Aprendizagem de 5 projetos jornalísticos latino-americanos de sucesso que adotaram tecnologia em seus processos e conteúdo

LATAM MEDIA REVIEW – 05/05/2021

Júlio Lubianco

Como uma start-up recebe diretamente, e sem muito processo bancário envolvido, a contribuição ou doação em dinheiro de seus leitores? Essa foi uma das perguntas que as pessoas sempre fazem ao jornalista investigativo e de dados chileno Miguel Paz.

Com isso em mente, o jornalista chileno inscreveu seu projeto de plataforma online de pagamentos recorrentes, Reveniu, para o Desafio de Inovação da GNI da Google News Initiative na América Latina.

Este foi um dos cinco projetos inovadores realizados com sucesso na região e apresentados no 14º Colóquio Ibero-americano de Jornalismo Digital organizado pelo Centro Knight para o Jornalismo nas Américas da Universidade do Texas em Austin em 1º de maio.

Imagem em destaque Coloquio techIzq. a der.: Helena Bertho (Az Minas), Miguel Paz (Reveniu), Sylvio Costa (Congresso em Foco), Marco Túlio Pires (Google News Lab), Juan Melano (Croma), y Patrícia Gomes (Jota).
“O que fizemos desde o início com o Reveniu foi servir a mídia independente, pequena e hiperlocal e também jornalistas para elevar essa [plataforma de pagamento] com eles”, disse Paz. Um dos principais desafios de um meio para implementar esse sistema é a cultura da mídia e a síndrome do impostor, acrescentou.

Paz comentou que propor esse sistema para a mídia tradicional foi complicado devido à cultura que existe nas grandes empresas, que pensam seus produtos jornalísticos com a mesma lógica de suas investigações ou artigos.

“Geralmente a mídia que toma a decisão de seguir em frente diz ‘ok, vamos fazer um projeto’, ‘ok, vamos fazer um comitê’, ‘ok, temos que preparar um lançamento’, e eles levam entre seis meses e um ano montando um sistema de adesões, doações ou assinaturas recorrentes”, explicou Paz. “E quando acontece, na primeira semana vai mais ou menos, nem todos os objetivos que eles esperavam dos assinantes são atingidos e eles já estão exaustos de todo o processo que trabalharam.”

Fazer mídia não é o mesmo que fazer jornalismo, embora o jornalismo esteja no centro de tudo isso, disse Paz. “Fazer mídia envolve: negócios, tecnologia, produto.”

Ao resolver essas questões com os recursos proporcionados pela tecnologia, a mídia tem mais espaço para pensar em seus vínculos com a audiência e poder medir e interagir, investindo no seu trabalho com a comunidade, disse Paz. “Sim, isso pode ser feito, construindo alianças virtuosas, principalmente em espaços como os do ISOJ e outros”, concluiu o jornalista.

O brasileiro Sylvio Costa, fundador do site Congresso em Foco, também participou da iniciativa do Google com o projeto Radar do Congresso. Por meio desse projeto, a mídia avalia o desempenho político dos parlamentares, tornando esses dados gratuitamente acessíveis ao público em geral. São informações de funcionários públicos, com diferentes níveis de vigilância, explicou Costa.

“Essa é a realização de um sonho, porque vimos que o bom jornalismo ainda tem muito a ganhar ao utilizar ferramentas científicas especializadas para melhorar a qualidade da informação”, disse.

Mais de 700 mil pessoas já conseguiram acessar essa plataforma nas redes sociais, segundo Costa, lembrando que alguns parlamentares aprimoram seu trabalho para obter uma pontuação melhor no radar, contribuindo assim para a transparência. O radar, segundo Costa, tem peso e é citado por outras mídias do país.

No Brasil, não é só fazer jornalismo, mas também defendê-lo, disse o fundador do Congresso em Foco. Tanto pelos ataques das autoridades ao jornalismo, pelas restrições que o governo impõe à profissão, quanto pela crise pandêmica que já matou 400 mil brasileiros, acrescentou.

Algo semelhante criou a revista brasileira Az Mina, mas com uma abordagem diferente. A revista, criada para combater a violência contra a mulher, criou o produto Elas no Congresso, para fiscalizar os direitos da mulher no Legislativo. É um ranking em que se categorizam as vantagens e desvantagens dos projetos políticos em prol dos direitos das mulheres. Cada congressista recebe uma nota e, portanto, uma posição no ranking.

“Tudo é em código aberto, está disponível no nosso site para quem tiver interesse. Aí se estabelece o ranking em relação ao gênero e tudo isso tem gerado muitos dados que viraram reportagens, vídeos, conteúdos, esclarecendo tanto as propostas quanto as ações das representações populares e como funciona a representação das mulheres na política brasileira”, disse Helena Bertho, editora-chefe da revista.

Com esta abordagem, disse Bertho, enviam semanalmente um boletim informativo com um resumo e uma análise das atividades parlamentares, que já conta com 10.000 assinantes.

“Os dados são lindos e tudo isso, mas se você não chega para o público não adianta de nada”, enfatizou Bertho. Então, o tempo todo eles tiveram que pensar em como tornar o assunto atraente, “a gente tem que estar o tempo todo pensando em vídeo, imagem, texto e como a gente os torna interessante. Um negócio que por si é interessante mas que é essencial para que a população em geral, as mulheres em geral possam estar monitorando os direitos delas”.

O Elas no Congresso tem sido considerado um projeto inovador de dados, explicou Bertho, além de ter uma avaliação com impacto, tanto no público quanto nos congressistas.

Na Argentina, a organização Croma criou com o apoio do Google um software de Inteligência Artificial de código aberto para mídia.

Juan Melano, CEO da Croma, explicou no painel como funciona esse software de uso livre e aberto.

“Adicionar a um banco de dados todo o conteúdo histórico do meio para que a máquina ou o algoritmo possa aprender com o que foi publicado no passado e possa relacionar todas as notícias que foram geradas, para adicionar contexto, relevância, navegabilidade em relação ao público recirculação através do conteúdo. Além de agregar motivos e ferramentas para novos assinantes ou para reter o assinante atual, dando valor agregado, entrando em profundidade em todas as notas em que uma pessoa se relacionou com um assunto”.

A vantagem dessas ferramentas, disse Melano, é que ajudam a mídia a se pensar mais como um produto de tecnologia. “Está forçando a mídia na América Latina a pensar em produtos e nos obriga a adicionar uma mentalidade mais inclusiva a toda a experiência que estamos oferecendo aos leitores, assinantes e integrantes do meio, jornalistas, técnicos, produtores de conteúdo, os gerencial, comercial, etc.”

A sustentabilidade do meio ambiente depende desse pensamento integrador, explicou Melano.

A apresentação de Patrícia Gomes, diretora de produto da Jota, do Brasil, encerrou o painel. O Jota nasceu em 2014 como um site que cobre principalmente notícias jurídicas.

Através do Google, o Jota conseguiu criar uma plataforma com um banco de dados contendo as informações sobre as demandas Conselho Administrativo de Recursos Fiscais (Carf) que estão à disposição do público, mas não estão sendo acompanhadas ou denunciadas pelo jornalismo.

Em seu projeto, Jota combina jornalismo com ciência de dados para analisar os casos do Carf e tornar o sistema tributário mais previsível para os leitores, já que no Brasil o acesso às informações públicas é difícil e suas interfaces, nada amigáveis.

O algoritmo de sua plataforma pode projetar a probabilidade de perda ou vitória de processos atuais e futuros na área de processos tributários resolvidos pelo Carf.

“Além de ser apenas uma ferramenta de consulta e coleta de informações, também queremos fazer parte da vida de nossos usuários como ferramenta de trabalho. Não é mais uma ferramenta curiosa que você pode ter e aproveitar, mas algo que pode ser fundamental para o trabalho de uma pessoa”, disse Gomes.

A América Latina mostra uma geração de jornalistas que usam a ciência de dados para criar novos produtos e enfrentar o controle político das autoridades, disse Marco Túlio Pires, do Google News Lab Brasil e moderador do painel. Na região, existe “um ambiente muito vibrante para desafios maiores, como a adoção de novas tecnologias que tornem nosso trabalho mais ágil, rápido, com um jornalismo muito mais impactante”.

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