NÃO RESISTE 24H DISCURSO DE BOLSONARO CONTRA ‘DADOS E MENSAGENS INFUNDADAS’ SOBRE AMAZÔNIA

ÉPOCA – 25/08/2019

CRISTINA TARDÁGUILA

Na sexta-feira, o presidente Jair Bolsonaro foi à televisão para fazer um pronunciamento sobre as queimadas na Amazônia e surpreendeu os fact-checkers. No terceiro minuto de sua fala, Bolsonaro pediu serenidade aos telespectadores e disparou:

“Espalhar dados e mensagens infudadas, dentro ou fora do Brasil, não contribui para resolver o problema e se prestam apenas ao uso politico e à desinformação”. Bolsonaro acertou em cheio. Na mosca. Naquele momento, o presidente implicitamente se referia às centenas de fotos antigas e fora de contexto postadas nas redes sociais por celebridades como a cantora Madonna, o ator Leonardo DiCaprio, o jogador de futebol Cristiano Ronaldo e o presidente francês Emmanuel Macron – conteúdo que havia sido pontuado como inadequado tanto pela Agência Lupa quanto pela AFP no Brasil.

Mas a crença de que Bolsonaro e seu governo passariam a ter mais cuidado ao falar e postar sobre as queimadas da Amazônia durou apenas algumas horas. No sábado, ao divulgar pelo Twitter ações de combate a focos de incêndio na Amazônia, o Ministério da Defesa inseriu uma foto antiga entre as imagens que supostamente tinham sido feitas naquele dia. E o presidente compartilhou – sem checar -, assim como Madonna, DiCaprio, Cristiano Ronaldo e Macron.

Na foto em questão, feita por um sargento chamado Johnson , da Agência Força Aérea, vê-se o interior de uma aeronave Hércules C-130. Ao fundo, um foco de chamas é alvo de fortes jatos de água emitidos pelo avião da FAB. É, sem dúvida, uma prova de ação. Mas uma busca no TinEye, ferramenta gratuita de checagem de fotos, revela que a imagem em questão está disponível na internet desde, pelo menos, março de 2015, no site da Força Aérea Brasileira.

Uma breve navegação no portal do próprio Ministério da Defesa mostra que essa mesma imagem foi usada para ilustrar uma notícia publicada pela pasta em 30 de setembro de 2014 . A reportagem fala sobre missões de treinamento realizadas por nove pilotos do Primeiro Grupo de Transporte de Tropa (1°GTT) entre os dias 19 a 26 de setembro daquele ano nas proximidades de Sobradinho (DF).

O jornal Folha de S. Paulo noticiou o mau uso da foto. Procurou o Ministério da Defesa para saber o que havia acontecido e ouviu da assessoria de imprensa da pasta que a imagem em questão realmente era antiga. Foi usada de forma “meramente ilustrativa”, para tratar sobre uma atividade de combate a queimadas que ainda ocorreria. Nesse ponto vale retornar à fala que Bolsonaro havia feito algumas horas antes: “Espalhar dados e mensagens infudadas, dentro ou fora do Brasil, não contribui para resolver o problema e se prestam apenas ao uso politico e à desinformação”.

Enfatizo, por dever profissional, uma parte: “se prestam apenas ao uso político e à desinformação”. E acrescento: desvirtua o debate. E muito.

É função dos fact-checkers apontar dados falsos, exagerados e contraditórios sempre que eles aparecem no discurso dos poderosos e das celebridades. Não importa a hora, o local ou o assunto em pauta. Durante a atual crise da Amazônia, não está sendo – nem será – diferente.

É mais do que evidente que, com os focos de incêndio na Amazônia, o Brasil já tem um problema de proporções territoriais gigantescas para resolver. Não precisa de nenhum outro, parasitando a seu redor. A desinformação, neste momento, consome energia e tira o foco das discussões fundamentais. É para evitar isso que os fact-checkers continuarão atentos.

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