Professor vizinho do Morro do Juramento cria super-herói carioca; conheça o Chama Negra

O GLOBO – 09/08/2020

Diego Amorim

Vizinho do Morro do Juramento, Julio Cesar Paladino, de 30 anos, deu vida a um personagem que ganha poderes após ser expulso de uma comunidade.

O cotidiano de uma favela, muitas vezes marcado pela violência e falta de infraestrutura, frequentemente obriga moradores a se transformarem em verdadeiros super-heróis para seguir em frente. Foi pensando nisso que o professor de educação física Julio Cesar Paladino, de 30 anos, criou o Chama Negra, personagem de um livro que mescla ficção científica, aventura e as adversidades das comunidades cariocas. Segundo o autor, que mora perto de um dos acessos ao Morro do Juramento, em Vicente de Carvalho, a obra tem passagens inspiradas em dramas reais.

— Sempre gostei de histórias em quadrinhos e séries de ficção, como “O senhor dos anéis” e “Star wars”. Com o tempo, comecei a lamentar o fato de não existir um super-herói brasileiro que enfrentasse o que gente vê aqui. A inspiração para o Chama Negra é o lugar onde sempre morei, a comunidade, a luta contra a violência policial, a opressão do crime organizado — explica Paladino.

Em “O Chama Negra: Origem”, Francisco é um rapaz preto e pobre que mora numa favela do Rio. Com muita batalha, ele tenta transformar sua vida por meio da educação e conta com a ajuda de dois grandes amigos: Bruna, por quem é secretamente apaixonado, e Gabriel. Um dia, Francisco é expulso da comunidade por um traficante. Em seguida, conhece um cientista e, ao fim de uma série de acontecimentos, ganha superpoderes, incluindo a capacidade de manusear o fogo e energizar objetos.

— Nenhuma das aventuras saiu da minha imaginação. Sempre ouvi, por exemplo, que determinado bandido mandou fechar o comércio ou que a polícia chegou e fez algo errado no morro. Num trecho da história, um personagem conta que traficantes “alugaram” um veículo blindado da PM para invadir uma comunidade. A gente sabe que isso aconteceu, foi até notícia nos jornais e na TV. Eu perdi dois tios, que morreram abandonados no corredor de uma UPA, e isso também está presente no livro — conta Paladino.

Elogio à iniciativa
Rene Silva, idealizador do jornal “Voz das comunidades” e eleito, em 2018, um dos negros mais influentes do mundo pela organização novaiorquina Mipad, ainda não leu o livro, mas elogia a criação do Chama Negra:

— É uma iniciativa incrível, achei a ideia fantástica. Muitos jovens precisam apenas de uma oportunidade para mudar seu futuro. Acredito que só vamos descobrir a realidade do Brasil quando olharmos com respeito para o retrato da favela, com todos os seus problemas de falta de saneamento, lazer, de educação e saúde. Quantos jovens, assim como Francisco, não merecem ser reconhecidos como heróis?

Atualmente, “O Chama Negra: Origem” está disponível apenas como e-book, à venda no site da Amazon por R$ 9,99. O livro físico só existe em versão experimental — Paladino busca uma editora interessada em publicá-lo. Por enquanto, ele vende exemplares sob encomenda.

— Publiquei uma quantidade de forma independente. Busquei algumas editoras, mas não houve acordo financeiro. Entendo que é difícil apostar em alguém completamente desconhecido, mas confio no meu trabalho, a história é muito legal. Os adolescentes são o público alvo — afirma o autor. — Quem já leu pede uma continuação. Criei um perfil no Instagram (@ochamanegra) para que mais pessoas possam conhecer o personagem.

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