Como a HQ ‘Paracuellos’ retrata a infância na ditadura espanhola

NEXO – 06/08/2020

Cesar Gaglioni0

Em obra autobiográfica, o quadrinista Carlos Giménez relata histórias de seu país sob o regime de Francisco Franco.

Entre 1938 e 1973, a Espanha viveu uma ditadura sob as mãos de Francisco Franco. O general liderou a frente nacionalista na Guerra Civil Espanhola (1936-1939), fazendo oposição aos republicanos, que apoiavam a Segunda República Espanhola, iniciada em 1931 sob os ideais da esquerda.

O conflito acumulou cerca de 500 mil mortos, com a vitória dos nacionalistas e a ascensão de Franco ao poder. Durante o período franquista, dezenas de violações aos direitos humanos foram registradas na Espanha.

Da perseguição de oponentes políticos à adesão de conceitos religiosos para governar, ignorando a pluralidade de crença, Franco cumpriu a cartilha ditatorial por completo.

Mas, para além das tomadas de decisões e dos centros de poder, havia uma vida cotidiana na Espanha. E é essa vida que o quadrinista Carlos Giménez retrata em “Paracuellos”, HQ publicada no Brasil em julho de 2020, considerada um patrimônio dos quadrinhos mundiais.

Relatos de uma infância
Autobiográfica, “Paracuellos” recria passagens da infância do próprio Giménez, que, aos oito anos, já era órfão de pai e mãe, e foi enviado, junto de seus irmãos, a orfanatos administrados pelo Auxílio Social, organização de amparo social que surgiu com o início da Guerra Civil Espanhola.

Esses lares dispunham de regras rígidas, em uma estrutura quase militar, com uma forte presença católica, representada pela figura de padres e freiras.

Na HQ, vemos os protagonistas, Pablito, Adolfo e Peribáñez, passando de orfanato em orfanato, submetidos a grandes doses de crueldade, forçados a “serem úteis” para a sociedade, privados da própria infância.

Apesar de tudo isso, os órfãos logo descobrem o que é a fraternidade e a amizade, ancorando-se uns nos outros para enfrentar tudo aquilo que acontece a eles.

Carlos Giménez começou a produzir “Paracuellos” em 1975, publicando as primeiras tiras em revistas como a Muchas Gracias e El Papus. A história não cativou os leitores num primeiro momento, e o quadrinista decidiu então compilar a trajetória dos órfãos no formato de álbum, tentando a publicação na França.

A estratégia deu certo: o primeiro volume foi lançado em terras francesas no ano de 1977, chamando a atenção do público e se tornando um sucesso de crítica.

Outros cinco volumes foram publicados entre 1982 e 2003. Depois de anos de hiato, “Paracuellos” ganhou dois novos álbuns, lançados em 2017.

A edição brasileira lançada pela Comix Zone compila os quatro primeiros volumes, ao preço sugerido de R$ 89,90. A editora pretende lançar as histórias restantes em 2021.

De acordo com Thiago Ferreira, sócio da editora Comix Zone ao lado do escritor Ferréz (“Capão pecado”), o atual momento político do Brasil foi um dos fatores na hora de decidir pela publicação do título.

“Nós sempre estamos em busca de quadrinhos que vão além do puro entretenimento”, disse Ferreira ao Nexo.

“Nesse sentido, ‘Paracuellos’ foi uma escolha fácil, porque tem muito a ver com o momento político que a gente atravessa no Brasil. Há momentos que lembram muito o governo Bolsonaro, com um nacionalismo exacerbado, com o autoritarismo, com proselitismo religioso. Tudo isso está em ‘Paracuellos’”, afirmou.

Apesar dos paralelos, Ferreira não vê um tom panfletário em “Paracuellos” e vê uma mudança de tom conforme a história avança.

“Assim que terminou a ditadura de Francisco Franco, Giménez começou a produzir ‘Paracuellos’, os primeiros álbuns têm um tom de denúncia, porque eram as histórias que ele sentia mais urgência em contar”, disse.

“Mas depois ele para de focar nos sofrimentos e passa a falar mais sobre a fraternidade que uniu os coleguinhas dele, a resiliência, o amor pelos quadrinhos. Um lado mais de criança sendo criança, apesar de toda a merda que eles viviam nos abrigos do Auxílio Social”, concluiu.

Segundo Sidney Gusman, editor-chefe do site especializado Universo HQ, “Paracuellos” triunfa ao mostrar para o leitor – e para o mundo atual – uma realidade que existiu em um passado não tão distante.

“É uma realidade chocante, que machuca, e que permeou a vida de muita gente”, disse ao Nexo. Para Gusman, a HQ também tem como grande mérito registrar a evolução de Giménez enquanto artista.

“Um exemplo: ele começa a obra sem apresentar sarjetas – os espaços entre um quadro e outro – , depois, ele insere sarjetas horizontais. No quarto livro, já há sarjetas horizontais e verticais. E é notável como isso traz um refresco para a página”, afirmou.

Ao longo dos anos, “Paracuellos” acumulou prêmios. O mais importante deles veio em 2010, quando a HQ recebeu o “Troféu Herança”, do Festival de Angoulême, na França, um dos principais eventos do mercado. O prêmio honorário é dado apenas a obras que são consideradas patrimônios dos quadrinhos mundiais.

A trajetória de Carlos Giménez
Carlos Giménez é um dos mais prolíficos quadrinistas da Espanha, um dos expoentes da HQ adulta no país.

Iniciou sua carreira aos 17 anos, ao lado de Esteban Maroto e Adolfo Usero, que também viriam a se tornar nomes consagrados do quadrinho espanhol.

Sua primeira série autoral foi “Gringo”, HQ com temática de faroeste, lançada em 1963.

Entre 1967 e 1968, trabalhou em “Delta 99”, HQ de ficção científica feita para o mercado alemão. Na sequência, em 1969, emplacou a série de aventura “Dani Futuro” – antes do lançamento de “Paracuellos” pela Comix Zone, essa era a única obra de Giménez que tinha sido lançada no Brasil.

Durante toda sua carreira, Giménez trabalhou em 35 títulos diferentes, entre trabalhos autorais e obras comissionadas por editoras. Aos 79 anos, o quadrinista segue em atividade.

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