Como as histórias em quadrinhos surgiram e se tornaram tão populares

GALILEU – 30/01/2020

LARISSA LOPES

“Nhô Quim decide-se a deixar os lares paternos. Cobrem-no de beijos, abraços, conselhos e bênçãos! Montado no cavalinho ruço, diz o nosso herói o último adeus!”. É assim que começa a primeira história em quadrinhos do Brasil, As Aventuras de Nhô Quim ou Impressões de uma Viagem à Corte, do artista ítalo-brasileiro Angelo Agostini. Na obra, o pioneiro da nona arte conta a história do caipira Nhô Quim, que troca a vida no campo por aventuras na cidade do Rio de Janeiro.

Publicada em 30 de janeiro de 1869, a HQ se inspirou nos moldes do livro Histoire de Mr. Jabot (1833), do suíço Rodolphe Töpffer, que narra a história por meio de ilustrações com legendas. Em 2019, As Aventuras de Nhô Quim completou 150 anos de publicação — mas, ainda assim, perde o título de primeiro quadrinho do mundo para uma HQ lançada 26 anos depois: Yellow Kid, do ilustrador norte-americano Richard Felton Outcault. “Para a maioria dos pesquisadores, Yellow Kid é o marco inicial da indústria de quadrinhos”, explica Waldomiro Vergueiro, coordenador do Observatório de Histórias em Quadrinhos da USP. “Isso porque foi o primeiro quadrinho a apresentar balões de fala, o que impactou a forma como as tirinhas passaram a ser apresentadas e impulsionou a produção industrial das HQs.”

Títulos à parte, os quadrinhos a la Töpffer têm seus méritos. Passando longe dos super-poderes que popularizaram a arte das HQs, cada um deles representou um grande passo para a veiculação de charges carregadas de crítica social e uma gama gigantesca de heróis, além da venda de revistas infantis a preços acessíveis a todos. Tudo isso possibilitou que os artistas de hoje pudessem distribuir seus trabalhos em apenas alguns cliques.

Era de Ouro no Brasil

“O Brasil tem uma longa tradição em ilustração, que remonta aos tempos de Angelo Agostini”, afirma Ivan Freitas da Costa, cofundador da Chiaroscuro Studios, agência que representa quadrinistas brasileiros no exterior, e da Comic Con Experience, considerada o maior evento nerd do mundo — só na edição de 2019, conseguiu atrair 280 mil visitantes em quatro dias.

O sucesso dos projetos de Costa é apenas um dos indícios de que, com a evolução das artes gráficas no Brasil, o país se tornou um local cheio de leitores assíduos de quadrinhos, bem como um polo de artistas renomados internacionalmente.

Dos mais de 60 quadrinistas representados pela Chiaroscuro Studios, boa parte atua em grandes editoras estrangeiras, tais como DC Comics, Marvel Comics, Skybound e Image Comics. “Essas empresas procuram artistas velozes, qualificados, plurais, com os quais é fácil trabalhar”, explica. “Existe espaço para nossos profissionais lá fora — e aqui dentro também! Atualmente, a produção autoral é versátil e conquista todo tipo de público, do infantil ao fã de terror. Estamos vivendo uma Era de Ouro dos quadrinhos brasileiros.”

HQs por toda parte
A nona arte provou ser versátil: foi do papel para as telas da TV, do cinema e do computador, tornando-se um dos produtos transmidiáticos mais rentáveis e queridos da atualidade

Capitã Marvel, Vingadores: Ultimato, Shazam!, Homem-Aranha: Longe de Casa… Há dez anos, a ideia de que os principais lançamentos do cinema seriam filmes de super-heróis soaria maluca. Mas, desde 2012, com a estreia de Os Vingadores e o fim da trilogia Batman, de Christopher Nolan, o gênero entrou oficialmente na agenda de Hollywood — de onde dificilmente sairá.

“Os heróis cativaram os espectadores para além do público nerd, tornando-se o tipo de entretenimento que pode ser consumido por todos”, observa Gabriela Franco, especialista em cultura pop e fundadora do portal Minas Nerds. Para ela, que também é fã e colecionadora de quadrinhos, esse carisma todo surge de uma junção de fatores: efeitos especiais de tirar o fôlego, investimento e planejamento de marketing, bem como cliffhangers — cenas que seguram os espectadores na cadeira do cinema até o último minuto, deixando aquele gostinho de “quero mais” —, são alguns dos segredos por trás dessa lucrativa indústria. “É o princípio dos quadrinhos aplicado ao cinema”, analisa. “Quem ganha com isso é o público.” E, claro, as empresas.

O ano de 2018 foi histórico para as bilheterias do cinema: pela primeira vez, mais da metade dos dez filmes mais lucrativos do ano eram de super-heróis, dos quais cinco eram adaptações de personagens dos quadrinhos, somando mais de US$ 5,98 bilhões. O sucesso nas telonas também aquece o próprio mercado das HQs, criando uma série de novos leitores também dispostos a consumir produtos licenciados, videogames e séries. “A qualidade e a coesão dos produtos transmídia são cuidadosamente planejadas para que essa arte se mantenha viva”, considera Franco.

Agora é que são elxs
Pouco ou mal representadas nas primeiras décadas da indústria, minorias conquistam espaço entre o público de quadrinhos e garantem mais autonomia para publicar as próprias produções

Após décadas de discussões e luta por direitos iguais, mulheres, negros e membros da comunidade LGBTI têm cada vez conquistado mais espaço e prestígio no mercado mainstream de HQs.

O que é uma novidade para as grandes empresas do mercado, sempre foi praxe na cena de quadrinhos independentes. Foi nessa porção do mercado que a quadrinista norte-americana Trina Robbins, de 81 anos, encontrou espaço para escrever, sem tabus, sobre sua realidade. “Não éramos afetados pelo Comics Code Authority [código que estabeleceu diretrizes conservadoras às HQs], podíamos fazer o que quiséssemos”, lembra.

As mudanças no mainstream começam aos poucos, a partir da década de 1960, com a criação de personagens negros de grande visibilidade, como Pantera Negra (1966) e Tempestade (1975). “No Brasil, atualmente temos artistas talentosos que trazem essas causas à tona, como Marcelo D’Salete, que venceu o Prêmio Eisner, o ‘Oscar dos Quadrinhos’, em 2018”, ressalta Nobu Chinen, pesquisador do Observatório de Histórias em Quadrinhos da USP.

Nas últimas décadas, a comunidade LGBTI também ganhou destaque e representatividade nas HQs. Segundo Amaro Braga, professor adjunto da Universidade Federal de Alagoas, autores gays, lésbicas e trans “são mais frequentes e têm voz” no meio. “Eles costumam ser autores engajados, produzindo personagens que conseguem defender suas causas e instruir, por meio do humor, as questões que reforçam suas lutas identitárias.”

Para todos os gostos
Descubra qual formato tem mais a sua cara

Mangás
Esse tipo de narrativa valoriza a perspectiva do personagem e ainda pode ter abordagens mitológicas ou futurísticas, caso de títulos como Akira, Ghost in the Shell e Your Name. Considerado o tipo de HQ mais lido e produzido no mundo, o gênero movimentou US$ 3,13 bilhões em 2017 só no Japão.

Graphic novels
Nas graphic novels, as narrativas são mais longas e aprofundam-se em um só assunto ou universo. Tendência no mercado, diversas editoras têm selos dedicados a esse tipo de quadrinhos. Maus, Fun Home e Persépolis estão entre os títulos mais empolgantes lançados nos últimos anos.

Tirinhas
Presentes nos jornais desde o século 19, as tirinhas impulsionaram as HQs com seu formato dinâmico e cheio de verdades ácidas. No Brasil, destacam-se artistas como Laerte e André Dahmer; no mundo, algumas das melhores sacadas estão em edições de Mafalda e Peanuts.

Internet
“Imediata e sem custo, a internet tem mostrado ser uma ótima ferramenta de divulgação e consumo”, avalia João Paulo Sette, fundador da Social Comics, rede social com mais de 90 mil usuários. Recomendada para quem tem gosto diversificado e valoriza a produção nacional.

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