‘Asterix’ comemora 60 anos com animação, moeda, livros e álbum inédito

O TEMPO – 13/10/2019

RAPHAEL VIDIGAL

Desde a sua criação, em 1959, foram vendidos 380 milhões de livros de “Asterix” em 80 países, com traduções para 83 línguas e 29 dialetos; a primeira tradução foi para o português.

“Estamos no ano 50 antes de Cristo. Toda a Gália foi ocupada pelos romanos… Toda? Não! Uma aldeia povoada por irredutíveis gauleses ainda resiste ao invasor”. Nessa aldeia, temos o herói da nossa aventura, Asterix. “Ele é um sujeito baixinho que enfrenta, cotidianamente, pessoas muito maiores do que ele”, descreve Gregório Duvivier, com seu 1,68 m.

Carregador de menires, Obelix é o amigo inseparável de Asterix. “Ele faz o que quer, não pensa nas consequências, tem um coração enorme e gosta muito de comida”, aponta Heitor Pitombo, jornalista carioca especialista em quadrinhos. Obelix é proibido de beber a poção mágica que dá força sobre-humana aos gauleses, por ter caído dentro de um caldeirão cheio dela quando era criança, o que eternizou o efeito em seu corpo.

Com sua foice de ouro, o druida Panoramix é quem colhe zimbro e outros ingredientes para a poção. “Me identifico com ele por razões óbvias: sou nerd, fiz física e matemática”, conta o chargista Renato Aroeira, que, por motivos similares, cita o bardo Chatotorix. “Também sou músico”, completa ele, que é saxofonista.

Com a poção no organismo, os gauleses partem para o confronto contra os soldados romanos e, como de praxe, os derrotam. “Os legionários romanos se meteram nessa não porque queriam, são os chefes que decidem tudo, e eles sempre acabam apanhando”, observa o tradutor português Pedro Bouça, ao constatar que esta é uma representação latente da classe trabalhadora. “Alistem-se, diziam eles” é o bordão que os legionários repetem após serem espancados nas lutas.

Porém, de repente, algo interrompe a cena. Um latido insistente, choroso, chama a atenção. “Poucas vezes um personagem de estatura tão diminuta alcançou tamanha expressividade”, sugere Pitombo. É Ideiafix, o cãozinho “defensor da natureza, que chora todas as vezes que vê uma árvore ser derrubada”, lembra a quadrinista potiguar Milena Azevedo, que, assim como o mascote da aldeia, não contém as lágrimas. “De certa forma, posso dizer que ‘Asterix’ influenciou todo o meu amor por história”, declara Milena, mestre em história pela Universidade do Vale do Rio dos Sinos (Unisinos).

Histórico. Eles são apreciadores inveterados de carne de javali, com a qual se empanturram em animados banquetes noturnos, veneram os deuses celtas, exclamam “por Tutatis!” sempre que algo os surpreende e têm um único medo: que o céu caia sobre suas cabeças. Criados há 60 anos pela dupla de quadrinistas franceses René Goscinny e Albert Uderzo, as histórias de “Asterix” (sempre iniciadas com a citação do início desta reportagem) se transformaram em um símbolo nacional capaz de ultrapassar barreiras geográficas e até espaciais, com direito a um satélite batizado de “Asterix”.

Responsável pelos roteiros, Goscinny morreu em 1977, aos 51 anos, vítima de parada cardíaca. “É como se a Torre Eiffel tivesse desmoronado”, lamentava o obituário publicado à época. “Goscinny é o meu grande ídolo. Talvez seja o maior humorista do século XX, ao lado de Billy Wilder e Millôr Fernandes. Ele consegue ser político e popular ao mesmo tempo, com um humor mordaz”, opina Duvivier.

“A França, que tem uma autoestima lá no alto, nunca superou esse extermínio de seu povo originário pelos romanos. O Goscinny reconta esse trauma de forma mitológica, antecipando, em décadas, o (filme) ‘Bacurau’ (de Kleber Mendonça Filho)”, compara o ator, que realizou “um sonho de infância” ao dublar o protagonista da trama em “Asterix e o Segredo da Poção Mágica” (2019), a mais recente animação da franquia. “A poção mágica é algo milenar, que os gauleses vão buscar na natureza. O Brasil hoje despreza a natureza e as tradições indígenas. Nossos gauleses são os índios Caiapó, Pataxó, Ianomâmi”, diz Duvivier.

O longa-metragem de que ele participa é apenas um dos lançamentos feitos para comemorar a efeméride. Na França, uma moeda de 2 euros ganhou a cara de Asterix. Um livro de arte e um tributo de vários ilustradores estão no pacote. Mas o presente mais aguardado pelos fãs é o álbum ainda inédito, programado para 24 de outubro, portanto cinco dias antes da data em que Asterix apareceu pela primeira vez na revista “Pilote”. No Brasil, o livro será editado pela Panini.

Concebido por Didier Conrad e Jean-Yves Ferri, o exemplar número 38 da saga teve uma tira revelada, na qual Jimi Hendrix é mencionado, em uma brincadeira com os trocadilhos que marcam as terminações dos nomes dos gauleses. “O traço do Uderzo é cativante, com aquelas linhas curvas que inspiraram os mangás”, afirma Milena. Aroeira estende os elogios. “O desenho é elegante, a quadrinização segue moderna”, avalia.

Atualmente com 92 anos, Uderzo, que assumira desenho e roteiro com a morte de Goscinny, passou o bastão para os sucessores em 2011. “Enquanto existir o tema dos fracos que não se dobram ao autoritarismo e ridicularizam os fortes, ‘Asterix’ terá espaço”, garante Bouça. Para Aroeira, “Asterix sempre foi um cultor da diversidade”. “Os autores apresentam a Europa como um caldeirão multicultural, combatendo a xenofobia onde ela nasce”, celebra. Milena se vale da própria experiência. “Conheci vários povos na Guatemala, rotulados de atrasados apenas por não se enquadrarem no que o capitalismo considera rentável. ‘Asterix’ me abriu todo um mundo”, conclui.

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