A Sustentabilidade Corporativa morreu. Vida longa ao ESG

ÉPOCA NEGÓCIOS – 22/05/2020

HEIKO HOSOMI SPITZECK

ESG abre a oportunidade de convencer mais empresas e executivos que sustentabilidade corporativa é simplesmente uma forma melhor de fazer negócios no século XXI.

O rei está morto; vida longa ao rei. Postei essas frases na 6ª feira passada no meu LinkedIn e me senti influencer pela primeira vez na vida. Enquanto meus posts conseguem atrair na média 1.500 visualizações, superei 21.000 até domingo a noite. Parece que cutuquei uma ferida e me perguntei: o que aconteceu aí?

Por um lado, tem muita gente que discorda comigo. A Juliana Antunes que trabalha em sustentabilidade corporativa desde 2009 escreveu: “No dia que a sustentabilidade corporativa morrer, ESG deixa de existir”. Junto com muitos outros, ela defende que são coisas diferentes. A sustentabilidade corporativa é vista por eles como algo maior que se pode imaginar, como guarda-chuva que engloba uma variedade de temas que vão de valor compartilhado, relatórios de sustentabilidade até ESG. ESG, nessa visão, é nada mais, nada menos que a sustentabilidade vista pelo mercado financeiro. Um ponto interessante que eles observam é que de repente aparecem muitos especialistas em ESG no LinkedIn que muitas vezes nem sabem de que estão falando. Então cuidado com especialistas em ESG que não têm um bom histórico na área!

Ao mesmo tempo, muitos concordam. Eles argumentam que ESG é só um novo conceito na “sopa de letrinhas” e dão “boas-vindas ao museu das grandes novidades”. Citam que o mercado financeiro já olhou para a sustentabilidade com conceitos como os princípios de investimentos responsáveis inaugurados pelas Nações Unidas em 2006. Olhando para a discussão dos últimos anos, este grupo também observa que a nomenclatura mudou várias vezes começando com o balanço social, indo para responsabilidade social corporativa, sustentabilidade corporativa e agora ESG. Então veem ESG como mais um nome para a mesma coisa.

Tem uma característica-chave que diferencia os dois blocos. A maioria dos que não concordam são especialistas em sustentabilidade corporativa, muitas vezes consultores, e têm anos de experiência na área. Os que concordam até podem trabalhar na área, mas têm um perfil mais amplo com experiência em outras áreas de gestão.

Os especialistas na área têm obviamente um entendimento maior das diferentes nomenclaturas. Até os mais conhecidos especialistas viravam especialistas por inventar as nomenclaturas, como o famoso John Elkington com a Triple Bottom Line, ou o professor da Harvard Business School Michael Porter, com Valor Compartilhado. Sem dúvida alguma faço parte desse grupo de especialistas e sei que são conceitos diferentes. Mas só para nós! Olhando para o desempenho social e ambiental das empresas, fomos pouco capazes de colocar a discussão sobre temas sociais e ambientais na tomada de decisão. Cada um com seu “conceito” e com seu ego inventando modas que nem sempre agregam valor ao negócio. Vejo consultores de sustentabilidade que anunciam com orgulho que apoiar clientes em reduzir emissões por 15%, mas não sabem quanto dinheiro isso custou à empresa, nem quanto isso vai gerar de economia. Vêm com uma linguagem que o cerne do negócio não entende e ficam marginalizados.

Nas minhas aulas na Fundação Dom Cabral os participantes frequentemente me perguntam se posso definir o que significa sustentabilidade. Nestas ocasiões me nego e digo que se você faz uma revisão sistemática de literatura sobre “sustentabilidade corporativa”, vai encontrar dezenas de definições e nenhuma vai te satisfazer. Depois eu continuo e tento mostrar que se você tem um negócio bem arrumado, que respeita os diversos stakeholders, clientes vão querer comprar de você, talentos vão querer trabalhar para você e investidores vão querer investir na sua organização e que tudo isso permite à sua organização ser longeva. Como os executivos chamam isso pouco importa – mas já vemos que empresas que trabalhavam responsabilidade corporativa ou sustentabilidade se beneficiam da onda do ESG com menores custos de capital e com uma melhor reputação. ESG abre a oportunidade de convencer mais empresas e executivos que sustentabilidade corporativa é simplesmente uma forma melhor de fazer negócios no século XXI.

E se você quer trouxer esses temas para a diretoria e para o conselho, e eles falam de ESG e não de sustentabilidade, então eu falo de ESG porque me permite conectar com as pessoas que tomam as decisões importantes. Nesse sentido, ESG é particularmente útil porque vem do mundo financeiro e isso colocou a discussão na alta liderança. E isso é novo! Precisamos aproveitar o momento e não estragar a oportunidade de conversar com a alta liderança por insistir em nomenclaturas que não façam sentido para eles.

Dito isso, aposto que até 2030 vamos ter uma nova onda e nova nomenclatura. Quer apostar comigo?

Heiko Hosomi Spitzeck é Diretor do Núcleo de Sustentabilidade da Fundação Dom Cabral

(Foto: Reprodução/Unsplash)

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