NYT tenta ir além do simbólico contra o racismo na Redação

FOLHA DE S.PAULO – 18/07/2020

Nelson de Sá

Jornal passa a usar ‘Black’ com bê maiúsculo, mas também escolhe jovem repórter negra para comandar cobertura da polícia de NY.

Nos EUA pós-George Floyd, até a Fox News vem tendo que enfrentar seus demônios racistas, com uma revolta interna contra a “célula supremacista branca” que dominou o canal de notícias.

Um dos integrantes da célula, o principal redator de Tucker Carlson, deixou o canal às pressas quando a CNN revelou as postagens racistas anônimas que fazia, uma semana atrás.

Já a rebelião histórica de mais de mil jornalistas do New York Times segue derrubando cabeças na seção de opinião, agora da neocon Bari Weiss, e abrindo o caminho para nomes como Charlotte Greensit, tirada do Intercept de Glenn Greenwald.

Mas são movimentos no ambiente autofágico da opinião, tanto no caso do programa de Carlson quanto do artigo que disparou a revolta no jornal —que defendia tropa na rua contra os protestos.

Menos ruidosa e mais efetiva foi a decisão que o jornal tomou ao escolher a jovem repórter negra Ashley Southall para comandar toda a sua cobertura do Departamento de Polícia de Nova York (NYPD), um exército de 36 mil que consome US$ 6 bilhões por ano e acumula décadas de abusos racistas, sem fim.

Em quatro anos de reportagens, ela chamou a atenção não só nos episódios recentes de violência contra as manifestações, mas no julgamento do caso Eric Garner, também morto ao ser sufocado por um policial —e ao deixar como últimas palavras “I can’t breathe”, eu não consigo respirar.

Mostrou ainda a realidade por trás da Special Victims Unit nova-iorquina, distante das 21 temporadas da conhecida série da NBC.

No anúncio formal, a motivação do NYT foi clara: “Com os protestos e a atenção crescente aos abusos e ao papel da polícia na sociedade, nossa reportagem policial é mais importante que nunca”.

Desde então, em três semanas, Southall se concentrou no salto dos tiroteios na cidade, que incluíram a morte de um bebê no Brooklyn e seriam explicados, em parte, por uma operação padrão da parte da polícia.

A esperança é que o seu trabalho cotidiano dê resultados concretos, mais do que a simbólica decisão recente de usar “Black” com bê maiúsculo “para descrever pessoas e culturas de origem africana”, anunciada pelo editor-executivo Dean Baquet.

A chegada do próprio Baquet ao posto máximo da Redação em 2014, como o primeiro negro, resultou em mais do que um marco histórico —com efeitos que foram da pauta política ao Projeto 1619, que vem revisando a história dos EUA a partir do legado da escravidão, para horror do secretário de Estado, Mike Pompeo, e outros conservadores.

O Instituto Reuters para o Estudo do Jornalismo (Oxford) avalia que ocupar “os principais postos dos maiores veículos jornalísticos importa tanto substancialmente como simbolicamente” e acaba de soltar o levantamento “Raça e liderança na mídia: a evidência de cinco mercados” e cem veículos. Em suma:

“Na Alemanha e no Reino Unido, com milhões de pessoas de cor, nenhum dos veículos da amostra tem editor que não seja branco. No Brasil, encontramos só um editor não branco (5%). Nos EUA, dois (11%). Maioria, só na África do Sul (68%).”

Os cinco foram escolhidos em parte pelas “diferentes histórias em relação ao imperialismo branco e à escravidão”.

Em todos, inclusive África do Sul, o percentual de não brancos na população é maior do que entre editores. Mas o quadro no Brasil é o pior, com 52% de não brancos na população e os 5% entre editores. Nos EUA do NYT, 40% e 11%.

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