Desinformação alimenta nova revolta da vacina

FOLHA DE S.PAULO – 14/01/2021

Daniela Machado

Não foram poucas as mentiras relacionadas à Covid-19 que circularam ao longo dos últimos meses. De acusações falsas sobre caixões vazios a delírios que denunciavam o termômetro digital como ladrão de senhas de banco, o cardápio de desinformação e teorias conspiratórias foi dos mais completos.

Esse tipo de discurso tumultua as redes sociais, confunde muitas pessoas e faz com que seja cada vez mais difícil filtrar as informações de qualidade das quais realmente precisamos num momento de pandemia. Mas foi ao aproximar-se mais da área da saúde, prometendo curas milagrosas ou rechaçando recomendações cientificamente comprovadas, que as fake news fizeram e ainda fazem os maiores estragos. É o que tem acontecido quando o assunto é vacinação.

Não é de hoje que circulam dados falsos sobre vacinas, relacionando-as de forma equivocada a casos de autismo e outros problemas. Já assistimos a esse (triste) filme com o sarampo, por exemplo, e o resultado foi o aumento no número de casos da doença.

Com a Covid-19, o discurso dos que criam ou compartilham desinformação é bem criativo: as vacinas teriam chips implantados para controle populacional; as vacinas poderiam alterar o DNA; as vacinas seriam produzidas a partir de células de fetos abortados; Bill Gates teria dito que a vacinação pode matar centenas de milhares de pessoas… Por mais absurdas que as afirmações sejam, há quem acredite nelas ou simplesmente quem as dissemine com o propósito de tumultuar um momento tão delicado pelo qual passa o mundo. Também não se deve descartar interesses econômicos e políticos de quem veicula ou simplesmente deixa de desmentir e combater tais inverdades.

É nesse contexto que ganha ainda mais importância o desenvolvimento de habilidades para que todos possam se relacionar de maneira fortalecedora com as informações. Cabe à escola ajudar crianças e jovens a ler o mundo criticamente e se expressar nele com responsabilidade.

Discutir desinformação nas aulas de ciências, por exemplo, é uma excelente oportunidade não só para combater fake news mas também para conectar a escola ao que acontece ao seu redor, relacionando os componentes curriculares com assuntos debatidos pela sociedade no momento.

Os alunos podem ser incentivados a explorar textos jornalísticos, artigos de opinião, charges, ilustrações, anúncios e até memes sobre vacinas, identificando em cada mensagem quem a criou e com qual propósito, se há embasamento científico para as afirmações que são feitas e quem são as fontes consultadas em cada caso.

Além da análise, é importante que os alunos também produzam conteúdo. Uma sugestão é criar campanhas de utilidade pública enfatizando o papel de cada um na saúde coletiva. Dependendo da idade, os estudantes podem definir estratégias para tornar as informações científicas mais acessíveis à população em geral e usar suas redes sociais como canal de comunicação responsável sobre temas ligados à ciência.

Construir um ambiente informacional de qualidade requer a participação de todos, ainda mais quando o que está em jogo é a nossa saúde.

Coordenadora do EducaMídia, programa de educação midiática do Instituto Palavra Aberta

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