Ensinar jornalismo pode despertar o olhar crítico dos alunos

FOLHA DE S.PAULO/PALAVRA ABERTA – 21/05/2020

Mariana Ochs

As notícias são o meio mais confiável de saber o que está acontecendo no mundo, e praticar o processo jornalístico na escola é um caminho já consagrado para a formação de leitores mais críticos e conscientes quanto à informação que consomem.

Ao fazer jornalismo, o aluno aprende que notícias devem ser objetivas e precisam mostrar diversos lados da mesma história, assim como entendem que fatos devem ser baseados em evidências e informações vindas de especialistas. Ao investigar e produzir reportagens o estudante também entra em contato com questões como escolha de pautas, pesquisa, recorte dos assuntos, edição de texto e imagens, e assim descobre quais escolhas técnicas e estéticas são feitas para transmitir uma informação.

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Estudante durante aula em escola estadual de São Paulo – Gilberto Marques/A2img
O tema está contemplado no campo jornalístico-midiático da Base Nacional Comum Curricular (BNCC), dentro da disciplina de língua portuguesa. Porém, todo o processo de investigação, pesquisa, síntese e produção de conteúdo – em suma, o processo jornalístico – pode ser uma estratégia educativa bastante eficaz em qualquer disciplina, avançando além de produção de notícias para a criação de conteúdo em linguagens diversas.

Aprendizagem ativa

É sabido que o aprendizado mais consistente é aquele desenvolvido por meio de experiências ativas de investigação e criação. Ao expandir as possibilidades criativas na sala de aula para incluir a produção de mídias, o professor promove uma aprendizagem mais profunda e significativa do conteúdo curricular, além de desenvolver as habilidades essenciais da educação midiática: o letramento da informação, a autoexpressão e a fluência digital.

Os benefícios educativos não param por aí. A produção de conteúdo não-ficcional estimula o engajamento do aluno com o mundo além da sala de aula. Ao pesquisar, conectar e sintetizar informações, o aluno é levado a praticar o pensamento crítico de ordem elevada, e também as chamadas habilidades do século 21: comunicação, colaboração e criatividade.

Orientando o processo

Para que a criação de mídias seja uma estratégia de aprendizado realmente eficaz, o professor deve orientar o processo de forma bastante intencional, em três etapas distintas: observação, investigação e criação.

A primeira etapa é estimular a observação e reflexão. O processo jornalístico parte sempre de uma pergunta: o que queremos descobrir? Que histórias podem estar contidas neste assunto? Estimule o aluno a ir além da simples descrição de um tópico, ativando sua curiosidade.

Seja qual for a disciplina, podemos investigar o impacto de fenômenos naturais ou sociais em nosso dia a dia, pesquisar seus antecedentes ou evolução ao longo do tempo, ou conhecer personagens ligados ao tema. Nesta fase, exploramos os diversos ângulos de um mesmo assunto e definimos a pergunta disparadora.

A partir dessa definição, a segunda etapa é a investigação. Esta é a oportunidade de conduzir de forma estruturada o processo de pesquisa, explorando o que são informações confiáveis e onde encontrá-las. Quais seriam fontes adequadas para esse assunto, e quem podemos entrevistar?

Leve o aluno a registrar que outras perguntas surgiram após a investigação inicial, e decida como serão feitos os registros (texto, visuais, entrevistas, vídeo) que darão suporte à investigação.

Na última etapa, é preciso orientar a criação do produto final. Como iremos relatar essa história? Que formato é o mais adequado para destacar o que queremos transmitir? Podemos contar histórias através de textos, fotos, gráficos, mapas, vídeos explicativos, entrevistas, documentários e até quadrinhos. Vamos criar ou pesquisar imagens? Temos o direito de uso delas? Estimule o pensamento visual com rascunhos e storyboards, e o planejamento cuidadoso das etapas de produção.

A criação de mídias na escola cumpre finalmente o seu papel principal de formação do cidadão quando permitimos a publicação de conteúdo para uma audiência real, levando o aluno a entender a comunicação como forma de participação responsável e atuação positiva na sociedade.

Coordenadora do EducaMídia, programa de educação midiática do Instituto Palavra Aberta

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