Conheça quatro veículos brasileiros de mídia negra, que fazem jornalismo antirracista e com perspectiva racial

LATAM JOURNALISM REVIEW – 24/11/2020

Marina Estarque

Apesar de formarem mais de 55% da população brasileira, negros ainda são minoria nas grandes redações do país, principalmente em cargos de liderança. A falta de diversidade nos meios de comunicação tem reflexos na cobertura jornalística, que acaba reforçando estereótipos e preconceitos. Para se contrapor a esse cenário, muitos veículos e coletivos de mídia negra surgiram nos últimos anos no país, para dar visibilidade à luta antirracista e fazer jornalismo com perspectiva racial. Muitos deles têm projetos para formar estudantes sobre como fazer um jornalismo antirracista, além de capacitar e oferecer mentoria para profissionais negros.

Em novembro, mês da Consciência Negra no Brasil, a LatAm Journalism Review (LJR) falou com quatro desses meios de comunicação, que você pode conhecer abaixo.

Alma Preta

A agência de jornalismo Alma Preta, de mídia negra, surgiu em 2015 e cobre principalmente política nacional e o cotidiano das periferias, com uma perspectiva racial. “As reformas da previdência e trabalhista, por exemplo, que foram muito debatidas, nós cobrimos esses temas, entrevistando especialistas e mostrando como isso impacta de forma mais sensível a comunidade negra. Isso é uma coisa que o jornalismo não faz”, afirma Pedro Borges, cofundador e editor-chefe da Alma Preta, à LJR.

É por isso que a mídia negra é tão necessária, diz Borges. “Mas o certo seria que todo jornalista fizesse isso, porque tem que mostrar como tem regiões do país, gêneros e grupos raciais que vão ser mais impactados”, explica. O veículo conta hoje com 12 colaboradores – a maioria está localizada em São Paulo, mas há correspondentes em Belém e Recife.

Borges diz que criou a Alma Preta por ver uma “total falta de representatividade negra na mídia”, o que gera uma “cobertura pouco objetiva”. “Aprendemos na universidade que o jornalismo é objetivo, tem apuração, tem que trazer as contradições da sociedade. E não tem como fazer jornalismo e ser objetivo no Brasil se, ao cobrir uma grande agenda nacional, o jornalista não explicar as complexidades de raça, gênero e território. A gente sentia falta de uma objetividade jornalística que levasse em consideração esses que são pilares estruturantes da sociedade brasileira”, conta.

Para ele, a mídia negra faz uma cobertura mais complexa e objetiva, mostrando como o racismo não está restrito a episódios de discriminação, mas faz parte da constituição da sociedade brasileira. “Esse é um grande ganho [que a mídia negra traz], porque ajuda na formação das pessoas. Ao contrário do jornalismo da imprensa corporativa, que gera uma passividade, o nosso jornalismo quase convoca as pessoas para se mobilizarem”.

Além disso, Borges afirma que esses veículos empregam pessoas negras em um mercado de trabalho difícil, marcado pelos baixos salários, precarização e demissões em massa. A agência publica notícias no seu site, redes sociais, um canal no YouTube, mantém um podcast, Papo Preto, e uma newsletter gratuita.

A Alma Preta também desenvolve, atualmente, um manual de redação junto com estudantes de três universidades (Unesp, Unicamp e UnB), para para guiar o trabalho do veículo e de outros meios da mídia negra. A agência se sustenta por meio de campanhas de crowdfunding e anúncios no site. Os assinantes que fazem uma contribuição mensal também têm acesso a conteúdo exclusivo.

Correio Nagô

O Correio Nagô foi lançado em 2008 por então estudantes universitários que militavam pela democratização da comunicação e tinham em comum a luta antirracista. O grupo estava concentrado em Salvador, onde fundaram o Correio Nagô.

O jornalista André Santana, fundador e editor do veículo, contou à LJR que o grupo começou a sua atuação com monitoramento de mídia, formação de jovens para leitura crítica e educomunicação. “Depois percebemos que não bastava apenas criticar a mídia, precisávamos de um veículo próprio”, diz.

O meio de comunicação, focado em questões raciais, é formado por três pessoas e trabalha com colaboradores. O conteúdo é publicado no site, nas redes sociais e no canal do YouTube, Tv Correio Nagô. O Correio Nagô faz parte do Instituto Mídia Étnica, uma organização de mídia afro brasileira, que recebe aportes por meio de projetos, editais e fundações internacionais.

Além do portal, o Correio Nagô tem um projeto, em sua terceira edição, de formação de estudantes de jornalismo sobre como cobrir relações raciais. O último curso teve 25 alunos e durou quatro meses, com encontros semanais presenciais. A terceira edição foi adiada devido à pandemia e deve ser retomada assim que possível.

O nome do veículo vem de uma das formas de resistência dos primeiros negros escravizados, que transmitiam o conhecimento e a informação através da história oral, de acordo com a explicação do portal. “Correio Nagô é a comunicação boca a boca entre os negros, entre a comunidade negra escravizada. Porque nas rebeliões, nos processos de luta de quilombos, essa conversa de um para o outro foi muito importante na nossa história aqui no Brasil, até porque obviamente a gente não tinha veículos”, diz Santana.

Segundo ele, a expressão ainda é usada em Salvador. “A gente ouvia muito isso: ‘não saiu em jornal nenhum, eu soube pelo Correio Nagô’, no boca a boca. E a gente pensou nisso quando escolheu o nome. Queríamos que as pessoas soubessem, pelo portal Correio Nagô, o que não ficavam sabendo por outros veículos”, conta.

Lançar um veículo próprio, afirma Santana, era uma tentativa de se contrapor à imprensa tradicional, que reproduzia muitos estigmas sobre a população negra. “A gente via pouca presença negra no jornalismo e quando via era uma abordagem muito negativa. Ainda tem isso, principalmente nas pautas de segurança, violência. É sempre uma abordagem de criminalização, ligada à miséria. Os veículos [de mídia negra] funcionam para mostrar a diversidade que tem nas comunidades negras. Tem muitos problemas sim, mas também tem muita potência, muita coisa boa”, diz.

Por isso, Santana explica que o Correio Nagô gosta de publicar matérias positivas, sobre religião, arte, cultura, educação e empreendedorismo negros. “A gente também fala de inovações negras, tecnologia, economia, áreas que faltam na mídia tradicional”.

No entanto, o veículo também cobre casos de racismo e atividades do movimento negro, como atos e manifestações. “A gente tenta equilibrar matérias de denúncia de racismo e intolerância religiosa com essas pautas positivas. Mas se pudesse a gente daria mais isso [as positivas]”.

Santana acredita que os veículos da mídia negra costumam contextualizar melhor os problemas. “Não adianta falar de guerra às drogas, sem falar de uma política de segurança que é racista, genocida, que tem a morte como finalidade”, explica. Esses veículos, defende ele, também diversificam as fontes, dando espaço para intelectuais, especialistas, artistas e líderes negros, que não costumam aparecer na imprensa tradicional. “São meios que escutam e apresentam o que essas pessoas pensam sobre os problemas do país”.

Notícia Preta

O Notícia Preta foi fundado em 2018 pela jornalista Thais Bernardes, após ter passado por diversas redações tradicionais. Segundo ela, a ideia de lançar um veículo surgiu de “uma vontade de representatividade” e por identificar que era muito difícil fazer jornalismo com perspectiva racial dentro da imprensa tradicional.

“Muitas vezes, nas notícias que eu mesmo fazia e reproduzia, não tinha uma linguagem antirracista. E, quando não tem, você acaba estereotipando aquele corpo negro nas matérias. Comecei a pensar que eu tinha que fazer um jornalismo diferente”, contou Bernardes, fundadora e editora-chefe do Notícia Preta, à LJR.

O veículo se define como mídia antirracista e se concentra nas editorias de política e polícia – áreas em que Bernardes tinha mais experiência. “O nosso forte mesmo é hard news. Eu venho do factual, de cobrir muito [a editoria de] polícia, que é onde a maioria das vezes o corpo negro aparece associado à violência, marginalidade e vulnerabilidade. Como a gente retrata esse tipo de notícia não resumindo o negro a isso? É um grande desafio cobrir polícia com viés antirracista e fazer um jornalismo não punitivista”, diz ela.

Ao trabalhar na imprensa tradicional, ela costumava se deparar com editores brancos que, muitas vezes, resistiam em apostar no que ela chama de “linguagem não violenta e racializada”.

“O editor [tradicional] vai querer um título: ‘Traficante é preso com 15kg de cocaína’. Mas você não pode falar que uma pessoa é traficante se ela não foi sequer julgada. No Notícia Preta, isso não seria notícia, porque até que ponto essa massificação, de colocar a pessoa negra na mídia sempre no lugar do traficante violento, é válida? Mas a gente poderia falar em ‘suspeito de’ tráfico, porque quando você é preso você é acusado de alguma coisa, você não é aquela coisa”, exemplifica.

Para Bernardes, veículos como o Notícia Preta não apenas dão acesso e visibilidade para jornalistas negros, mas exercem uma função educacional. “Vejo o jornalismo como um processo de educação e formação de uma sociedade antirracista. É através da educação que a gente consegue mudar alguma coisa”, defende.

O papel educacional não se limita ao público. O Notícia Preta funciona como uma incubadora para jovens jornalistas negros, diz Bernardes. “É muito difícil para estudantes negros passar em processos seletivos, que pedem inglês fluente, e ingressar na imprensa tradicional. Então a gente faz uma formação, acompanha o estudante, vai para a rua e faz reportagem junto”, conta.

Atualmente, o núcleo do Notícia Preta é composto por Bernardes, um designer e um programador. O veículo tem 17 colaboradores, em 11 estados do país. Bernardes afirma que o objetivo é ter abrangência nacional e não cobrir apenas a região Sudeste, onde já há a maior concentração de meios de comunicação do país.

A jornalista trabalha no projeto de forma voluntária, porque o Notícia Preta ainda não se sustenta. “Coloco muito do meu bolso mesmo. Todo mundo tem outro emprego, ninguém vive do Notícia Preta”, diz ela, que é coordenadora de comunicação no governo do estado do Rio de Janeiro. Apesar de ainda não se manter, o site tem uma pequena receita com conteúdo patrocinado, anúncios e apoio dos leitores, que podem contribuir com R$ 9,90 por mês.

Revista Afirmativa

O coletivo de mídia negra Revista Afirmativa começou a se organizar em 2013 e lançou oficialmente seu portal em 2014, junto com a primeira edição impressa da revista. O veículo foi desenvolvido por estudantes de jornalismo da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB), mais especificamente na cidade de Cachoeira. Até hoje, a maioria da equipe, composta de cinco profissionais fixos e pouco mais de dez colaboradores, está baseada no interior da Bahia e na capital, Salvador.

“O curso de jornalismo fica em Cachoeira, que é uma cidade emblemática em relação à história da organização política da população negra, tem irmandades que lutaram contra a escravidão. É um lugar muito rico do movimento negro”, diz a jornalista Alane Reis, cofundadora e editora-chefe da Revista Afirmativa, à LJR.

O veículo faz uma cobertura nacional, mas prioriza a região Nordeste e Amazônica. “A mídia empresarial não costuma dar a visibilidade para as questões de violações de direitos humanos nesses lugares”, explica Reis, que também é pesquisadora de mídia negra na UFRB.

A meta do site era cobrir as políticas afirmativas que, naquela época, eram questionadas na Justiça. “Tinha um debate muito reacionário em torno das cotas no Brasil naquele momento”, lembra Reis. Com o tempo, o veículo passou a incluir outros temas prioritários.

“Uma editoria privilegiada é o debate sobre o genocídio da população negra, a segurança pública, o extermínio da juventude negra, violência contra mulher, o feminicídio. Outra editoria prioritária são os povos tradicionais, sobretudo a população quilombola e indígena, além da participação política da população negra e a defesa da democracia”, diz Reis.

A jornalista afirma que o veículo produz conteúdo sobre os temas da vida social e política em geral, especialmente sobre as tensões raciais. “Como a população negra é a maior parte da população brasileira, fazemos um jornalismo que tem a perspectiva da maioria da população como ponto central. O nosso slogan é ‘Somos nós, falando de nós, para todo mundo'”.

Além das notícias da Revista Afirmativa serem feitas por negros, o veículo também privilegia fontes negras. “A nossa crítica é que o jornalismo tradicional tende a trazer as pessoas negras para falar exclusivamente sobre racismo. Como se as pessoas negras não tivessem formações, expertises e produção intelectual em outros campos”.

Para Reis, os veículos de mídia negra contribuem para resgatar a ética e a função social do jornalismo. “Diante de um desgaste da mídia hegemônica e tradicional, o que nós, mídia negra em geral, fazemos é resgatar essa legitimidade do jornalismo, esse jornalismo centrado no bem público e coletivo”.

Ela destaca que, assim como outros meios de mídia negra, a Revista Afirmativa enfrenta dificuldades financeiras. Atualmente, o meio de comunicação não tem financiamento fixo, programa de assinaturas ou anúncios. Para contribuir, o leitor pode entrar em contato através do site. “Formular um modelo de negócios sustentável é hoje o nosso maior desafio”, diz.

Em outra frente de atuação, entre junho e setembro de 2020, a Revista Afirmativa realizou o Lab Afirmativa de Jornalismo. O veículo selecionou nove jovens negros, estudantes de jornalismo ou recém formados, para participarem de uma formação teórica e prática em jornalismo e mídia negra. Os participantes foram a campo para produzir reportagens sobre a pandemia de coronavírus nas periferias e favelas. O material foi publicado no site e reunido em um ebook.

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