Beleza, apogeu e risco das redes sociais conectadas

PROXXIMA – 26/08/2019

Pyr Marcondes

A revolução transformadora social e política das redes sociais conectadas é a maior e mais acelerada de todos os tempos. Seu impacto em nossas vidas se iniciou dando poder e voz a todo e qualquer cidadão do Planeta que possuísse uma conexão com a internet, o que foi e segue sendo lindo, para, ao longo de praticamente 20 anos agora (MySpace pode ser considerada a pioneira nisso e se consolidou ali no início dos anos 2000, embora outras iniciativas parecidas possam ser consideradas como as origens de tudo … leia a história das redes sociais aqui), se transformar num pesadelo global de impacto hoje incerto e altamente preocupante.

Veja o que diz o The Guardians em reportagem da semana passada… “Communication has been weaponised, used to provoke, mislead and influence the public in numerous insidious ways. Disinformation was just the first stage of an evolving trend of using information to subvert democracy, confuse rival states, define the narrative and control public opinion. Using the large, unregulated, open environments that tech companies once promised would “empower” ordinary people, disinformation has spread rapidly across the globe. The power that tech companies offered us has become a priceless tool in propagandists’ hands, who were right in thinking that a confused, rapidly globalising world is more vulnerable to the malleable beast of disinformation than straightforward propaganda. Whatever we do, however many fact-checking initiatives we undertake, disinformation shows no sign of abating. It just mutates”, analisa e resume o The Guardians sobre o tema e seus mais recentes desdobramentos políticos de grandes e perigosas proporções para governos, empresas e todos nós.

Obra científica acadêmica que trata do tema, The Weaponization of Social Media, do professor hoandês Thomas Nissen, que você pode ler aqui, chega a conclusões semelhantes: as redes sociais conectadas se transformaram em armas de dissuasão e ameaça social.

A comunicação via redes sociais conectadas e online tornou-se uma arma política e revolucionária de poder hoje incomensurável.

Como funciona

A ideia de conexão em rede é fundamentada no conceito de uma malha de pontos de interação sem centro. Principalmente, sem um centro dominante e controlador.

Essa é a maior revolução depois da internet. E a internet é a maior revolução de todas, depois, sei lá, da eletricidade.

(DIAGRAMA DAS CONEXÕES EM REDE)

A estrutura centralizada (A) é a do Estado. O poder que controla.

A descentralizada (B) é a da Internet.

A distribuída (C) é a das Redes Sociais, que usa da conexão para desrespeitar a centralização da força e dar poder a todos.

Em artigo do New York Observer, citando a genial obra de Clay Shirky sobre a explosão das sociedades em rede, Here Comes Everyone, entendemos que …. “For the first time in history, the tools for cooperating on a global scale are not solely in the hands of governments or institutions. The spread of the internet and mobile phones are changing how people come together and get things done—and sparking a revolution that, as Clay Shirky shows, is changing what we do, how we do it, and even who we are. Here, we encounter a whoman who loses her phone and recruits an army of volunteers to get it back from the person who stole it. A dissatisfied airline passenger who spawns a national movement by taking her case to the web. And a handful of kids in Belarus who create a political protest that the state is powerless to stop. “Here Comes Everybody” is a revelatory examination of how the wildfirelike spread of new forms of social interaction enabled by technology is changing the way humans form groups and exist within them”.

Essa capacidade inédita na história da conexão online em rede, na opinião de outro brilhante analista do impacto da tecnologia em nossas vidas, Steven Johnson, em seu best seller “Where Good Ideas Come From” narra como sendo a internet e as conexões sociais promovidas por ela como a maior oportunidade de criação de novas ideias transformadoras jamais criada pelo homem, pois o conhecimento em rede não só se difunde rapidamente em rede, mas é também gerado de forma colaborativamente mais produtiva e original em rede.

Pois o Homem está jogando tudo isso na lata do lixo, na medida em que as redes são hoje muito mais utilizadas para atividades que nada tem a ver com os avanços da pesquisa científica, do conhecimento e do desenvolvimento, mas para fins ideológicos que se radicalizam mais e mais a cada dia, na medida em que forças diversificadas de espectros políticos e ideológicos dos mais variados matizes usam essa mesma força transformadora para objetivos de outro tipo de ordem e natureza.

A melhor obra recente escrita sobre esse tema é Redes de Indignação e Esperança, de Manual Castells, Professor da Universidade do Sul da Califórnia. Nela ficam claros os movimentos de ocupação ideológica e política das plataformas de redes conectadas online por movimentos de todos os tipos. Gerando revoluções e transformações sociais de magnitude ainda hoje inimagináveis.

Ninguém poderia supor que chegaríamos a isso. Mas chegamos. Não há saída clássica para problema de tal magnitude e de tal profundidade. O único antídoto potencialmente forte para combater tal estado de coisas é a força da própria rede, em sentido inverso.

Muito difícil imaginar, neste momento, como isso se daria. Mas essa é, infelizmente, nossa única esperança.

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