A verdade sobre o futuro dos livros

TWO SIDES – 06/08/2019

Manoel Manteigas de Oliveira

O livro é, certamente, o produto mais emblemático da indústria gráfica. Para muitos, o livro é o objeto mais poderoso já produzido pelo ser humano, talvez por causa da profunda transformação que seu advento provocou nos destinos da humanidade. Dificilmente encontra-se um instrumento tão perfeito para o fim a que se destina. Nesse sentido, Umberto Eco compara o livro físico com ferramentas como a colher, o martelo e a tesoura – não seria possível criar algo melhor para fazer a mesma coisa.

A prova disso é que, mais de vinte anos após o aparecimento do e-book e dos e-readers, os livros impressos continuam com a maior fatia do mercado em todo o mundo. Nos EUA e na Europa a participação dos livros eletrônicos declinou depois de um pico em 2013. Para os e-readers a queda tem sido maior – os consumidores que leem e-books têm migrado para tablets e celulares, em substituição aos dispositivos dedicados exclusivamente à leitura.

Pesquisa de 2017, conduzida pelo instituto Toluna, a pedido da campanha Two Sides, mostra que os livros de papel continuam preferidos por 72% dos consumidores. A enquete ouviu 10.762 entrevistados, em dez países: África do Sul, Alemanha, Austrália, Brasil, Espanha, EUA, França, Itália, Nova Zelândia e Reino Unido. No Brasil, especificamente, esse percentual chega a 78%.

Outra pesquisa, esta realizada nos EUA em 2016 pelo Pew Research Center, revela que 65% dos americanos leram um livro físico em 2015, contra 28% que leram um e-book e 14% que ouviram um áudio-livro. Naquela ocasião, o histórico indicava estabilidade dessa distribuição nos últimos dois anos analisados. A mesma pesquisa informa que apenas 6% dos americanos leram exclusivamente livros eletrônicos, contra 38% que leram somente livros impressos.

Esses números mostram uma situação muito diferente da que aconteceu com o consumo de música, por exemplo. É fato que, mesmo na indústria fonográfica, as mídias analógicas não morreram e, após uma queda acentuada, ressurgiram para atender a nichos de preferência. Assim é que prensas voltaram a ser ativadas para a produção de vinis e até fitas cassete voltaram a ser produzidas. David Sax, em seu livro “A Vingança dos Analógicos” – conta diversos cases de produtos físicos cuja morte havia sido decretada pelos profetas do mundo digital, mas que experimentam um renascimento. No entanto, em geral esses nichos analógicos de nenhum modo ameaçam a primazia do digital, embora sejam grandes o suficiente para enriquecer “novos” empreendedores. O livro impresso, no entanto, se destaca ao desafiar seu concorrente digital. Por que será?

Uma explicação pode ser, justamente, a perfeição do objeto livro a que ser refere Umberto Eco – fácil de portar, não depende de fontes de energia para funcionar, tem baixo impacto ambiental, resolve muito bem a maneira de organizar as informações (embora perca no quesito “busca”, quando comparado com o e-book). Diferentemente, ouvir música em mídia analógica requer dispositivos mais complexos que os digitais.

Outro aspecto é a “sensorialidade”. Praticamente todos os leitores que não abrem mão do livro impresso referem-se à experiência prazerosa de manuseá-lo, sentir a materialidade do papel – sua textura e até mesmo seu cheiro. Segurar um livro nos leva a estabelecer uma outra dimensão emocional com o seu conteúdo.

Vários estudos demonstram que a compreensão das informações a partir do livro impresso é mais efetiva do que com o eletrônico, mesmo entre jovens para quem o digital é conhecido desde a primeira infância.

Talvez a disruptura que levaria o livro eletrônico a sobrepujar o livro impresso ainda esteja em processo, de forma mais lenta do que se previa. Até este momento, no entanto, o futuro mais provável parece ser uma convivência permanente entre essas duas mídias, com o livro impresso ocupando um espaço muito maior que um simples nicho dedicado a consumidores diferenciados. É não é impossível que o livro impresso continue mantendo sua primazia e a maior fatia do mercado editorial.

Avalio que a grande revolução tecnológica que alavancaria o negócio dos livros eletrônicos já aconteceu. O que mais pode aparecer que mude o cenário? Um novo dispositivo de leitura muito melhor que os atuais? Smartphones com as telas tão maiores que tornem a leitura nelas um hábito? Telas flexíveis? Não acho que tais avanços mudariam radicalmente os hábitos dos leitores.

Continuo acreditando que a grande ameaça ao mercado de livros no Brasil – sejam os eletrônicos ou os físicos – é o baixo nível educacional da nossa população, que lê muito pouco.

Diretor técnico da ABTG e da campanha Two Sides Brasil
Diretor da Associação Brasileira de Encadernação e Restauro – ABER

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