Conheça a Lésbi, revista feita para mulheres que se relacionam com mulheres

CULTURADORIA – 25/06/2020

Jaiane Souza

A proposta é informar com qualidade e de forma acessível mulheres lésbicas e bissexuais.

Na adolescência, quando estava descobrindo e conhecendo sobre sexualidade, Ana Luiza Gonçalves não tinha informações disponíveis ou uma rede de apoio que a ajudasse a entender quem ela era. O mesmo ocorre com muitas mulheres lésbicas e bissexuais nas mais variadas idades. Pensando nisso, a jornalista Ana Luiza se uniu a outras mulheres, também lésbicas e bissexuais, para criar a revista Lésbi.

“Eu sempre falo que a revista não surgiu quando eu tive a ideia do projeto. Veio antes, lá na adolescência, quando me descobri lésbica e não tinha informações acessíveis. Ir ao médico e ao psicólogo era difícil por falta de profissionais capacitados para realizar atendimento” explica a jornalista.

Dessa forma surge a Lésbi, um canal de comunicação entre as mulheres lésbicas e bissexuais, para trocar informações, ser um espaço de discussão, representatividade e visibilidade. O projeto foi viabilizado com recursos da Lei Municipal de Incentivo à Cultura de BH e conta com versão física e digital em duas versões.

A primeira edição foi lançada em junho de 2020 e está disponível no site. Além disso, interessadas de todo o Brasil podem solicitar a entrega da versão física, já que há verba dedicada para envio pelos correios.

Representatividade
Para colocar a ideia na prática, o projeto conta com dez mulheres de diferentes áreas que colaboram com conhecimentos e vivências diversas. Tem psicóloga, engenheira, jornalista, fotógrafa, produtora cultural. Entretanto, a linguagem simples é um foco importante.

“Não utilizamos linguagem acadêmica, mesmo com estudiosas na equipe, justamente para permitir que todas as pessoas tenham acesso. Nós abrimos um chamamento público, por exemplo, e muitos textos foram enviados até em primeira pessoa”, conta Ana Luiza.

E a representatividade vai além. Os assuntos vão desde relacionamento abusivo entre mulheres, passando por sexo entre mulheres, racismo, maternidade e mulheres trans. “Pra mim foi de uma emoção sem fim poder ter acesso a um material  pensado exclusivamente em nós, nossas narrativas, nossos problemas e também nossas felicidades”, relata Fernanda Lamas, que recebeu a revista impressa em casa.

Compartilhamento de dores e autoconhecimento
A rede de apoio e informações se fortalece na medida em que as histórias se cruzam. Tanto Fernanda Lamas quando Débora Gomes, outra mulher que recebeu a revista, compartilham das mesmas dores e viram na Lésbi uma forma de amenizar as tais dores e questões. “A leitura de cuidados com a saúde foi uma das que mais me chamou atenção, pois isso é uma dificuldade muito grande ainda. Eu mesma só fui achar uma ginecologista de confiança e que expressou a importância de realizar todos os exames (preventivo, por exemplo) com 26 anos de idade”, desabafa Débora. A publicação faz indicações de profissionais, podcasts, leituras e outras referências.

A matéria sobre relacionamentos abusivos entre mulheres também teve boa recepção e provocou reflexões. “Eu sei que vivi uma experiência não muito legal e foi preciso muito tempo para ver que aquilo não era certo. Sempre eu pensava que tinha algo errado e acabava me questionando ‘mas não tem como mulher ser abusiva’, questionava também meus sentimentos, complementa Débora. O mesmo aconteceu com Fernanda, que afirma ser importante discutir o assunto já que é  sempre cercado de tabus. “Foi muito bom ver impresso nas minhas mãos um assunto sobre o qual eu passei muito tempo refletindo sozinha”, conclui.

Apoio a outras causas
A Lésbi se posiciona nas redes sociais frequentemente e defende outras causas. Entre elas o combate ao racismo e à transfobia. Uma das publicações da revista causou bastante discussão. Alicia Moreira é uma mulher trans que colaborou com a revista falando sobre relacionamento entre mulheres lésbicas cis com travestis.

“Nós trabalhamos com o lugar de fala na publicação. Então, foi importante ter esse texto da Alicia, uma mulher invisibilizada inclusive dentro do movimento LGBTQI+”, conclui a jornalista Ana Luiza. A partir das discussões a respeito da Lésbi as organizadoras estão trabalhando com estratégias para ampliar cada vez mais o debate e criar pontes entre as pessoas.

Você pode ler a publicação na íntegra no site:
http://revistalesbi.com.br/

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