Jornalistas transferem muito poder para o Twitter?

PODER 360 – 19/04/2021

NIEMAN LAB – Logan Molyneux e Shannon McGregor

O ano de 2021 trouxe novas dimensões para a discussão atual sobre o poder que as plataformas de mídia têm na receptação e formação da opinião pública. Quando algumas pessoas culparam as empresas de comunicação pela desinformação que se espalhou mais rapidamente até mesmo que a covid-19, outros apontaram os políticos como a fonte das mentiras. Mas quando o Twitter e o Facebook tomaram (tardias, mas bem-vindas) ações para acabar com essas mentiras até mesmo o CEO do Twitter, Jack Dorsey, questionou se as plataformas têm muito poder. Os donos dessas plataformas compareceram ao Congresso norte-americano no fim de março, em parte para responder a essa mesma pergunta.

O Twitter se tornou especialmente central para as notícias. Tem-se falado muito sobre a “plataformização”, as organizações de mídia enfraquecidas e a falta de regulação, e todos esses fatores desempenham um papel de destaque no ecossistema de notícias do Twitter. Mas o nosso último estudo mostra que os próprios jornalistas transferiram parte de sua relevância sobre a apresentação dos acontecimentos atuais para o Twitter, normalizando a forma como os tweets são apresentados nas notícias. Os jornalistas tendem a apresentar tweets como conteúdo –blocos de notícias intercambiáveis– em vez de fontes semelhantes, cujas ideias e mensagens devem ser sujeitas ao escrutínio e à checagem. Isso envia repetidas mensagens ao público de que as informações no Twitter são legítimas e oficiais, concedendo poder ao Twitter.

Para entender como isso acontece, temos que entender de onde vem a autoridade jornalística em 1º lugar.

Não há nenhuma credencial ou certificação exigida para jornalistas, e o público não é obrigado a conceder a eles essa autoridade sobre a cobertura dos acontecimentos atuais. Como resultado, os jornalistas devem reivindicar a própria autoridade sobre os acontecimentos atuais, demonstrando-a consistentemente em suas reportagens. Isso pode ser feito de várias maneiras, mas, em resumo, depende de jornalistas demonstrando evidências de seu processo, particularmente na explicação de onde a informação veio. O público concede aos jornalistas a autoridade sobre as notícias na medida em que eles podem ver os jornalistas examinando as fontes, questionando-as, verificando as informações e, finalmente, comunicando-as. No processo, os jornalistas mostram quem tem o poder para falar e se posicionar perto dessas fontes (tanto retórica quanto literalmente,em muitos casos).

A confiança no Twitter encurtou esse processo. Agora, o que vemos é um loop de feedback: à medida em que o Twitter se insere na rotina jornalística, os jornalistas recorrem a ele durante eventos noticiosos. Isso leva os jornalistas a usarem tweets nas suas reportagens, concedendo aos tweets o poder de serem marcadores de autoridade. Isso aumenta a probabilidade de que as elites usem o Twitter para futuros releases informativos, a probabilidade de que os jornalistas voltem a noticiá-los, e a probabilidade de que o público se acostume a ver os tweets como peças-chave das notícias.

TRATANDO TWEETS COMO CONTEÚDO
Analisamos centenas de notícias contendo tweets publicados durante 2018. Reunimos os textos usando a Media Cloud, na qual procuramos por notícias que continham tweets. Usamos uma série de mecanismos de busca (por exemplo, “tweetei“, “disse em um tweet”) para encontrar histórias que simplesmente parafraseavam tweets, resultando em mais de 23.000 artigos. Selecionamos aleatoriamente 365 deles para ler com atenção.

Em vez de marcar características específicas de cada tweet ou notícia, procuramos cuidadosamente os sinais de autoridade que o texto dá ao público. Por exemplo, nós perguntamos: o tweet é deixado para falar por si mesmo, ou é dado contexto e qualificação? A história se refere ao tweet, ou ao seu autor como fonte? Esse tweet é a única forma de ouvirmos essa pessoa? E, talvez o mais importante: essa história só existe porque alguém tweetou? Esta última pergunta detecta casos em que um tweet é o impulso para uma notícia, e especialmente onde os tweets são a fonte principal da história.

O que descobrimos foi que, na maioria das vezes, os jornalistas deixam os tweets falarem por si mesmos, sob sua própria autoridade. Normalmente, o tweet é a única forma que a pessoa fala na história, e não há nenhuma explicação adicional, qualificação ou contexto dado. O Twitter é frequentemente o centro da história, ou a história é sobre o tweet, especialmente nas reportagens políticas. Pronunciamentos no Twitter são rotineiramente transformados em valor-notícia e reproduzidos em reportagens como representações confiáveis da realidade. O efeito final dessas práticas resulta em posicionar o Twitter mais próximo do poder, sinalizando assim, para o público, que a plataforma tem autoridade sobre as notícias.

O ex-presidente dos EUA Donald Trump exerceu uma enorme influência nesse cenário, obviamente, com cerca de metade das reportagens que analisamos referenciando pelo menos um de seus tweets. Mas mesmo que seu comportamento no Twitter fosse uma exceção, os jornalistas seguiram apenas um conjunto de regras, dando a todos os tweets –de Trump ou não– efetivamente o mesmo tratamento. Como é evidente em outras áreas da vida pública, as ações de uma figura poderosa deram, em parte, o tom para o que passou a ser considerado uma prática aceitável.

Observamos também como a informação dos tweets era exibida, observando que os jornalistas citavam, parafraseavam e incorporavam tweets –e às vezes faziam tudo isso dentro de uma mesma história. Vale registrar que os tweets incorporados não estarão disponíveis permanentemente se forem excluídos ou se o Twitter mudar seu código no futuro.

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