Não existe prova de que rede social vicia, diz regulador do Facebook

VEJA – 16/08/2019

Filipe Vilicic

“Dez anos na União Europeia, vinte no Parlamento britânico.” Assim o ex-­político inglês Nick Clegg, formado em antropologia e especializado em filosofia política, resume a carreira que abraçou até recentemente. No auge de sua trajetória legislativa, ele chegou a vice-­premiê do Reino Unido, posto que ocupou entre 2010 e 2015, na gestão de David Cameron. Após perder as últimas eleições para o Parlamento, em 2017, Clegg promoveu uma reviravolta. Passou a legislar, por assim dizer, em outro universo: o do Facebook. A convite do fundador e CEO da rede social, Mark Zuckerberg, assumiu, em 2018, o cargo de vice-­presidente de políticas públicas. A missão: redefinir as regras impostas pelo Facebook aos seus mais de 2 bilhões de usuários e fiscalizar o cumprimento delas, enquanto atua, no mundo real, para mitigar as eventuais consequências negativas de procedimentos da companhia — que há poucos dias foi abalada por novo escândalo, com a descoberta de que havia transcrito áudios de usuários. Em visita ao Brasil, programada para se estender até a sexta-feira 16, Clegg, de 52 anos, tem encontros agendados com formadores de opinião, sobretudo legisladores — ele continua à vontade nesse terreno. Na entrevista a seguir, concedida, antes da viagem, por videoconferência, na sede brasileira do Facebook, em São Paulo, o inglês assume os erros cometidos pela empresa no passado e promete um futuro no qual os usuários terão sua privacidade resguardada.

Por que o Facebook escolheu um ex-­político, de longa carreira, para assumir o cargo responsável pela criação de leis para a rede social e outros sites e aplicativos da empresa, como o Instagram e o WhatsApp? A razão principal é que o Facebook se tornou uma presença tão visível em nosso dia a dia, na rotina de famílias, dos empreendedores, de grupos comunitários, que acabou por integrar o tecido da vida de todos. Observe os brasileiros. A qualquer segundo, de qualquer dia, seja manhã ou noite, a sociedade está interagindo no Facebook. A rede social passou a ter um papel ativo no curso da sociedade, interagindo com a política, a cultura, com os valores morais, com os limites entre a liberdade de expressão e o controle. No entanto, há uma tensão, por vezes uma colisão, entre a tecnologia e a sociedade.

Na prática, como se dá esse conflito? É um pêndulo que balança. Antes, pesava para a utopia, pois há quinze anos se achava que, com a tecnologia, se resolveriam todos os problemas. O Sol iria brilhar. Agora, o pêndulo pesou para o outro lado, o da distopia. A tecnologia passou a ser vista como a fonte de todos os problemas — crimes, resultado das eleições, infelicidade individual. Zuckerberg e Sheryl Sandberg (chefe operacional da empresa) me chamaram porque queriam justamente alguém de fora da indústria da tecnologia. Tenho experiência em criar políticas.

Mas qual é o valor dessa experiência para o ambiente de uma rede social? O Facebook hoje precisa tomar decisões em torno de assuntos como discurso de ódio, proteção da integridade de eleições, privacidade — temas parelhos àqueles sobre os quais eu tinha de legislar no Parlamento. Para permanecer grande, a companhia precisa continuar com a permissão da sociedade para operar. Meu trabalho é supervisionar o desenvolvimento de políticas que visam a esse objetivo. Por exemplo, atrasei-me cinco minutos para esta entrevista justamente porque estava em uma reunião na qual se debateu o estabelecimento de um conselho, de especialistas independentes, que nos auxiliará nessas escolhas. Esperamos lançar essa iniciativa até o fim do ano.

Pelas notícias que andaram circulando, como a da criação do Regulamento Geral sobre a Proteção de Dados (GDPR, na sigla em inglês), que visa a proteger, com maior rigor, a privacidade de seus cidadãos na internet, a Europa parece ser mais resistente aos produtos das empresas digitais, em comparação com os Estados Unidos ou o Brasil. Foi por isso que o Facebook escolheu um inglês para pilotar seu departamento? Não concordo com a impressão de que as nações europeias olham as redes de forma mais crítica. Todos têm demonstrado ansiedade no que se refere ao tema. Os políticos em Washington vêm sendo bem negativos em relação aos empreendedores do Vale do Silício, mesmo que a região californiana seja o berço de grandes companhias dos Estados Unidos. Entretanto, há, sim, uma grande diferença entre a Europa e o resto do mundo. Em especial, em comparação com Estados Unidos e China. A corrida tecnológica atualmente é disputada entre esses dois países. Nem os europeus nem os brasileiros possuem empresas realmente líderes nesse ramo. Por outro lado, a Europa tem a capacidade, em muitos aspectos superior à de americanos e de chineses, de estabelecer as regras a ser seguidas nessa competição. Depois de criado, o GDPR foi emulado ao redor do planeta, como em países da América Latina. Os Estados Unidos e a China têm valores muito distintos, por vezes opostos, em relação à proteção à privacidade individual. Em território chinês, é muito maior a permissividade com a vigilância estatal. A Europa acaba por servir de ponte para esse debate de interesses, refletido nas companhias fundadas na América e na Ásia.

Antes do escândalo da Cambridge Analytica — a consultoria inglesa que usou dados privados de usuários do Facebook para influenciar eleições, como a que culminou na vitória do presidente americano Donald Trump em 2016 —, a empresa para a qual o senhor trabalha menosprezava o entendimento de que as mídias sociais poderiam ser utilizadas para espalhar notícias falsas, ou mesmo para influenciar as decisões políticas de uma nação. Recentemente, ela mudou de posição. Por quê? A transformação foi completa. A maneira como respondemos às crises da Cambridge Analytica e da interferência russa no pleito presidencial dos Estados Unidos servirá para criar outras formas de proteger os dados, de impor limites e regras. Será a base de como a internet se comportará daqui para a frente. Os escândalos nos revelaram que a rede social é uma tecnologia que pode ser usada para o bem e para o mal. O que as companhias do Vale do Silício aprenderam é que precisam prever o que pode ocorrer de ruim.

O Facebook faz isso com eficácia? Assumo que não nos preparamos, como deveríamos ter feito, para encarar problemas de privacidade como o que ocorreu com o caso citado. Tanto que, no mês passado, fizemos um acordo bilionário, de 5 bilhões de dólares, com a FTC (a Comissão Federal de Comércio dos EUA), devido às nossas falhas. Mas isso mudou. Neste ano, gastaremos mais com medidas de segurança do que o valor correspondente a toda a receita da empresa quando ela abriu seu IPO, em 2012 (naquele ano, ultrapassava os 5 bilhões de dólares).

Christopher Wylie, ex-funcionário da Cambridge Analytica, define como um “experimento imoral com a psicologia de uma nação inteira” o que a consultoria fez com os usuários. É óbvio que o que aconteceu foi ruim. O Facebook está tão angustiado quanto todo mundo. Vamos recapitular. Naquele caso, informações de usuários foram repassadas, de forma regular, a um acadêmico. Esse acadêmico vendeu, aí de maneira irregular, esse banco à consultoria política. Nela é que os perfis foram utilizados para direcionar anúncios que influenciariam em suas escolhas nas eleições de 2016 nos Estados Unidos. E não há provas concretas de que o mesmo tenha ocorrido no referendo do Brexit, na Inglaterra, como sugerem alguns ex-funcionários da Cambridge Analytica.

É possível apontar o que deu início a todo esse problema? Sim. Há uns sete anos, o Facebook era acusado de esconder demais as informações. Por isso, Zuckerberg tomou a decisão de abri-las a desenvolvedores e acadêmicos. Isso permitiu criações que vão desde games até redes de relacionamentos amorosos. Algumas pessoas, porém, se valeram disso com propósitos ruins. Vimos então, e novamente, a necessidade de pôr mais limites. Todavia, em vez de construirmos um muro, faremos uma cerca. As informações serão entregues, mas em circunstâncias mais bem controladas.

No Brasil, há a preocupação de que o WhatsApp possa ser usado para fins políticos. O Facebook, que em 2014 comprou o aplicativo, está atento a isso? Vemos esse app como um serviço de mensagens privadas. Não queremos que se torne um canal de massa. Por isso fechamos contas que disparam spam e propaganda política.

O senhor admite que houve interferência russa nas eleições americanas em 2016. Ocorreu alguma influência estrangeira também na corrida presidencial brasileira no ano passado? Não tenho ciência de nada do tipo. Se alguém tiver qualquer evidência de atividade exterior que tenha afetado as eleições no Brasil, avise-nos.

Alguns representantes da direita brasileira acusam o Facebook de tomar decisões enviesadas, como a de ter banido grupos desse espectro político. O presidente Jair Bolsonaro e seu filho Carlos insinuaram que recentes atualizações do WhatsApp e do Instagram visavam a prejudicá-­los. Não é nosso papel ter uma posição assim. Tanto que pessoas de todos os espectros de opinião nos criticam. Para a esquerda, somos responsáveis pela eleição de Trump. Para a direita, o Facebook seria povoado só por garotos e garotas californianos. Mas compreendemos que algumas pessoas possam se sentir prejudicadas com nossas escolhas. É uma das razões de montarmos um conselho independente.

O senhor é conhecido por defender a visão liberal democrata. Suas crenças políticas não influenciam nas regras da rede? Fico lisonjeado de você achar que minha visão pessoal possa interferir na companhia. Não é o caso. Para sua informação, há em minha equipe também um reconhecido republicano. Temos de ser justos com as regras do Facebook, independentemente de nossas opiniões individuais.

Há cientistas, ativistas etc. que se preocupam com o fato de que as mídias sociais possam ser viciantes e provocar efeitos psicológicos negativos. Estamos atentos. Tanto que passamos a não deixar visível o número de curtidas no Instagram como forma de diminuir a corrida pela autovalidação. É preciso, no entanto, pôr tudo na correta perspectiva.

Mas as redes viciam ou não? Entendo que, intuitivamente, alguns achem que viciam — ao ver, por exemplo, os filhos grudados no celular. A verdade é que não existe prova concreta disso, como confirmou um estudo recente da Universidade de Oxford. Inclusive, defendo a ideia de que há, isto sim, evidências de que essas plataformas possam ser particularmente positivas, aproximando pessoas e ajudando-as a ter senso de identidade.

Selecionamos outros textos para você