“A democracia precisa do jornalismo construtivo”, defende dinamarquês que é referência no tema

GAÚCHAZH – 10/07/2020

Em entrevista concedida à Redação Integrada de GZH, Ulrik Haagerup afirma que o chamado jornalismo de soluções aproxima as pessoas das notícias e combate discursos extremos.

Este é um Com a Palavra diferente. O entrevistado, o jornalista Ulrik Haagerup, é o fundador do Constructive Institute, ligado à Universidade de Aarhus, localizada no município de mesmo nome, o segundo maior da Dinamarca. Com a experiência de quem foi diretor da DR News, principal emissora de TV do país, Haagerup se tornou referência em jornalismo construtivo, também conhecido como jornalismo de soluções, tendo lançado, entre outros livros, Constructive News: How to Save the Media and Democracy with Journalism (“como salvar a mídia e a democracia com jornalismo”, em tradução literal).

Neste momento de pandemia, em que as más notícias predominam, ele alerta que é ainda mais importante, além de informar os problemas, propor caminhos que possam indicar como solucioná-los. Suas ideias – e as da escola de jornalismo que ele defende – estão resumidas na conversa a seguir, registrada via aplicativo de vídeo e que contou com as participações das redações de Zero Hora, GaúchaZH, Rádio Gaúcha, Diário Gaúcho, RBS TV e O Pioneiro. Repórteres e editores fizeram perguntas. A condução da entrevista foi do apresentador Daniel Scola.

O que é jornalismo de soluções?
É uma prática jornalística que abre espaço para o debate de saídas para problemas relevantes, com diferentes visões e aprofundamento dos temas. A ideia é, mais do que apresentar o assunto, focar na resolução das questões, visando ao desenvolvimento da sociedade.

Como se pode fazer jornalismo construtivo (ou de soluções) sem esconder a realidade?
Essa é uma pergunta muito boa. Não se trata de esconder nada. Isso seria a versão norte-coreana de jornalismo. Não tente pintar o céu de azul se ele for vermelho, isso é loucura. Jornalismo é dar às pessoas uma imagem precisa do mundo, sem esconder nada. Mas, se nós constantemente filtrarmos o mundo a partir do que é extremo, as pessoas vão acabar pensando que o mundo é composto só de extremos. Temos de dar às pessoas também as nuances. Meu instinto é mostrar o mundo em branco ou preto. Mas a realidade está frequentemente nos 50 tons de cinza. Além disso, uma boa história pode ser inspiradora. Um exemplo vem da Coreia do Sul, um dos primeiros países a enfrentar bem o coronavírus. Lá, eles testaram muita gente, e muito rápido, de maneira segura. Não podiam fazer isso nos hospitais, porque demorava para limpar tudo. O que fizeram foi olhar para o McDonald’s e criar um drive-thru. As pessoas ficavam nos seus carros, só baixavam o vidro para serem testadas. A reportagem sobre essa iniciativa viajou o mundo, e essa ideia se tornou um padrão. Encontrou-se uma saída para um problema. E isso foi inspirador para todos. Esse tipo de pensamento aplicado ao jornalismo se tornou significativo para as pessoas.
Propor soluções olhando para uma realidade a partir de uma visão mais complexa.
Então, não se trata de ignorar os problemas, mas de dar uma imagem completa da realidade. Como jornalista, fui treinado para parar quando houvesse relatado o problema em pauta. Perguntava ao presidente ou ao ministro: “O que você fará sobre isso?”. E eles sempre respondiam: “Não é minha culpa, é de meu antecessor”. Ou: “A culpa é de outro país”. Ou ainda, muito comum: “Temos de aumentar os impostos”. Mas não podemos parar aí. As pessoas querem que os jornalistas encarem os problemas da comunidade de maneira séria, vão adiante, mostrem como o problema pode ser solucionado mesmo que a autoridade não tenha respostas. Temos de fazer ambas as coisas: mostrar o problema e encontrar os culpados para depois perguntar: “E agora?”. Inspirar as pessoas, envolvê-las em um diálogo sobre o que devemos fazer com o problema.

Qual é a diferença entre boas notícias e o jornalismo construtivo (ou de soluções)? E quais são as bases dessa escola do jornalismo?
Pessoalmente odeio a ideia de jornalismo “positivo”, jornalismo feliz ou mesmo boas notícias. Não acho que o propósito do jornalismo seja manter um sorriso no rosto das pessoas. Não estamos no ramo da felicidade. Estamos no da informação. E essa é a diferença: se você decide que agora só dará boas notícias, você está louco, porque esse não é o propósito do jornalismo. Mas isso não significa que você não possa contar toda a história, mostrar o problema e, também, as soluções, a esperança. Isso dá às pessoas um sentimento de que há como sair do problema. O objetivo do jornalismo é esclarecer as questões para as pessoas, e não fazê-las sorrir.

Como as empresas de mídia estão adotando o jornalismo construtivo?
Sabe as embalagens de ketchup da Heinz? Você tenta tirar o ketchup, mas não sai, e então fica batendo. Sinto que sou o cara tentando tirar algo de dentro de uma embalagem, batendo, até que de repente sai tudo. Na Dinamarca, 70% das redações neste momento de alguma forma trabalham com jornalismo construtivo. Não digo que são perfeitos no uso dessa premissa, mas são curiosos. Estão experimentando. Estações de rádio e de TV introduziram formatos construtivos. Colocaram elementos em seus programas de notícias, usando o conceito como uma ferramenta natural. Não era assim há dois anos. E está se espalhando, pelo Reino Unido, pela Noruega. A BBC, de Londres, a SVT, na Suécia. Logo poderemos anunciar que teremos a primeira parceria alemã. É uma empresa de serviço público, que quer fazer jornalismo construtivo. A ABC News, da Austrália, anunciou que terá uma abordagem assim, fizemos uma oficina para eles. Demos um workshop para o Times em Londres, trabalhamos nos Países Bálticos, estivemos na Itália e na França.  É difícil mudar a mentalidade. Todo mundo que fuma sabe como é difícil parar de fumar. Mas você sabe, racionalmente, que provavelmente morrerá se não parar – embora ainda fume. Mudar hábitos é difícil. Mas estamos mudando.

O senhor diz que a imprensa precisa mudar não apenas pelo jornalismo, mas para fortalecer a democracia.
Porque a maneira como filtramos o cenário que estamos apresentando ajuda as pessoas no debate público. Entre os políticos: quem são os mais rudes? Quem fala mais alto na conversação pública? Esses são os que têm mais likes. Esses são os que aparecem mais nos noticiários. Nós, jornalistas, damos a eles mais tempo de exposição. Essa foi a razão pela qual Donald Trump foi eleito. Ele sabia exatamente o que estava fazendo. Não estou comparando Trump a um terrorista, mas a razão pela qual o terrorismo está em ascensão, na Europa e no Oriente Médio, é porque os terroristas sabem exatamente quais armas usar, e as armas mais importantes não são as bombas. São os jornalistas. Eles fazem algo dramático, e nós, é claro, temos de informar sobre isso, aí acabamos apresentando-os o tempo todo, espalhando medo com nossas histórias sobre o episódio dramático que eles provocaram. Do mesmo modo, nós jornalistas somos as ferramentas importantes para os populistas. Não conheço Jair Bolsonaro, mas sei que, na eleição brasileira, ele foi muito bem exatamente nisso. O jornalista deve refletir sobre si mesmo: você superexpôs esse líder populista, então você pode ter sido parte da razão pela qual ele foi eleito? Não estou dizendo que você mentiu, nem que deveria ignorá-lo, mas, sim, nós superexpomos visões extremas, formas extremas de comunicação.
Entre os políticos: quem fala mais alto na conversação pública? Esses são os que têm mais likes e aparecem mais nos noticiários. Nós, jornalistas, damos a eles mais tempo de exposição. Essa foi a razão pela qual Donald Trump foi eleito. Ele sabia exatamente o que estava fazendo. Não conheço Jair Bolsonaro, mas sei que, na eleição brasileira, ele foi muito bem exatamente nisso.

Três anos atrás, em uma palestra, o senhor já perguntava: “Nós criamos o Trump? Nós, jornalistas?”.
Sim, nós criamos.

Como?
Em 2016, Trump não era grande. A eleição foi em novembro. No início daquele ano, houve uma pesquisa dizendo que ele tinha mais exposição na mídia do que todos os outros candidatos presidenciais democratas e republicanos juntos. Por quê? Porque ele era um show de horrores, era divertido e falava diretamente sobre os critérios da mídia norte-americana. Ele estava criando conflito. Dividiu todo o mundo entre os bandidos, que eram os mexicanos e os muçulmanos, e as vítimas, que eram todos os perdedores da globalização. Assim, “tudo é péssimo, vote em mim, vou construir um muro, vou fazer a América ótima novamente”, basicamente isso. Em determinado ponto, ele disse: “A mídia me ama”. Agora, chama a imprensa de propagadora de fake news. Muitas vezes cobrimos política e debates como se fosse entretenimento. Não sei como é no Brasil, mas eu estive nos EUA, e o cenário da mídia, assim como no Reino Unido, em debates, especialmente na TV, é assim. Você coloca os debatedores em um ringue de boxe. Tem o canto vermelho e o canto azul. Tudo é sobre quem ganha, e não sobre as ideias. E o nosso trabalho, como jornalistas, é mantê-los lutando. Já o jornalismo construtivo faz diferente. Pergunta: “Podemos usar nossa caneta ou microfone de outro modo que não como um punhal para atingir as pessoas?”. Quando fazemos perguntas (em um debate) como “há algo do que ele disse com que você concorda?”, “existe um meio termo?”, estamos facilitando o debate sobre possíveis soluções para problemas importantes que todos nós enfrentamos. Esse é um objetivo do jornalismo para mim.

Pela sua experiência, qual o impacto do jornalismo construtivo no público?
Estamos agora fazendo um estudo em todo o mundo, nas redações com as quais temos trabalhado, e já tenho o primeiro resultado. Vem do Guardian, jornal da Grã-Bretanha. Eles implementaram o jornalismo construtivo em sua versão digital há 18 meses. No impresso, não. No digital, têm incluído histórias construtivas. Descobriram três coisas. A primeira é que as pessoas leem essas matérias mais do que as notícias normais. Na verdade, as pessoas não leem as matérias normais até o fim. Apenas passam os olhos. A notícia completa sobre uma bomba suicida no Sudão tem uma leitura superficial. Agora, as matérias de esperança, que trazem aprendizado, essas são lidas em profundidade. Nós medimos isso. Segunda descoberta: as pessoas compartilham mais essas matérias construtivas em redes sociais do que notícias tradicionais. Com que frequência você compartilha com as pessoas uma matéria sobre uma bomba suicida? Mas você compartilha uma matéria sobre alguém no Brasil que encontrou uma maneira de resolver um problema que você também tem. “Isso é incrível. Você viu? Uau.” Para falar da terceira descoberta, lembro de outra empresa com a qual estamos trabalhando, uma TV regional na Dinamarca que está baseada em uma ilha de 500 mil pessoas e decidiu que quer ser a redação mais construtiva no mundo. Nesse nível de implementação das premissas construtivas, ficou claro que o nível de confiança na organização cresceu. A audiência é crescente, assim como a quantidade de pessoas que os seguem nas redes sociais. Antes, a missão dessa TV era “queremos ajudar as pessoas ao longo do tempo”. Agora, é “queremos tornar a vida melhor em nossa ilha”. É inclusive o slogan dela. O que ele significa? Que a emissora cobre os problemas com o propósito de que sejam corrigidos. Não é que os jornalistas dizem como deve ser corrigido, porque esse é o trabalho de políticos e ativistas, mas, eles documentam, seguem o assunto e constroem pontes na sociedade entre a população, quem decide e os especialistas, perguntando: “Como se corrige isso?”.

O senhor pode exemplificar com uma pauta do dia a dia?
Sim, mas antes quero dizer que é importante esclarecer às pessoas que não se faz jornalismo construtivo em todas as matérias, o tempo todo. Isso seria loucura. Por exemplo, se houver um ataque terrorista. O papel do jornalismo é contar às pessoas, com velocidade, o que aconteceu, quantos morreram, todas essas coisas. Fazer reportagem tradicional com credibilidade. No segundo dia após esse ataque, ou talvez mais tarde no primeiro, depois das notícias iniciais, possa se começar a perguntar: “Quem realizou o ataque? Por quê?”. E então, no terceiro dia, talvez um pouco antes, pode-se começar a discutir como evitar que o ataque aconteça de novo. “Como podemos garantir que os jovens não virem extremistas?” “O que outros países fizeram em situações semelhantes?” Com esses elementos, você já estará usando o jornalismo construtivo.

A pergunta mais frequente entre os jornalistas da nossa redação integrada é como não ignorar a realidade e como fazer isso no Brasil, que lida com uma realidade social difícil, ainda mais em meio a uma pandemia.
O mais importante é fazer bom jornalismo e servir as nossas comunidades. A questão é responder à pergunta “como podemos fazer isso da melhor forma?”. É pensar nas pessoas da comunidade, no que elas precisam. Elas precisam ser inspiradas, precisam de ideias, precisam de esperança. Pessoas querem matérias apaixonantes sobre temas que têm significado para elas. Sim, elas querem que você cubra a injustiça. Sim, elas querem que você cubra problemas. Sim, elas querem uma imagem justa e precisa sobre a situação, mas elas também querem aprender, ler sobre descobertas, sobre coisas que as ajudem, que construam pontes.

Qual é a melhor matéria em que você já trabalhou em termos de jornalismo construtivo?
Isso é difícil. Porque são muitas. Uma de que eu realmente gostei era sobre a falta de médicos nos distritos rurais na Dinamarca. Você pode pensar que isso é ridículo, ter distritos rurais na Dinamarca, que é tão pequena em comparação ao Brasil, então talvez vocês passem por problemas ainda piores.

Sim, temos o mesmo problema no Brasil. Os médicos não querem ir a lugares remotos.
Eles não querem porque não veem futuro. Inicialmente, fomos às regiões, mostramos os dados, fomos ao ministro da Saúde, que disse “não é culpa minha, é do meu antecessor” e afirmou ser um problema de cada distrito, aí voltamos aos distritos, que puseram a culpa nos médicos, aí fomos ao sindicato dos médicos, que acusou o governo de pagar pouco, aí retornamos ao governo, que voltou a colocar a culpa no antecessor. Achamos que, fazendo isso, tínhamos realizado um grande trabalho. Outras emissoras também acharam. Enquanto isso, a população, sentada assistindo, lendo e ouvindo os noticiários, só tinha uma pergunta: “Quando raios vão nos trazer um médico?”. Foi quando nos perguntamos se o jornalismo construtivo teria um papel ali. Verificamos a situação em outros países. Descobrimos que, na vizinha Noruega, eles solucionaram o problema importando médicos de outros países, incluindo a Dinamarca, e incentivando profissionais com emprego aos seus cônjuges e cuidados a seus filhos nos locais mais remotos, além de baixar a taxa de juros dos financiamentos para estudar Medicina caso o estudante, formado, fosse para regiões carentes por quatro anos. Para atrair as pessoas, também houve campanhas sobre a qualidade de vida nos locais onde havia falta de médicos – que é ótima. Em quatro anos, 80% da defasagem de profissionais estava resolvida. Nós mostramos isso, com uma reportagem. E voltamos às autoridades para perguntar: “Se eles podem fazer isso lá, por que não podemos aqui?”. É uma pergunta crítica, certo? Mas é diferente. Em vez de buscar o culpado, questiona a possibilidade de resolução da questão. Há outros exemplos. Já perdi a conta de matérias que fizemos sobre ideias de outros países que poderiam resolver os problemas da Dinamarca.

Qual é o próximo passo do jornalismo construtivo? Quais campos de pesquisa não foram explorados?
Nós publicamos recentemente a primeira pesquisa já realizada na Europa não sobre consumo de notícias, que todos nós conhecemos, porque temos os números, mas sobre as atitudes do público em relação às notícias. Aconteceu que, mesmo na Dinamarca, onde pensamos que somos tão espertos, apenas 25% das pessoas pensam que os jornalistas publicam suas matérias após uma apuração suficientemente boa. Ou seja, três quartos dos dinamarqueses acham que os jornalistas publicam uma matéria sem ter feito uma apuração suficiente. Quase 60% disseram achar que nos inclinamos demais para o conflito, e 60% afirmaram preferir histórias que tragam os mesmos fatos, mas tenham, além da abordagem do problema, a abordagem da solução. Quase um quarto dos dinamarqueses tenta evitar as notícias regularmente porque ficam deprimidos. Isso é evidência suficiente de que estamos fazendo algo errado. E agora queremos fazer essa pesquisa em outros países. Tenho certeza de que o resultado será semelhante, e talvez até pior. Veja como as coisas mudaram. Cinco anos atrás, um tio velho olharia para você e diria: “Você está louco? Você tem de assistir às notícias! Você precisa ler! Siga o debate da sociedade, isso é ser um cidadão decente”. E agora é natural alguém dizer: “Sinto muito, mas não quero que meus filhos vejam as notícias”. Isso é assustador. Veja os Estados Unidos. Mais jornalistas perderam o emprego do que os trabalhadores das minas de carvão desde 2000. Isso significa que cidades com milhões de pessoas não têm um jornalista sequer para contar o que realmente está acontecendo, para fazer jornalismo independente. Porque ninguém está pagando por isso. Publicidade? Google e Facebook são muito melhores em servir anunciantes e em conectar anunciantes a clientes do que em fazer jornalismo. E detêm 85% da publicidade global digital. Só produzindo jornalismo que as pessoas considerem significativo isso vai mudar.

Se o senhor não se importar, pode deixar uma última mensagem sobre como podemos refletir sobre o tema?
Quero dizer, por fim, que o jornalismo construtivo não é uma religião. Não há uma Bíblia, não queremos converter as pessoas. Gosto de vê-lo como um espelho. Devemos nos perguntar qual é a imagem do Brasil no mundo que estamos dando às pessoas hoje. E ontem. É uma imagem justa e precisa do que está acontecendo no país? O jornalismo independente é importante demais para ser entregue aos políticos ou às grandes empresas. Então é preciso olhar-se no espelho e perguntar: como manter os valores da boa reportagem e fazer o bem à sociedade? Isso é importante não apenas para o jornalismo, mas, no seu caso, para o Brasil. A democracia precisa do jornalismo construtivo.

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