de editores em todo o mundo e quase duas dezenas de executivos seniores de empresas internacionais de publicação, mostra ainda forte recuo na publicidade. Mas o estudo também indica que a atual crise estabeleceu tendências que abrem oportunidades para os publishers, como o aumento na busca por notícias produzidas pelo jornalismo profissional, a valorização dos conteúdos aprofundados e segmentados – encontrado nas revistas – e a maior disposição de muitos dos leitores para a compra de conteúdo de credibilidade comprovada.

O estudo, Publishing during a pandemic: Mapping a path through the Covid-19 crisis, faz uma detalhada análise das principais dificuldades impostas pela pandemia do novo coronavírus e, ao mesmo tempo, destaca estratégias para superar os desafios que fortalecem os editores nesta e em futuras crises. Nesse esforço, o relatório prioriza sete aspectos principais da indústria editorial no momento: criação de conteúdo; distribuição e bancas; assinaturas; tráfego na web e receita; eventos; receita com anúncios; e apoios dos governos aos editores.

Abaixo, um resumo de cada um desses capítulos:

1 – Criação de conteúdo

O adiamento ou o cancelamento de eventos criou um vazio na cobertura jornalística especializada. “Moda, ciclismo e setor automotivo, em particular, estão sendo duramente atingidos”, diz Ian Bedwell, diretor de licenciamento da editora britânica Dennis. Diante do problema, muitos publishers foram rápidos em adaptar seus conteúdos ao meio digital, de forma a engajar não apenas a audiência, mas também seus patrocinadores e suas principais fontes.  “Reforçamos nosso lado digital, tanto de tráfego como de marca, já que estamos recebendo a colaboração de muitas celebridades. Nós esperamos que essa tendência continue depois da pandemia”, afirma Rachel Saw, da também britânica Future PLC.

As coberturas relacionadas à COVID-19, entretanto, geraram enorme quantidade de tráfego e, para muitos, também resultaram em aumento no número de assinantes digitais. Foi o que aconteceu com os jornais alemães Bild e Welt, da Axel Springer, e o norte-americano The New York Times. “Estamos escrevendo muito sobre o vírus, mas também sobre negócios e política em torno da pandemia, ou o fato de as pessoas estarem em casa com crianças e a respeito das saúdes mentais e físicas dos leitores em confinamento”, diz Alice Ting, do The New York Times.

Publicações como as voltadas para crianças, por sua vez, estão experimentando um renascimento. “Nosso portfólio infantil vinha sofrendo muito antes do vírus, mas agora cresceu 38%”, conta Yulia Boyle, vice-presidente sênior de mídia internacional da National Geographic. “As crianças são provavelmente a nossa melhor história de sucesso neste momento”.

2 – Distribuição e bancas

A COVID-19 expôs as dificuldades enfrentadas pelas bancas como ponto de distribuição de produtos impressos. Nos países em que jornais e revistas não foram declarados como serviços essenciais, as dificuldades desse segmento se mostram ainda maiores. Na China, por exemplo, a venda de revistas caiu em pelo menos 30%, diz Wu Shangzhi, presidente da associação chinesa de periódicos. A maior razão para a queda, segundo ele, foi o fechamento dos quiosques. Com pequenas exceções em países como Bélgica e Suíça, o cenário se repete na Europa e nas Américas, e também está associado à interrupção ou fechamento de pequenas publicações. Estima-se que no Reino Unido, 5,5 mil dessas publicações deixaram de circular.  Na Itália, apenas nas grandes cidades as bancas permaneceram abertas, e elas experimentaram quedas de 20% nas vendas.

3 – Assinaturas

Se os consumidores não podem ir às bancas de revistas,
as revistas precisam chegar até eles. Em muitos países houve forte aumento nas assinaturas digitais, de certa forma acelerando a transição do impresso para o on-line. Ainda é cedo para estimar o quanto esse crescimento contribuirá para a receita geral das empresas, mas é certo que os publishers sabem que a tarefa principal é tentar reter os novos assinantes, ingressos em um período de muitas promoções. Esse é o objetivo de um projeto do diário britânico Financial Times que, no momento, presta serviços para oito editores da Europa.

O programa, liderado pelo braço de consultoria do diário, a FT Strategies, e com duração de nove meses, visa expandir negócios sustentáveis ​​de receita com leitores digitais de organizações financiadas pela Google News Initiative (GNI), informou o site Digiday. São eles: The Independent, (Reino Unido), La Croix, (França), El Mundo, (Espanha), MittMedia, (Suécia), RP Online, (Alemanha), Kurier (Áustria), Gazeta Wyborcza, (Polônia), Dennik N, (Eslováquia). O projeto tenta mapear padrões conhecidos para situações desconhecidas. A hipótese é entender mais sobre as pessoas e com o que elas se importam, para que, quando as notícias sobre o coronavírus diminuam, os leitores tenham motivos suficientes para manterem suas relações com os sites de jornalismo.

4 – Tráfego na web e receita

As pessoas foram ligadas a seus computadores e demais equipamentos com acesso à web durante o surto de Covid-19, usando-os como uma porta de entrada para o mundo exterior em busca de informações, contato e diversão, assinala o relatório. Nesse ambiente, além daquelas organizações reconhecidas por suas robustas coberturas factuais, as publicações especializadas, em especial aquelas voltadas para atividades feitas em casa, são as que registram maiores taxas de audiência e engajamento.

A tarefa central dos publishers, aqui, destaca o estudo, é colocar em prática iniciativas inovadoras para gerar receitas capazes de suplantar as demais perdas, incluindo que resulta dos menores investimentos publicitários.  Essa inovação passa também por encontrar parceiros comerciais.

5 – Eventos

Editores que obtiveram, nos últimos anos, crescente receita na produção, realização e transmissão de eventos, como os de entretenimento ou política e negócios, sofreram um duro golpe com os adiamentos e cancelamentos.  Novamente a inovação atrelada à tecnologia de ponta foi o caminho utilizado para minimizar os prejuízos. Na revista Fortune, por exemplo, as receitas do segmento de conferências representam 40% do faturamento total.  “Ainda temos eventos agendados para o quarto trimestre, mas estamos inovando com as conferências virtuais que são surpreendentemente envolventes e encontraram patrocinadores”, diz Jim Jacovides, vice-presidente de licenciamento e desenvolvimento da publicação. Segundo ele, o sucesso é tanto que as conferências virtuais podem se transformar em um novo negócio ao lado dos encontros presenciais após a crise.

Elizabeth Stewart, diretora editorial da britânica Embassy Magazine, concorda que a adaptação à COVID-19 abriu novos horizontes. “O distanciamento social acelerou a adoção de novas tecnologias para alcançar o nosso público. Os seminários on-line não podem replicar o burburinho de um evento ao vivo, mas abre oportunidades bastante emocionantes”. É exatamente o que acontece no Brasil, onde muitas empresas de mídia têm feito com sucesso webinários e lives. Mas, em geral, haverá perdas, afirmam os publishers.

6 – Receita com anúncios

As principais projeções apontam para uma redução média próxima a 10% nos investimentos publicitários de 2020 em relação a 2019. Durante a pandemia, as perdas chegam a 60% no Reino Unido, 80% na Espanha e 70% em Portugal e na França, por exemplo. No Canadá, estimam-se perdas entre 50% e 70% durante a crise. Na Índia, o único setor de onde revistas viram um aumento de publicidade foi nos serviços de educação on-line.

7 – Apoio dos governos

Em diferentes países, as organizações de notícias tem procurado, por meio de suas associações, negociar com os governos estímulos pontuais ao setor para enfrentar a crise. Mas a ajuda concreta, até o momento, oi efetivada em poucas regiões.

No Reino Unido, onde o governo destinou recursos orçamentários para a mídia e intensificou os anúncios, bem como convocou os anunciantes a investir nas publicações, que ganharam status de serviços essenciais. No Canadá, o apoio também é substancial, uma vez que o governo já tinha linhas de crédito específicas para o setor. Na Espanha, o imposto sobre valor agregado (IVA) foi reduzido de 21% para 4%.

Nos Estados Unidos, as principais associações de publishers têm procurado obter junto ao governo um pacote de medidas, em especial para a mídia local, mas até o momento não existe iniciativa específica, assim como no Brasil, onde há um plano geral de apoio às empresas.

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