O MUNDO ‘PÓS-LIKES’ PODE COLOCAR O FACT-CHECKING EM XEQUE

ÉPOCA – 16/09/2019

CRISTINA TARDÁGUILA

Se você acompanha de perto os movimentos de Facebook, Instagram, Twitter e Youtube, já sabe que as curtidas parecem ter os dias contados. As quatro gigantes implantaram ou estão testando formas de omitir quantos likes uma postagem teve. Agora, se você é do tipo que não segue esse noticiário, comece a prestar atenção a essas mudanças. As alterações podem afetar em cheio o trabalho dos checadores de fatos no mundo todo e, em consequência, ampliar o grau de desinformação nas redes sociais.

Numa primeira leitura, o movimento em favor da desmetrificação dos posts — sejam eles em formato de textos, fotos ou vídeos — parece ser uma resposta à indústria dos likes e ao dano psicológico que ela pode causar.

Lá atrás, quando as redes sociais saíram do papel, as curtidas serviam não só para mostrar o sucesso de uma publicação, mas também para influenciar o algoritmo de algumas das plataformas e fazer com que aquele conteúdo fosse distribuído para mais pessoas.

Em alguns anos, surgiram as fazendas de curtidas e os robôs, sistemas que poderiam ser comprados de forma a “viralizar” um conteúdo e a transformar um determinado indivíduo num influenciador digital. Com isso, veio o caos mental. A busca por curtidas e a angústia atrelada a sua ausência.

A desmetrificação seria, portanto, uma forma de quebrar esse ciclo vicioso: sem saber quantos likes um conteúdo ou uma pessoa têm, as redes sociais sobreviveriam apenas pela qualidade real daquilo que comportam.

Em julho deste ano, o Instagram deu o primeiro passo. Passou a “esconder” o número de curtidas das postagens feitas em sete países do mundo: Brasil, Canadá, Austrália, Itália, Irlanda, Japão e Nova Zelândia. E o marketing digital reclamou. Muito. Influenciadores já não tinham como provar o sucesso de suas postagens — nem cobrar por elas. Nas empresas, os marketeiros já não sabiam ao certo em que contas investir — muito menos medir seu ROI (return of investment).

Hoje em dia, sabe-se que o Facebook (dono do Instagram) faz testes internos no mesmo sentido, assim como o Twitter. O YouTube, por sua vez, deixou de mostrar o número exato de pessoas inscritas em canais. A contagem mostra apenas números aproximados.

É possível que você tenha chegado até aqui comemorando essas decisões. Então precisa saber que o trabalho dos fact-checkers de todo o mundo depende – e muito – das métricas produzidas pelas redes sociais. Qualquer alteração na exibição delas deveria passar por uma discussão com os checadores.

Explico: todos os dias, as redações das plataformas de checagem recebem centenas de posts apontados como supostamente falsos para checar. É com base nas métricas — número de likes, de compartilhamentos e comentários — que as equipes determinam o que merece atenção imediata, com base no potencial de vitalização indicado pelos dados. A ausência deles pode colocar os checadores num estado semelhante ao que se vê hoje em dia no WhatsApp.

E já há casos concretos disso. Ao agir contra fotos antigas atribuídas às queimadas da Amazônia, os fact-checkers da Agência Lupa perceberam que já não podiam contar com o aplicativo de celular do Instagram. Ele já não informava o número de likes das fotos que circulavam fora de contexto. Tiveram de correr para o computador para verificar se, por lá, ainda era possível saber qual imagem merecia ser trabalhada antes. Foi com alívio que constataram que, pelo desktop, ainda era possível ver o número de curtidas.

Imagine agora como seria se todas as redes sociais retirassem dos checadores a informação sobre qual texto, imagem e vídeo falso está sendo mais espalhado pela rede. Você certamente o receberia — sem a devida checagem em anexo. Talvez esse lado da desmetrificação mereça ser mais debatido.

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