Em tela de computador em reunião online a pesquisadora Ana Brambilla, de blusa preta, óculos, pele clara e cabelos castanhos claros

Ana Brambilla: É preciso ouvir o “maldito” leitor

07 de junho de 2022

Tela de fundo branco com elementos em preto e amarelo mostra gráfico de avaliação dos jornalistas sobre os leitores em pesquisa de Ana Brambilla

A pesquisa de Ana Brambilla, recém divulgada, mostra uma dificuldade do jornalista em lidar com o leitor e a audiência, principais ativos dos veículos de imprensa

Um dia típico de redação em fechamento. O telefone toca e o jornalista atende. Do outro lado da linha, um leitor raivoso destila palavras nada agradáveis contra uma matéria publicada pelo veículo. O que você faz?

O leitor “maldito” foi o tema do Café com Aner desta terça-feira, 7 de junho. A apresentação ficou sob a condução do diretor de operações da Carta Capital, Demétrios dos Santos, já que a diretora-executiva Regina Bucco está em viagem a Portugal, ao lado do presidente Rafael Soriano, para participar do Congresso Mundial da FIPP.

A convidada, Ana Brambilla, é jornalista, pesquisadora e trabalhou nas editoras Globo e Abril e no Portal Terra como estrategista editorial para o ambiente digital. Professora e pesquisadora do Master Negócios em Mídia do ISE Business School, ela busca entender como a escuta dos leitores pode beneficiar as empresas jornalísticas e, em contraponto, observa as dificuldades que as redações têm para colocar este processo em prática.

A pesquisa Diálogos com Audiências nas Rotinas Editoriais mostra os adjetivos usados pelos jornalistas para definir os leitores

“Procuro entender e pesquisar o quanto os jornalistas desejam o diálogo, o quanto querem conversar e entender o usuário e o leitor”, explica.

Cultura do desdém

Ana conta que observou, durante as suas pesquisas (leia abaixo), a prática do que chama de “cultura do desdém”, que se perpetua desde o tempo em que o sustento dos veículos de imprensa não vinha do público, e sim da publicidade. “O público era considerado apenas para consumir aquilo que era publicado”, observa.

Sendo assim, Ana explica que o padrão de imagem que muitos jornalistas fazem sobre o púbico passou a ser de uma pessoa ignorante ou que não tem muita consciência do que consome e que não dá valor ao trabalho jornalístico. Essa avaliação torna-se incoerente no momento em que a aceitação do público (audiência) passa a ser vital para que os veículos se sustentem financeiramente.

No entanto, ela também alerta que o diálogo não pode ser procurado apenas pela necessidade de se obter receita financeira para o veículo.

“A gente não tem o hábito de fazer com que as pessoas paguem por notícia porque é muito fácil encontrar notícias em todo lugar. Nem o próprio jornalista pagar por notícias”, afirma. E ela lança o desafio: “Se não adianta só fazer conteúdo, o que mais eu posso dar ao leitor?”

Clique aqui e veja o pdf da apresentação feita por Ana Brambilla durante o Café com Aner

Saindo da bolha

Outra grande dificuldade, segundo Ana, é o hábito de os jornalistas só conversarem entre si e ouvirem os entrevistados apenas com o intuito de produção de matérias. Essa prática, segundo ela, restringe a troca de ideias e o diálogo necessário com as diversas fontes e correntes de pensamento que formam o público do veículo. E esse distanciamento crescente é justamente o que deve ser combatido pelos profissionais.

“Passar a conversar com porteiro, médico… sair da bolha”, recomenda. “Migrar o propósito de reportar sobre algo e pensar primeiro em reportar para alguém”.

Pesquisas revelam o quanto as redações estão prontas para o diálogo

As pesquisas realizadas por Ana estão disponíveis gratuitamente no site criado por ela, o Orbis Media. A primeira, Potencial de Membership e de Relacionamento com o Público nas Redações Brasileiras, realizada em 2020, ouviu 123 jornalistas atuantes em veículos nacionais, no começo deste ano, sobre seus hábitos de interação com as audiências. A segunda,  Diálogos com Audiências nas Rotinas Editoriais, ouviu 160 jornalistas brasileiros entre os meses de fevereiro e março deste ano, para medir o diálogo com o público nas rotinas editoriais.

Além de mapear o que jornalistas entendem por “diálogo”, o material apresenta dinâmicas e pontos que precisam ser considerados na implementação de uma rotina editorial marcada por um relacionamento efetivo com o público.

Durante o encontro, Ana deu dicas sobre como lidar com as expectativas dos leitores

“A gente sabe que existe uma carga de trabalho que não inclui conversas com o público. Isso não é uma crítica, mas um retrato do que estamos trabalhando hoje” afirma, completando o raciocínio: “Não basta criar campanhas, editorias ou cargos na redação, como editores de engajamento, audiência, se isso não passa a fazer parte do produto. A proposta tem que ser equalizada com as outras atividades e propósitos da empresa de jornalismo”.

Gostou do tema? Então clique aqui e assista a íntegra do Café com Aner com Ana Brambilla em nosso Canal do YouTube.

O Café com Aner é a pausa das tardes de terça-feira para descontração e bate-papo com profissionais que trazem boas ideias, pesquisas e insights para os publishers e jornalistas associados e não-associados da Aner. Para saber da agenda completa, acompanhe nosso site e redes sociais.

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