Censura a pesquisa em São Paulo é atentado à democracia e merece repúdio veemente

FOLHA DE S.PAULO

Ricardo Melo
Jornalista, ex-presidente da EBC (Empresa Brasil de Comunicação) e apresentador do programa ‘Contraponto’ na rádio Trianon de São Paulo (AM 740)

A decisão da Justiça Eleitoral contra a publicação de uma pesquisa Datafolha sobre as eleições em São Paulo configura um escândalo sem tamanho.

Pesquisas eleitorais, como sabemos, são apenas um retrato de um determinado momento. O método ficou consagrado para ajudar a orientar eleitores, não para determinar sua vontade na hora de preencher a cédula ou apertar um botão.

São célebres erros ocorridos em levantamentos como esses. O mais famoso, talvez, seja o da eleição do democrata Harry Truman contra o republicano John Dewey nos Estados Unidos, em 1948. Detalhe: naquela época, as pesquisas tinham a publicação vetada na proximidade das eleições.

Por causa disso, manchetes projetaram a derrota de Truman. Só que a situação vinha se modificando à medida que o pleito de aproximava. Os levantamentos estavam defasados em relação ao movimento do eleitorado. Truman ganhou. Após a vitória, o democrata posou em uma foto histórica com uma manchete do jornal Chicago Daily Tribune que cravava sua derrota.

De lá para cá, institutos de pesquisa aprimoraram seus métodos de apuração. Em vários países, Brasil incluído, as tentativas de tolher o direito de “fotografar” a vontade da população foram barradas.

Há institutos e institutos de pesquisa. As perguntas feitas aos entrevistados podem induzir a resultados diferentes. O que vale nestas horas é a credibilidade conquistada ao longo de confrontos, comparando os resultados das urnas com as previsões.

O Datafolha errou várias vezes. Mas não se pode culpar o instituto de má-fé ou de turvar resultados. Ocorre que o eleitor oscila, como é natural. Não apenas isso. Às vezes esconde seu voto verdadeiro, o que é direito de cada um. Exemplo: segundo as enquetes da época, poucos imaginavam que Donald Trump ganharia de Hillary Clinton em 2016.

Mas pesquisas não deixam de ser um fator a ser levado em conta pelo eleitorado. Um fator a mais, mesmo que não seja o decisivo. Trata-se de notícia a ser considerada como mais um elemento de reflexão. Cada um julgue como quiser. Mas, numa democracia, não se pode omitir mais essa informação.

Impedir a publicação de pesquisas de instituições respeitadas é um atentado à democracia. Esta supõe o direito irrestrito à informação desimpedida.

Quando o veto parte de um candidato, seja lá quem for, que despenca aos olhos de todos e em conluio com um desgovernado de extrema direita como Jair Bolsonaro, não passa de censura. Principalmente quando os critérios utilizados pelo instituto são os mesmos utilizados há décadas e jamais questionados pelas instâncias eleitorais.

A tímida reação a esse atentado, inclusive por parte dos atingidos e do Supremo Tribunal Federal, é um péssimo sinal do que nos espera pela frente. Já não bastasse o que já estamos passando no presente.

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