Inovação no jornalismo também é pensar nas pessoas com deficiência

PORTAL IMPRENSA – 23/06/2020

Kassia Nobre

Diferentes empresas utilizam a #PraCegoVer nas suas redes sociais. A iniciativa é um recurso de acessibilidade digital para um ambiente online inclusivo. O jornalista Gustavo Torniero explica que existem várias iniciativas para fomentar esse recurso de acessibilidade, até porque a legislação brasileira determina a criação de sites acessíveis com a Lei Brasileira de Inclusão.

“Hoje, uma das principais barreiras enfrentadas por pessoas cegas na internet é a falta de descrições de imagem. Isso porque pessoas com deficiência visual utilizam programas leitores de tela que reproduzem, verbalmente, todas as informações textuais que estão em um site, aplicativo ou plataforma”.

Entretanto, segundo o jornalista, a adesão da imprensa ainda é baixa. “Quando falamos de acessibilidade web, temos que pensar em diferentes públicos – não só as pessoas com deficiência visual. Mas no que se refere às descrições de imagem, o que posso dizer é que poucos veículos utilizam – e quando o fazem, não é da forma correta”.

Gustavo faz parte da campanha #ImagensQueFalam, que é promovida pelo Movimento Web Para Todos. A ação tem o objetivo de mobilizar a sociedade para a causa da acessibilidade digital.

O Portal Imprensa conversou com o jornalista que também é secretário de juventude da Organização Nacional de Cegos no Brasil.

Portal IMPRENSA – Primeiro, gostaria que você contasse sobre a sua trajetória como jornalista e como secretário de juventude da Organização Nacional de Cegos no Brasil.
Gustavo Torniero – Eu trabalho com comunicação desde 2012, quando, ainda adolescente, apresentava o Programa Zuada, um programa de rádio de humor com mais dois amigos. Ficamos quatro anos nessa empreitada e chegamos a ser transmitidos por mais de 900 municípios ao redor do país. Esse contato com o rádio e com a comunicação desde cedo me fez ter interesse por essa área. Pesquisando possibilidades para minha carreira e para meu futuro, encontrei no jornalismo a melhor chance de promover mudanças e de trabalhar com comunicação.

Em paralelo, fui gradativamente me inserindo no movimento de pessoas com deficiência. Recebi, em 2015, o convite do atual presidente da organização, Beto Pereira,  um amigo pessoal de longa data, a ingressar na Organização Nacional de Cegos do Brasil (ONCB), a única entidade nacional legalmente instituída e que defende e promove os direitos das pessoas com deficiência visual no Brasil.

Na ONCB fui assessor da Secretaria de Comunicação e da Secretaria de Tecnologia e Acesso à Informação. Hoje sou Secretário de Juventude. Com esse meu contato maior com a comunidade e com temas relacionados a acessibilidade, passei, também, a produzir conteúdo sobre o assunto nas minhas redes sociais. Profissionalmente, sou coordenador de conteúdo da emissora virtual da Organização Nacional de Cegos do Brasil (Rádio ONCB) e atuo na comunicação da ONG Mais Diferenças.

Também faço freelas para veículos de comunicação e produção de conteúdos para agências e empresas, de forma geral. Realizo consultorias também na área da acessibilidade. Já publiquei em veículos como BBC Brasil e HuffPost Brasil, o que, para mim, foram pontos importantes na minha carreira enquanto jornalista.

Portal IMPRENSA – Gostaria que você explicasse como funciona as descrições de imagem e sobre a campanha #ImagensQueFalam. Além da campanha #PraCegoVer.
Gustavo Torniero – Hoje, uma das principais barreiras enfrentadas por pessoas cegas na internet é a falta de descrições de imagem. Isso porque pessoas com deficiência visual utilizam programas leitores de tela que reproduzem, verbalmente, todas as informações textuais que estão em um site, aplicativo ou plataforma.

Mas esses softwares não identificam as imagens. Por este motivo, existem várias iniciativas para fomentar esse recurso de acessibilidade e esse debate, até mesmo porque nossa legislação determina a criação de sites acessíveis (Lei Brasileira de Inclusão).

Uma dessas iniciativas é a campanha #ImagensQueFalam, da qual eu faço parte. Ela é promovida pelo Movimento Web Para Todos, um movimento pela acessibilidade digital no país e do qual eu sou um dos embaixadores.

Portal Imprensa – Como você analisa a adesão da imprensa no uso das descrições de imagem? Além da Folha de S. Paulo, outras empresas também aderiram à campanha?
Gustavo Torniero – A adesão da imprensa pelos recursos de acessibilidade ainda é baixa. Quando falamos de acessibilidade web, temos que pensar em diferentes públicos – não só as pessoas com deficiência visual. Mas no que se refere às descrições de imagem, o que posso dizer é que poucos veículos utilizam – e quando o fazem, não é da forma correta.

Há uma confusão sobre legenda jornalística e descrição de imagem. A primeira complementa alguma informação da matéria, enquanto a outra traduz em palavras o que está na imagem. E muitos veículos não entendem essa diferença. Existem alguns padrões que precisam ser observados e seguidos, assim como algumas diretrizes. Embora já tenhamos algumas iniciativas tímidas, não é uma realidade frequente.

Para além de fotos ilustrativas, pense, por exemplo, em infográficos e gráficos publicados por portais de conteúdo e jornais. Eu te desafio a encontrar um sequer que tenha descrição na imprensa brasileira hoje. Quando falamos em inovação e em tecnologia para renovar o jornalismo, também precisamos pensar nas pessoas com deficiência. E não é o que acontece, porque a acessibilidade é considerada um passo a mais, quando na verdade deveria fazer parte de um projeto desde o início.

Portal IMPRENSA – Há pesquisas que mostram o número de jornalistas com deficiência visual no Brasil? Você sabe este número? Como você analisa a empregabilidade de pessoas cegas na imprensa brasileira?
A empregabilidade de pessoas com deficiência é baixa em qualquer setor, embora esse cenário esteja se transformando nos últimos anos. Mas é preciso mais. Eu conheço poucos profissionais com deficiência que trabalham com jornalismo tradicional. Além de falta de representatividade, esse aspecto também causa um problema de diversidade nas equipes de veículos de comunicação. Obs. Não existe, por enquanto, nenhuma pesquisa quantitativa sobre isso.

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