QUAIS OS LIMITES DA MISTURA EXPLOSIVA ENTRE POLÍTICOS E REDES SOCIAIS

ÉPOCA – 28/07/2019

Daniel Salgado

É comum que o início de um governo seja marcado por notícias de brigas internas, propostas de decretos, declarações controversas e provocações aos adversários. A grande surpresa do início dessa nova gestão se deu pelo fato de que, desta vez, boa parte dessas confusões generalizadas aconteceram não apenas na imprensa ou nos corredores de Brasília, mas principalmente nas redes sociais.

A começar pelo presidente Jair Bolsonaro, que usa fartamente seus perfis no Twitter, Facebook e Instagram para falar de tudo um pouco aos seus seguidores — em uma estratégia que, inclusive, impulsionou sua eleição —, os políticos brasileiros parecem decididos em apostar nas redes sociais como ferramenta de trabalho.

Não foi apenas o núcleo duro do governo que adotou a prática. O presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia , já utilizou o Twitter algumas vezes para questionar publicamente falas feitas por Bolsonaro ou membros de seu gabinete.

Os ex-candidatos à Presidência Fernando Haddad, Ciro Gomes e Guilherme Boulos também têm presença ativa na rede.

Até os ministros passaram a chamar a atenção na plataforma. O ministro da Justiça, Sergio Moro, foi um que criou conta na plataforma neste ano e a utiliza com frequência. Damares Alves, dos Direitos Humanos, e Ricardo Salles, do Meio Ambiente, também têm perfis atualizados. Mas, talvez, o primus inter pares seja o ministro da Educação, Abraham Weintraub.

Debochado, ele polemiza com frequência — o vídeo em que aparece comentando o contingenciamento de gastos de sua pasta enquanto segura um guarda-chuva ao som de uma trilha sonora clássica do cinema despertou a ira de muitos seguidores.

Sua ação mais notória, porém, foi a decisão de bloquear a professora universitária e antropóloga Débora Diniz , a quem chamou de “comunistinha”. A decisão foi contestada, e um grupo de advogadas entrou na Justiça para que o ministro desbloqueasse Diniz.

O argumento era que Weintraub utiliza a plataforma como canal oficial, logo seria direito da professora saber o conteúdo ali veiculado. O caso ainda não teve uma decisão, mas a discussão não é nova: as redes sociais dos políticos deveriam ser reguladas? Elas operam de maneira diferente dos demais usuários? O consenso não existe. Especialistas ouvidos por ÉPOCA deram visões diferentes — e caminhos convergentes — para o tema que também domina o debate político de outros países como os Estados Unidos.

“Não existe nenhuma legislação específica que obrigue uma determinada conduta de um agente público de forma positiva. No entanto, existe um arcabouço principiológico que rege o serviço público. A lei geral traz alguns princípios, entre eles a impessoalidade e a moralidade”, explica Marco Konopacki, coordenador da área de democracia e tecnologia no ITS Rio. Para ele, se trata principalmente dos políticos entenderem que, durante seus mandatos, seus canais de comunicação com o público passam a representar as instituições que ocupam, cada uma com suas regras de comportamento.

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