O LADO SOMBRIO DA UTOPIA TECNOLÓGICA

ÉPOCA – 11/10/2019

Andrew Marantz, “The New Yorker”

Em 1476, aproximadamente duas décadas depois da publicação da Bíblia de Johannes Gutenberg, um comerciante chamado William Caxton construiu a primeira prensa tipográfica da Grã-Bretanha, num prédio próximo à Abadia de Westminster. No ano seguinte, usou-a para publicar um livro, um dos primeiros a ser impressos em grande escala em inglês, intitulado Os ditos e ditados dos filósofos . (O título era redundante: “ditos” e “ditados” são a mesma coisa.) O livro era uma tradução de uma antologia francesa, que era uma tradução de uma antologia latina, que era uma tradução de uma antologia espanhola, que era uma tradução de uma antologia arábica, que havia sido transcrita da tradição oral do Egito, no século XI.

Os ditos era o que os classicistas chamam de “doxografia” — uma lista, por capítulo, de pensadores antigos e o que eles disseram ou o que se diz que disseram. O capítulo de Sócrates, por exemplo, incluía um breve sumário sobre sua vida e morte, alguns detalhes descritivos (“Quando ele falava, balançava seu dedinho”) e uma exposição de suas várias opiniões, incluindo a que a filosofia só deveria ser transmitida oralmente, não por meio de livros.

Muitos dos ditados eram aforismos místicos (“O pensamento é o espelho do homem, no qual ele pode perscrutar sua beleza e sua imundície”), dicas de dieta alarmistas (“O vinho é o inimigo da alma… e é como tacar fogo no fogo”) ou hinos a uma divindade que aparentava ser tediosa e anacronicamente cristã. Diz-se que Pitágoras instruiu seus seguidores a “servir a Deus”. Omitiu-se que Pitágoras era pagão e acreditava na reencarnação e em numerologia oculta. Ainda assim, pelo menos Pitágoras era real. Alguns dos outros filósofos em Os ditos , como Zalquinus e Tac, provavelmente nem sequer existiram.

Ao que parece, o volume inteiro estava saturado do que chamamos agora de fake news. Caxton não introduziu esses erros; eles estavam lá desde o começo. De acordo com a Enciclopédia de literatura árabe , a antologia egípcia na qual todas as traduções subsequentes foram baseadas era “altamente influente tanto em informação quanto em estilo”, apesar de ser “quase totalmente imprecisa; e os ditados, altamente duvidosos”.

A história-padrão das grandes tiragens é uma história de progresso linear e teleológico. É assim: antes de Gutenberg inventar a prensa móvel, livros eram objetos preciosos, escritos à mão por escribas e disponíveis principalmente em latim. A maioria das pessoas comuns não tinha dinheiro para comprar livros e também não teria sido capaz de lê-los; além disso, era explorada por poderosos gatekeepers — aqueles que definem o que será noticiado ou não, como, na época, era a elite de latifundiários, os oligarcas da Igreja e do Estado —, que poderiam usar seu monopólio sobre o conhecimento para reprimir as massas. Depois de Gutenberg, livros foram amplamente disponibilizados, desencadeando uma série de movimentos e inovações salutares, incluindo, mas não só, a Reforma Protestante, o Iluminismo, os motores a vapor, o jornalismo, a literatura moderna, a medicina moderna e a democracia moderna.

Essa história não está completamente incorreta, mas deixa de fora muitas coisas. Por exemplo, Gutenberg não foi o primeiro a usar o tipo móvel — um artesão chinês chamado Bi Sheng havia desenvolvido seu próprio processo, usando argila e cinza de papel, três séculos e meio antes do nascimento de Gutenberg. Além disso, a informação quer ser livre, mas a desinformação também. A prensa móvel deu poder a reformistas — e a mercenários, especuladores de guerra, terroristas e preconceituosos. Ela nem sequer eliminou o problema dos gatekeepers, apenas o mudou de lugar. Os antigos eram príncipes e padres. Os novos, empresários como Gutenberg e William Caxton ou qualquer um que tivesse dinheiro suficiente para ganhar acesso a sua poderosa tecnologia.

Desde o começo, Caxton estava ambivalente quanto a seu status como gatekeeper. Ele parecia até desconfortável admitindo seu poder. Em um epílogo, escreveu que, depois de receber uma tradução em inglês da versão francesa de Os ditos , leu o manuscrito e “não encontrou nada discordante nele”. Bom, exceto por uma coisa. “Nos ditos e ditados de Sócrates”, ele escreveu, “o tradutor omitiu várias conclusões a respeito das mulheres.” Em versões anteriores, o capítulo de Sócrates havia incluído uma digressão repentina à misoginia mesquinha. (“Ele viu uma mulher enferma, da qual disse que o mal descansava e duelava com o mal.” E “Ele viu uma jovem donzela que aprendeu a escrever, da qual disse que o homem multiplicava mal com mal”.) Na tradução para o inglês, a digressão não estava lá.

Caxton deveria indeferir a tradução e restaurar o texto original? Ou deveria deixar permanecer a censura, insinuando que, mesmo que tais insultos fossem comuns na antiga Atenas ou ainda no Cairo medieval, eles seriam agora inadmissíveis? Após muitas frases de aflição elaboradas, ele tentou fazer as duas coisas. Caxton traduziu a passagem misógina para o inglês e reproduziu-a por completo. Mas, em vez de colocá-la no contexto original, introduziu-a no meio de seu epílogo, como se estivesse de quarentena. Assim que Caxton tomou sua decisão, tentou justificá-la. No resto do epílogo, ele insinuou que não era um gatekeeper, afinal, e que, apesar de claramente ser um editor, sua prensa tipográfica deveria ser tratada mais como uma plataforma. Ele estava meramente servindo a seus clientes: eles mereciam escutar todas as perspectivas e decidir sua opinião por conta própria. Além disso, qualquer um que se ofendesse deveria culpar Sócrates, e não Caxton. Melhor ainda, o leitor que não gostasse da passagem poderia “com uma caneta, riscá-la ou então arrancar a página do livro”.

No século XX, assim que as redes comutadas tornaram-se a internet, uma geração de futuristas e palestrantes do TED Talk surgiram, explicando o novo sistema aos leigos num clima entusiasmado de tecnoutopismo. Eles compararam-no a uma autoestrada, um mercado de ideias, uma prensa tipográfica. Qualquer um que passasse muito tempo na internet sabia que muitas partes pareciam mais um mercado de pulgas surrado ou um estacionamento do lado de fora de um bar momentos antes de uma briga começar. Os tecnoutópicos provavelmente sabiam dessas partes também, mas eles não as mencionavam com frequência.

Em 1998, James Dewar, analista político da Rand Corporation, escreveu um artigo intitulado The information age and the printing press: looking backward to see ahead ( A era da informação e a prensa móvel: olhando para o passado para ver o futuro ). Ele tinha uma visão favorável do passado e extrapolou isso, fazendo uma especulação esperançosa sobre o futuro. “A prensa esteve envolvida na Reforma Protestante, no Renascimento e na Revolução Científica”, escreveu. “Mudanças profundas similares talvez já estejam em curso na era da informação.” Perto do fim do artigo, admitiu que “nós já estamos vendo parte do lado sombrio da rede de computadores”. Ele listou alguns exemplos: “Novas maneiras interessantes de invadir sistemas de computadores”; “Correntes de e-mail (são ilegais e consomem banda)”; “Trolls postando em grupos de discussão”. Ainda assim, essa breve restrição, que apareceu numa seção chamada “Reflexões posteriores”, foi, no máximo, superficial. Não surtiu efeito na conclusão otimista e categórica de Dewar de que era “mais importante explorar o lado positivo da tecnologia do que nos proteger do lado negativo” e que, portanto, “a internet deveria permanecer sem regulação”.

Na década seguinte, alguns jovens nerds criaram um punhado de redes sociais que cresceram rápido — Myspace, Twitter, Reddit, Facebook. Eles não fingiam saber como exatamente ela seria utilizada e pensaram ainda menos em como ela poderia ser mal utilizada. Apesar das autojustificativas de Caxton, as gerações seguintes de “impressores” viam a si como gatekeepers, e a editoração havia se tornado uma indústria definida tanto por aquilo que publicava como pelo que não publicava. Na nova indústria das redes sociais, a configuração-padrão estava ao avesso. Os fundadores prometeram manter suas plataformas “neutras quanto ao conteúdo”. Partiu-se do princípio de que quase todas as vozes, inclusive as odiosas, mereciam a chance de ser ampliadas.

Steve Huffman, cofundador e presidente do Reddit, me disse que, no ensino médio, aprendeu “sobre Gutenberg, Martinho Lutero — a democratização do conhecimento e poder. Estava profundamente arraigada, em mim, a importância da liberdade de expressão”. Naturalmente, ele moderou o discurso no Reddit o mínimo possível. “No começo, nós nos considerávamos os antigatekeepers — os liberadores”, contou. “O sentimento de todos, incluindo o meu na época, era: Confie em seus usuários. Deixe-os postar o que querem postar. Se for ruim, receberão downvotes ( votos negativos )”.

­Por séculos, o significado de “liberdade de expressão” tem sido refinado e reinterpretado por universidades, em legislações, nos tribunais, na imprensa. No entanto, nos primórdios do Vale do Silício, era mais provável que decisões sérias sobre liberdade de expressão fossem tomadas numa tarde, numa sala de conferência cheia de lanches, por um pequeno grupo de engenheiros da computação acossados. Com frequência, eles não tinham um plano a longo prazo, a não ser improvisar um “produto viável mínimo”, “entregando” um código o mais rápido possível e, em seguida, “iterando-o” — eufemismos de startups para, em essência, o processo de tentativa e erro. “Eu me lembro de ter pensado: ‘As pessoas no governo, na Suprema Corte, são muito mais inteligentes do que eu’”, disse Huffman. “Então, se não é ilegal dizer algo segundo a legislação americana, por que dizê-la no Reddit deveria ser ilegal?” Em 2012, pouco antes de o Facebook abrir capital na Bolsa, um de seus registros junto à SEC ( sigla da Comissão de Títulos e Câmbios dos Estados Unidos ) incluía uma carta aberta assinada por Mark Zuckerberg, fundador e CEO da empresa. Desde o lançamento do Facebook, em 2004, Zuckerberg havia atribuído a si a imagem de Robin Hood, tirando o poder dos gatekeepers e redistribuindo-o às pessoas. Na carta, ele alegava que, no escritório amplo da empresa, “nós costumamos conversar sobre invenções como a prensa tipográfica e a televisão — ao tornar a comunicação mais eficiente, elas levaram a uma completa transformação de muitas partes importantes da sociedade. (…) Elas estimularam o progresso. Mudaram a organização da sociedade. Aproximaram-nos”. Isso não estava totalmente errado, mas deixou de lado muita coisa. Ainda assim, sejamos justos com Zuckerberg, ele estava apenas ecoando a narrativa há muito dominante na história da tecnologia — a triunfalista. Até pouco tempo atrás, ele insistia que o Facebook era uma plataforma, não uma editora. Se algum adolescente insatisfeito queria publicar as opiniões vituperiosas de Sócrates sobre mulheres — ou se, inclusive, um adolescente queria compartilhar suas próprias opiniões vituperiosas —, então quem era ele para impedir? Em 2016, poucas horas depois de uma audiência privada com o papa, Zuckerberg participou de um evento público de perguntas e respostas em Roma. Perguntaram se ele se via como um editor. “Não”, respondeu, com um riso incômodo. “Nós construímos ferramentas. Não produzimos conteúdo.” Em alguns casos, ele tentou se absolver do poder de tomar decisões. Em outros, reconheceu seu poder, mas colocou suas ações como intrinsecamente nobres, insinuando que a liberdade de compartilhar opiniões on-line era como um direito humano. Algumas vezes, usou várias táticas evasivas, uma após a outra, tal qual William Caxton: a informação quer ser livre; além disso, quem se ofende deveria culpar o autor, não o mensageiro; de qualquer forma, a responsabilidade final encontra-se em cada leitor individual.

Muitos dos empreendedores de redes sociais do começo estudaram, na universidade, ciência da computação ou administração, tendo um respeito pelos princípios da liberdade de expressão por meio de osmose cultural. Outros nem sequer terminaram a universidade. Um dos poucos que leram ostensivamente sobre humanidades foi Chris Hughes, que foi colega de quarto de Zuckerberg em Harvard antes de ser um dos primeiros funcionários do Facebook. “Havia um forte sentimento naquela época — decerto você ouviu isso de Mark e das pessoas ao redor dele — de que conectar o mundo era, em essência, uma coisa boa”, Hughes afirmou recentemente. “Existia uma crença bem difundida na inevitável marcha da história para o futuro. Eu não sei se isso veio de livros ou de alguém específico — acho que estava apenas subentendido.” A maioria das pessoas no Vale do Silício queria “mudar o mundo”. Elas não se deram ao trabalho de especificar que queriam mudar para melhor — essa parte estava implícita e, no mais, deveria acontecer mais ou menos automaticamente. “Eu me lembro de um monte de conversas nas quais a introdução de nossas ferramentas era comparada com a invenção do martelo ou da lâmpada”, Hughes continuou. “Poderíamos tê-las comparado com uma arma, também, eu acho, mas ninguém fez isso.”

The printing press as an agent of change ( A prensa tipográfica como agente de transformação ), publicado em 1979 pela historiadora Elizabeth Eisenstein, é um relato original, com mais de 700 páginas, sobre como a impressão em grande escala, conforme disse Francis Bacon, “alterou a aparência e o estado do mundo”. Eisenstein é uma pesquisadora meticulosa, além de diligente ao fazer as ressalvas necessárias. Ela reconhece que muitos editores do começo foram impulsionados, pelo menos em parte, pelo lucro e que muito do que eles imprimiram era desinformação ou propaganda. Ainda assim, mesmo quando comenta esses inconvenientes, costuma colocá-los numa narrativa de redenção. Ela argumenta, por exemplo, que muitos “escritos esotéricos fraudulentos” estavam, no final das contas, “abrindo o caminho, mais tarde, para uma purificação de fontes cristãs. Aqui, como em tudo, há que distinguir entre efeitos iniciais e tardios”. Ela apresenta argumentos similares em outras partes do livro, minimizando efeitos incipientes a favor do longo prazo, embora no começo os efeitos da prensa tenham incluído elevadas tensões étnicas, a disseminação de falsas informações médicas e aproximadamente um século de guerras religiosas europeias. Em outras palavras, mesmo quando a tecnologia de impressão inicial deveria ser descrita como uma arma, Eisenstein trata-a mais como uma lâmpada.

“O advento da impressão”, ela escreve, “forneceu ‘o toque de mágica’ por meio do qual um teólogo obscuro em Wittenberg conseguiu chacoalhar o trono de São Pedro”. O teólogo, claro, era Martinho Lutero. Eisenstein relata a disseminação viral das 95 Teses de Lutero em detalhes. Contudo, ela não menciona, em lugar algum, uma de suas últimas obras, um tratado intitulado Sobre os judeus e suas mentiras . “Temos culpa em não matá-los”, escreve Lutero. “Vou dar meu conselho sincero: primeiro, devíamos incendiar suas sinagogas ou escolas. (…) Segundo, aconselho que suas casas também sejam destruídas.” Ele prossegue, com uma avidez chocante até para os padrões da época. O canto do cisne de Lutero, publicado no ano de sua morte, foi um panfleto intitulado “Alerta contra os judeus”.

Lutero não se contentou com os abusos verbais, escreveu Paul Johnson em História dos judeus . “Ele fez com que judeus fossem expulsos da Saxônia em 1537 e, nos anos 1540, rechaçou-os de diversas cidades alemãs.” Johnson acrescenta que os seguidores de Lutero “saquearam a sinagoga de Berlim em 1572 e, no ano seguinte, finalmente conseguiram o que queriam” quando os judeus foram banidos da região inteira. Se a impressão em grande escala foi o “toque de mágica” que ajudou Lutero a catalisar a Reforma Protestante, então também foi o megafone que possibilitou os gritos de antissemitas de “Fogo!” no teatro lotado da Europa Ocidental. De acordo com Johnson, Sobre os judeus e suas mentiras foi “a primeira obra de antissemitismo moderno e um grande passo à frente no caminho do Holocausto”.­
­
William Caxton introduziu mais de 1.000 palavras à língua inglesa, incluindo “concussão”, “viajante” e “servidão”. Outra palavra que não existia na época era “islamofobia”, e ela pode ser usada agora, de maneira retrógrada, para descrever as propensões geopolíticas de Claxton. Na verdade, tal descrição seria um eufemismo. Em 1481, ele publicou Godeffroy of Boloyne; or, The siege and conqueste of Jerusalem ( Godofredo de Bulhão; ou O cerco e a conquista de Jerusalém ). Ele explicou em um epílogo que o livro havia sido “traduzido e reduzido do francês para o inglês pela minha simples pessoa, William Caxton, a fim de que todo homem cristão seja mais bem incentivado a empreender uma guerra em defesa da cristandade”. Godofredo foi um cruzado do século XI que levou exércitos cristãos através da Niceia e de Constantinopla até Jerusalém, massacrando os muçulmanos que encontrasse. Em 1481, o Império Otomano estava expandindo em direção a Jerusalém. Ao relatar histórias românticas da Primeira Cruzada, Caxton desejava inspirar seus contemporâneos “a, com mão firme, expulsar os sarracenos e turcos, para que o Senhor seja lá servido & adorado pelo seu povo cristão escolhido”. Lá se vai a neutralidade de conteúdo.

Isso é tudo uma questão de debate acadêmico recôndito; até não ser mais. Digamos que estamos em 2004 ou 2005 e você está prestes a fundar uma rede social. A largura de banda é barata. Há capital de investimento por todos os lados. Legisladores não entendem seu modelo de negócios o suficiente para regulá-lo e o público não está prestando muita atenção. Você pode fazer praticamente tudo que quiser. Então, o que faz? Se você acredita, de coração, na inevitável marcha ao progresso — se não tem dúvida de que qualquer ferramenta de comunicação que concede às massas será usada como uma lâmpada, e não uma arma —, então não haverá uma força compensatória para checar seu otimismo imprudente (sem falar em sua ganância). Se, no entanto, você leva o risco do lado negativo mais a sério — se lhe passa pela cabeça que sua elegante lâmpada nova poderia, digamos, causar uma guinada em direção à tirania em algumas democracias liberais, exacerbar uma crise climática já grave e elevar tensões nucleares —, então talvez você proceda com um pouco mais de cuidado.

Em 2003, um adolescente de 15 anos chamado Christopher Poole criou um imageboard ( fórum de discussão baseado na postagem de imagens e textos ) denominado 4chan, desenvolvido nos princípios do anonimato e da liberdade de expressão desenfreada. Tornou-se um repositório para as piores coisas que a internet tinha a oferecer: racismo suntuoso, pornografia violenta, textões do séquito de misóginos conhecidos agora como “incels”. (Depois, Poole foi contratado pelo Google.) Quando ele começou a banir algumas das postagens mais terríveis do 4chan — imagens que beiravam a pornografia infantil, por exemplo —, muitos usuários viram isso como uma violação de seu direito de liberdade de expressão. Um desses usuários era Fredrick Brennan. Em 2013, durante um barato de cogumelo, Brennan decidiu criar o 8chan. Ele concebeu-o como uma alternativa ao 4chan, com um comprometimento ainda mais firme a uma moderação de conteúdo totalmente liberada.

Rapidamente, o 8chan ficou como o 4chan, mas pior. (Recentemente, na Vice News, Brennan chamou o 8chan de “ânus da internet”; numa entrevista comigo, ele o chamou de “assustador e deprimente”.) Neste ano, três atos terroristas de supremacismo branco — ataques armados a uma sinagoga em Poway, na Califórnia; a duas mesquitas em Christchurch, na Nova Zelândia; e a um Walmart em El Paso, no Texas — foram cometidos por homens jovens que afirmaram terem sido radicalizados no 8chan. “Você cria uma coisa com boas intenções, acreditando que está prestes a mudar o mundo, e daí você assiste à contagem de corpos chegar a… Quantos seriam agora? Setenta e um?”, disse Brennan. “É como se fosse um pesadelo.”

Brennan, que mora nas Filipinas, saiu do 8chan em 2016. Agora, ele desenvolve softwares para designers tipográficos. O dono atual do site, Jim Watkins, um americano que também mora nas Filipinas, nada fez, em essência, para refrear o caos. “Jim parece pensar que é tudo só diversão”, Brennan me contou. Em agosto, Watkins foi intimado por um comitê do Departamento de Segurança Interna dos Estados Unidos e, em setembro, foi para Washington dar um depoimento a portas fechadas. Em nota, ele afirmou: “Minha empresa não tem intenção alguma de deletar discurso de ódio protegido pela Constituição”. Brennan me disse: “Se eu pudesse, deletaria o 8chan em um segundo. Já foi muito além”.

Nos últimos anos, Steve Huffman, do Reddit, mudou sua abordagem anterior quanto à moderação de conteúdo. “Uma coisa é dizer ‘Nunca deveríamos banir nada’”, disse. “Outra coisa é ver uma comunidade usar sua plataforma para algo que é obviamente prejudicial e pensar: ‘Ok, será que podemos realmente justificar não fazer nada em relação a isso?’.”

Em 2016, os administradores do Reddit baniram um subreddit dedicado à teoria da conspiração do Pizzagate; em 2018, baniram outro, dedicado à teoria da conspiração do QAnon; em junho, censuraram The_Donald, um subreddit pró-Trump popular, depois de vários de seus membros exigirem insurreições armadas em cidades progressistas, como Portland, no Oregon. Huffman me disse: “Eu ainda acho que a propagação de informação por meio da tecnologia tem sido predominantemente positiva. Mas eu não mais acredito, como acreditava há 14 anos, que os efeitos colaterais negativos desaparecerão por conta própria. O que aprendemos, às vezes da maneira mais difícil, é que dá muito trabalho”.

Após mais de uma década, os mais poderosos empreendedores de redes sociais, agora empresários de seus 30 anos, parecem finalmente compreender que sua tecnoutopia imaginada não vai se materializar. Essa noção pode ser um sinal de maturidade; pode ser uma resposta calculada a pressões internas de investidores ou uma estratégia para protelar regulações; ou pode ser um simples mecanismo de defesa, uma reação depois de ser envergonhado. Em apenas alguns anos, a atitude do público quanto às redes sociais deu uma guinada da veneração generalizada à fúria viral. Este talvez seja um dos poucos consolos da eleição de 2016: se Hillary Clinton tivesse sido eleita, como a maioria das pessoas esperava, era provável que os fundadores de redes sociais tivessem ainda mais motivos para considerar importante aquilo que criaram.

Em novembro de 2018, Mark Zuckerberg postou uma nota em seu perfil do Facebook. “Muitos de nós entramos na área de tecnologia porque acreditamos poder ser uma força democratizante para colocar o poder nas mãos do povo”, escreveu. “Eu acredito que o mundo fica melhor quando mais pessoas têm uma voz para compartilhar suas experiências e quando gatekeepers tradicionais, como governos e grandes meios de comunicação, não controlam que ideias podem ser expressas.” Ele anunciou a criação de um “grupo independente” para ouvir apelos de usuários que acreditam que seu discurso foi injustamente reprimido ou que não foram suficientemente protegidos contra assédio. Parecia que a autoridade de único gatekeeper acima de uma das instituições mais influentes da Terra não deveria ser dada a Zuckerberg — que já havia rejeitado a ideia de que as fake news afetaram a eleição de 2016 e que se referiu ao negacionismo do Holocausto como meramente um assunto a respeito do qual “pessoas diferentes se equivocam”.

O conselho independente, cujo apelido é “Suprema Corte do Facebook”, deverá começar a trabalhar no próximo ano. Desde que foi anunciado, suas responsabilidades aumentaram: além de resolver conflitos, as decisões ajudarão o Facebook a desenvolver uma abordagem coerente à moderação de conteúdo em geral. Em setembro, a empresa divulgou um estatuto de oito páginas delineando as intenções do conselho, um fluxograma detalhado ilustrando como tomarão as decisões e uma nova mensagem de Zuckerberg reafirmando seu compromisso (“A decisão do conselho será vinculativa, mesmo que eu ou qualquer outra pessoa no Facebook discorde dela.”). Kate Klonick, pesquisadora de Direito Digital e professora da Universidade de St. John, foi autorizada a observar mais de 100 horas de reuniões internas do Facebook — reuniões sobre o que esse novo grupo deveria fazer, quem deveria fazer parte dele, que poderes deveria ter. Ela descreveu o processo como “obcecadamente atencioso”. “É como compor um tribunal com base no artigo III totalmente do zero”, ela me contou, referindo-se à parte da Constituição americana que enumera os poderes judiciais. “Com a exceção de que, se você é o Facebook, você não tem um artigo III, porque você não tem uma Constituição. O que levanta a questão: Ok, tudo bem, a gente deveria escrever uma Constituição? Se sim, o que colocaremos nela?” No final, ela continuou, “é difícil saber se isso vai ser adequado ou não, mas eu prometo que nunca, na história da humanidade, houve um esforço voluntário, em conjunto, tão grande por parte de uma empresa privada de abrir mão de uma parcela de seu poder por causa de um direito público”.

Zuckerberg não abandonou a tecnoutopia — sua alegação de que o mundo pós-Facebook é “melhor”, como disse na nota, é no mínimo questionável — mas sua autoconfiança foi claramente minada. “Os últimos dois anos mostraram que, sem salvaguardas suficientes, as pessoas abusarão dessas ferramentas para interferir em eleições, disseminar desinformação e incitar à violência”, ele continuou. “Uma das lições mais dolorosas que aprendi é que, quando você conecta 2 bilhões de pessoas, você vai ver toda a beleza e a feiura da humanidade.” Até a semana anterior à publicação deste artigo, a nota havia recebido 41 mil curtidas, 4 mil corações, 856 emojis de surpresa, 252 emojis de risada, 158 emojis de raiva, 81 emojis de choro e mais de 7 mil comentários.

“Continuem fazendo um bom trabalho!”, escreveu um comerciante da Bolsa de Valores em Michigan. “Ignorem a imprensa, continuem melhorando.”

“Por favor, abordem a questão dos anúncios falsos”, escreveu um homem em Benim.

“Qualquer conceito, por mais sofisticado que seja, vai de alguma maneira ser intencionalmente mal utilizado e excedido”, escreveu uma alemã.

“Você é um saco, sacoberg”, escreveu uma britânica.

“Deixa eu adivinhar”, escreveu uma mulher de Washington, “vocês nunca pensaram muito sobre quão explosiva a liberdade de expressão realmente era, não é??”

Selecionamos outros textos para você