Os maiores riscos de 2021 – e como eles vão afetar o Brasil

ÉPOCA NEGÓCIOS – 21/01/2021

DANIELA FRABASILE

Um novo presidente nos Estados Unidos, uma pandemia que se estende há mais de um ano e ainda demorará para ser combatida, mais atenção às mudanças climáticas, a crescente tensão entre as duas maiores potências mundiais. Esses são os quatro maiores riscos que irão moldar 2021, segundo a Eurasia. Todos os anos, a consultoria publica seu relatório de Top Risks, com os temas que serão centrais nos próximos 12 meses. Entretanto, 2021 começa com desafios a mais. “O ano começa em meio à maior crise de nossas vidas. A resposta de saúde à pandemia definiu 2020. A resposta econômica irá definir 2021”, diz Ian Bremmer, presidente da Eurasia.

A presidência de Joe Biden nos Estados Unidos aparece como o principal risco de 2021. Com a recusa de Trump em aceitar sua derrota, o cenário político norte-americano inicia o ano mais polarizado do que nunca. Na visão da consultoria, isso enfraquece o país no cenário internacional. Em segundo lugar, está a pandemia de covid-19, que ameaça não apenas as vidas, mas também a estabilidade política e a economia global. “Países em todo o mundo terão dificuldade em cumprir ambiciosos prazos de vacinação e a pandemia deixará um legado de dívidas elevadas, trabalhadores deslocados, desigualdade crescente e perda de confiança”, diz a consultoria.

Na terceira posição dos principais riscos de 2021, aparece a rápida corrida em direção à neutralidade de emissões de carbono, frente que se torna uma arena global de competição. As tensões entre Estados Unidos e China aparecem em quarto lugar na lista.

Em quinto lugar, a consultoria de riscos lista a maior regulação sobre os dados pessoais de usuários da internet. Com o maior controle sobre quem tem acesso às informações, diz a Eurasia, “os modelos de negócios nos setores inovadores de tecnologia irão sofrer”. Em seguida, um risco relacionado ao anterior: os imprevisíveis ataques cibernéticos.

As tensões domésticas na Turquia ocupam o sétimo lugar na lista, seguidas pela situação do Oriente Médio frente aos baixos preços do petróleo no mercado internacional. Já a saída de Angela Merkel do poder deixa um vácuo na Europa, o que representa o nono risco na lista. Por fim, aparece a América Latina, onde a resposta dos governos locais à pandemia desapontou. “Os governos latino-americanos enfrentam versões intensificadas dos enormes problemas políticos, sociais e econômicos que já existiam mesmo antes da pandemia”, escreve a Eurasia.

Em conversa com Época NEGÓCIOS, Ian Bremmer comentou os riscos para 2021, e quais são seus impactos para o Brasil. Confira a entrevista completa:

A Eurasia faz o relatório sobre os maiores riscos há muitos anos. O que foi diferente em 2021, com a pandemia?
O cenário é muito mais instável, com muito mais volatilidade e perigos. A realidade do coronavírus acelerou muitas tendências, como um futuro sem geração de poluentes, a maior desigualdade dentro dos países, as questões sobre a legitimidade de algumas instituições políticas, a falta de confiança e as mudanças na liderança internacional. Tudo isso estava se desenvolvendo incrementalmente na última década e se exacerbou por causa do cenário extraordinário de saúde, economia e política trazidos pelo coronavírus. Teremos uma queda de 10% na economia global, na comparação com o que seria sem a covid-19. Tudo aconteceu no curso de um ano. E tudo isso reflete nas nossas previsões para 2021, que são mais conturbadas.

Falando sobre o primeiro risco, Biden na presidência dos EUA e a polarização política norte-americana. É claro que isso é um risco para os Estados Unidos e para o mundo, mas como vai afetar especificamente os mercados emergentes, como o Brasil?
Quando a maior economia do mundo está tão dividida, isso levanta uma questão sobre o futuro da ordem global. Isso dá mais espaço para a China, por exemplo, desafiar a ordem global e criar uma arquitetura alternativa no comércio internacional. Com isso, você não tem um padrão global, uma série de valores aos quais se alinhar. Por muito tempo, as pessoas olhavam para os Estados Unidos como uma representação da democracia e do livre mercado, com alguma regulação. O mundo ia mais ou menos para onde o governo dos EUA estava indo. Não podemos mais dizer isso. A China vai se tornar a maior economia do mundo em 2028, com seu estado capitalista autoritário. Os Estados Unidos já não representam uma democracia tão estável e legítima quanto a Alemanha ou o Japão. Então, se você é um país emergente como o Brasil, a ideia do que você vai emergir para ser muda. Você está se desenvolvendo para qual forma? Talvez os Estados Unidos já não sejam o modelo que pensávamos que eram.

E a questão interna do Brasil, que tinha um alinhamento ao governo Trump? Como ficam as relações agora, com Biden no poder?
Há ainda essa questão. O presidente Bolsonaro terá um desafio com Biden, especialmente na questão do clima. Bolsonaro se aproxima de um cético quanto às mudanças climáticas, certamente na questão do desmatamento da Amazônia, e Trump estava alinhado a essa visão. Mas o resto do mundo – e Biden – não estão alinhados a Bolsonaro. Além disso, Bolsonaro começou a levantar questões sobre fraudes nas eleições brasileiras, da mesma forma como Trump questionou o resultado das eleições aqui nos EUA. Se Bolsonaro questionar a legitimidade das eleições, será um grande problema. Nos Estados Unidos isso já foi um problema, e temos um exército e poder judiciário mais resilientes, fortes, independentes e profissionais. Temos de esperar os resultados de 2022, mas acho que os Estados Unidos causarão alguns problemas. No fim, os EUA são um modelo para o Brasil, mas não da forma como gostaríamos.

Falando agora no risco número 2, o coronavírus. Você fala sobre uma recuperação em forma de K, com alguns setores se recuperando enquanto outros permanecem em crise. Como os governos podem reduzir o estresse nos setores negativamente afetados?
A recuperação econômica é muito mais fácil para quem tem um diploma universitário, faz parte da economia do conhecimento e pode praticar o distanciamento social. Mas enquanto estamos em casa, estamos vendo 350 mil mortos nos EUA e o capitólio sendo ocupado. No dia 6 de janeiro, os mercados financeiros alcançaram níveis recorde. Isso mostra o nível de desigualdade em meu país agora. A forma como temos que responder, primeiro e mais importante, é a redistribuição de renda. Os europeus estão fazendo programas massivos de redistribuição de renda. Acho que Biden conseguirá promover US$ 2 ou US$ 3 trilhões em auxílios nos EUA no curto prazo. Mas no longo prazo, sabemos que as pessoas que não estão inseridas na economia do conhecimento não terão empregos, e não terão muito a oferecer ao capitalismo. Essa é a grande mudança estrutural na forma como pensamos a economia: o setor de tecnologia se dá muito bem, as pessoas com diplomas se dão muito bem, mas as outras pessoas têm cada vez menos a oferecer. E ainda não sabemos o que fazer sobre isso. Não temos bons modelos, sabemos que precisamos de mais redistribuição de renda, mas não sabemos investir mais em educação vitalícia universal. A economia global está se transformando e é cada vez mais voltada ao trabalho com dados. Mas mesmo assim, o contrato social não se transformou de verdade. Os modelos de governança para os cidadãos não se transformaram. Esse é o problema.

Ainda falando sobre a recuperação da economia. Em sua visão, a vacina é crucial para essa retomada? Alguns países como o Brasil estão tendo dificuldades de comprar doses…
Várias coisas são críticas para a recuperação. A vacina é muito, muito importante, mas antibióticos e tratamentos melhores também são, assim como melhores testes. Já sabemos que com novos antibióticos e novos antivirais conseguimos melhorar o fluxo de oxigênio, e a mortalidade hoje é cerca de metade do que era seis meses atrás. Você não precisa vacinar toda a população para ter uma grande diferença. Se vacinar pelo menos 10%, as pessoas que são mais vulneráveis a morrer, já derruba as taxas de mortalidade. E se você puder fazer testes de forma mais eficiente e barata, pode lidar com os surtos mais rapidamente. Acho que há várias ferramentas, e as vacinas são uma delas, especialmente porque são muito melhores do que esperávamos. Seremos capazes de derrotar essa doença em alguns anos, eu acredito nisso. Não era o caso três meses atrás, mas agora é.

O relatório menciona que os compromissos com o meio ambiente vão importar mais do que nunca em 2021. Por que isso é um risco?
Há dois lados. Em primeiro lugar, estamos abandonando os combustíveis fósseis cada vez mais rápido, o que significa que as empresas e os países que dependem de carvão, gás e petróleo estarão sob mais pressão. As pessoas não vão investir na ExxonMobil da mesma forma como antes, não vão investir na Arábia Saudita da mesma forma como antes, nem na Rússia. Todos esses países estarão sob pressão econômica. Além disso, teremos vários países tentando zerar suas emissões, mas de forma descoordenada. Estados Unidos e China estão tentando dominar essas novas tecnologias como smart grid, energia solar e eólica. Isso cria uma tensão geopolítica.

Qual o papel do Brasil nessa transição?
O Brasil está sofrendo mais pressão. Há algumas razões pelas quais o Brasil não foca em mudanças climáticas, porque está focando em desenvolvimento. Os Estados Unidos foram o maior emissor de CO2 historicamente, e agora começamos a prestar atenção às mudanças climáticas. Mas há muitos países mais pobres que querem poder emitir CO2 para se industrializar. Há essa questão de justiça e equidade, e eu entendo que os brasileiros não fiquem felizes com isso. A disposição dos Estados Unidos em enviar dinheiro para o Brasil para ajudar a lidar com essas questões é baixa nesse momento, então será desafiador.

O relatório menciona também que a América Latina é o segundo maior perdedor com a crise do coronavírus, atrás apenas do Oriente Médio. Por que?
Porque o sistema de saúde não é muito bom, e a segunda onda do coronavírus é severa. Já há muito rancor entre a classe média sobre não receberem serviços tão bons quanto esperavam, e os governos não estão respondendo bem. Quando você coloca isso tudo junto, mais o fato de que as vacinas não estão chegando tão rápido e não são tão eficientes quanto a da Pfizer, por exemplo, isso significa que os países da região estarão sob mais pressão do que estavam antes.

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