Perspectivas Aner: Jornalismo na atualidade e as novas tecnologias

17 de janeiro de 2022

 

Com a experiência de quem estuda e vive o ambiente das universidades e da pesquisa no campo do jornalismo e da comunicação, o futurista, doutor e professor de Jornalismo e Novas Tech, Marcelo Barcelos, conversou conosco sobre o que se pode esperar e como os editores devem se preparar para 2022. Muito além de apenas tecnologia, Marcelo faz um panorama da necessidade de atenção ao que o jornalismo precisa assumir como sua responsabilidade, o que ele chama de um “jornalismo de verdade”.

Pesquisador dedicado a entender como a Comunicação Digital, a Automação e a Robótica irão transformar a pós-humanidade, tem sete livros publicados, mais de 200 análises, como fonte especialista, em em emissoras como Globo/NSC, CNN Brasil, SBT, Record/RIC e Band. Marcelo tem participado dos principais eventos da área no Brasil, na última década, e também apresentou pesquisas na Argentina, em Portugal, Espanha e Itália. Atua, ainda, na gestão inovadora de equipes e no desenvolvimento de projetos de alta performance em Comunicação Híbrida, Interna e Corporativa, sobretudo, com ênfase em planejamento de ConteúdoDigital, Storytelling, Branding e Métricas, inspirado por soluções que emergem em parques tecnológicos, startups e incubadoras do futurismo.

O livro mais recente de Marcelo é “Jornalismo em todas as Coisas – O futuro das notícias com inteligência Artificial (AI) & Internet das Coisas (IoT), pela Editora Insular. Nele, Marcelo faz uma aposta de jornalismo com participação intensa da tecnologia e elabora cenários para o jornalismo hiperconectado e automatizante.

Como você avalia o jornalismo na atualidade?

Há uma “sede” libertina e sagaz, crescente e de resgate histórico, por um jornalismo de autoria e corajoso; de um tipo de jornalismo “raiz”, aquele que fala com o público/leitor; que enumera suas dores e temores – e, óbvio, supera o capitalismo [de dados] e sustenta, em tempos de censura digital/governos autoritários, a defesa da vida, principalmente, para aquelas/aquelas que mal conseguem ver que estão sendo sorvidos/sorvidas pela máquina da desigualdade, da invisibilidade e da pobreza…

É preciso mirar em um jornalismo, volto a dizer, transformador, corajoso, incômodo para as elites; vigoroso além do cercadinho que encurrala a imprensa; criativo e terrivelmente democrata. Jornalismo que veja e reconheça – e tome como causa incansável – a recuperação de um Brasil destituído de si, raivoso contra si, esquecido e ludibriado…

Um Jornalismo que saiba ocupar seu lugar de mérito, espaço e função social únicos, ainda mais em democracias em risco, como a nossa. Um Jornalismo que jamais abandone o rastro de destruição que a pandemia – e as omissões governamentais – produziram. E que saiba cobrar e acompanhar os fatos e seus longos desdobramentos.

Este Jornalismo, muito antes do Jornalismo 5G que estudo e pesquiso – e que deve demorar pelo menos dois ou três anos para ser vivido por parte da população; do Jornalismo Automatizado que debato; do Jornalismo para o Metaverso que tanto se especula…

A inovação nas redações tem sido muito perseguida, como uma solução para os problemas, principalmente os de caixa. Na tua opinião, a inovação tecnológica é a solução?

Antes de pensarmos a inovação, muitas vezes “vendida” como um apertar de botões e múltiplas telas, um adds impessoal, é urgente que se oferte jornalismo de verdade. Isto, pra mim, em um Brasil enlutado neste 2022, depois de dois anos, praticamente de negacionismo e necropolítica, é essencial e fará toda diferença para o futuro jornalismo que merece ser pago/consumido e defendido. E, por conseguinte, capaz de penetrar e incomodar o Brasil profundo e esquecido, deteriorado pela crise política e econômica dos nossos tempos.

Talvez devamos nos concentrar para o Jornalismo da verdade que age e diz, com todas as letras: essa notícia é falsa! Aqui cravo como tendência para 2022, este será nosso exercício principal. E não se pode mais ignorar a natureza do fazer – legítimo – do compromisso social do jornalismo, para propor renovação e inovação. Só depois disto, é possível apostar em inovação de plataforma, linguagem e modelo de negócio inovador [e sustentável].

A renovação/inovação, antes de tudo, precisa respeitar isso. E tornar isso um valor, um valor monetizável. Afinal, estamos falando de sobrevivência e proteção à vida. Num mercado voraz, quem sabe, isso possa ser melhor negociado.

O que você daria como dica importante para que os editores não fiquem para trás em 2022?

Uma questão parece ser primordial, em tempos de avanço do Jornalismo Científico e necessidade, diária, de informações analíticas sobre a Saúde Pública e Economia: Estas duas editorias protagonizarão a pauta de 2022. E, para explicar e problematizar a dobradinha, nada melhor do que investir em projetos gráficos arrojados, com capricho na visualização de indicadores/dados de pesquisa; infográficos interativos e alimentados por bases de dados de fluxo contínuo.

Os vídeos e lives também têm sido indicados como necessários neste diálogo com o público, certo?

A edição em tempo real e direção de lives, também, prometem ser dois pontos de atenção. Justamente por isso, por termos cada vez mais a necessidade de conversar com audiências ativas, é importante que se dedique jornalistas na função de gestão da fase de fãs. Interagir, com perguntas, comentários, quizz e por pedidos de colaboração dão o tom do relacionamento digital de leitores/as e as marcas jornalísticas. Insisto, sempre, que a marca deve assumir uma comunicação horizontal, humanizada, principalmente nas estratégias de chamar atenção da rede – e fazer o algoritmo trabalhar pra nós.

Alguma dica em relação ao tratamento de dados?

Transparência de dados públicos é outro grande desafio para 2022, ainda mais para quem atua em raspagem de dados e reportagens com base nas informações que estão, em tese, asseguradas pela Lei de Acesso à Informação. Em tempos de autoritarismo e guerrilha digital, e recordes de ataques à imprensa brasileira, as redações, os editores e as empresas precisam, obrigatoriamente, criar esquemas de segurança e blindagem para que seus repórteres voltem, sãos e salvos, para escrever suas reportagens, sem medo de retaliações e perseguição.

 

Marcelo Barcelos é doutor em jornalismo pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), futurista e autor de livros como Jornalismo em todas as coisas | O futuro das notícias com inteligência artificial (AI) & internet das coisas (IoT), pela Editora Insular

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