A chegada da “News Product Alliance” e a necessidade de ver o jornalismo como produto

ORBIS MEDIA REVIEW  – 30/10/2020

ANA BRAMBILLA

A histórica preocupação jornalística de delimitar as fronteiras entre Igreja e Estado faz, a cada dia, menos sentido. Não se trata de permitir que a ética se corrompa no exercício da reportagem, tampouco de renunciar ao compromisso inquestionável com a verdade. Mas se trata de sobrevivência.

Imerso em crises desde muito antes da pandemia, o jornalismo chegou a situações limítrofes de subsistência por recusar-se a enxergar, no espelho ao qual equivocadamente se dirige, um produto informativo, um produto do mercado de mídia. Veículos que já contam com esta visão o fazem timidamente, com baixo ou nenhum envolvimento das redações. Muitos jornalistas ainda se vêem ou são tratados como uma casta protegida, cuja missão social é o único compromisso profissional a ser cumprido.

Sob esta cultura, inúmeras gerações de jornalistas são formados e atuam em veículos deficitários, carentes de estratégia de mercado e cada vez menos capazes de absorver a mão de obra editorial. A News Product Alliance surge com a missão de reverter este cenário, aperfeiçoar e apoiar as equipes de produto de empresas jornalísticas.

Luciana Cardoso é Diretora de Estratégias Digitais do Estadão e compõe o comitê de criação da News Product Alliance.
O Estadão é o único veículo brasileiro a integrar, até agora, a jovem iniciativa internacional. Na entrevista abaixo, a Diretora de Estratégias Digitais do veículo e integrante do comitê gestor da NPA, Luciana Cardoso, conta como o projeto irá atuar para elevar o jornalismo mundial a um patamar mais adequado às peculiaridades e às necessidades do mercado.

Orbis Media Review – Como o NPA, objetivamente, irá atuar? Haverá entregas? O que a comunidade jornalística pode esperar neste sentido?

Luciana Cardoso – Temos muitas ideias! Estamos discutindo lançar um canal no Slack aberto a todos, criar uma conferência, oferecer mentoria ou programas de treinamento, etc. Ainda estamos nos estágios iniciais para lançar esta comunidade. Nossa prioridade é aprender mais sobre as necessidades para que possamos definir quais programas e serviços priorizar e garantir os recursos necessários para gerenciar essas atividades com sucesso.

Orbis – Existe um cronograma de atividades ou previsão dos próximos passos do projeto?

Luciana – Em um futuro próximo, compartilharemos as primeiras iniciativas do NPA. Nosso comitê de direção, dirigido por voluntários, tem como objetivo criar uma organização formal com posições de liderança permanentes e um conselho até o final de janeiro de 2021. Nosso objetivo é construir um conselho global e diverso que represente as muitas facetas desta comunidade. Os membros do conselho são responsáveis por manter a organização responsável por sua missão e supervisionar as decisões financeiras da organização.

Orbis – De onde (ou de quem) surgiu a iniciativa do NPA?

Luciana – Alguns dos membros da News Product Alliance se reuniram em abril de 2019 com a ideia de criar essa comunidade. Na época eram 15 pessoas com a vontade de construir um espaço para troca de ideias e conhecimentos. Ainda não era uma iniciativa global, algo que foi evoluindo com o passar dos meses.

Muitos dos veículos ainda não possuem equipes de produto e, quando possuem não estão trabalhando em parceria com as áreas de conteúdo e de negócio. Este conhecimento, muitas vezes, fica limitado à área de tecnologia.

Orbis – Quem financia a iniciativa?

Luciana – A Escola de Jornalismo da Universidade de Missouri, a Escola de Pós-Graduação em Jornalismo Craig Newmark da CUNY e o News Catalyst forneceram apoio institucional inicial.

Orbis – Quais são as principais dificuldades que o grupo percebe, atualmente, em veículos no que diz respeito à visão de produto?

Luciana – Atualmente muitos dos veículos ainda não possuem equipes de produto e, quando possuem não estão trabalhando em parceria com as áreas de conteúdo e de negócio. Este conhecimento, muitas vezes, fica limitado à área de tecnologia. Em alguns locais, são apenas indivíduos tentando criar produtos sem ter com quem trocar experiências e, por esta razão, é tão importante termos uma comunidade para apoiar.

Todos que desejam fazer parte desta comunidade são bem-vindos. Nosso foco é apoiar profissionais de produtos que trabalhem em organizações de notícias para alinhar as áreas editoriais, de tecnologia e estratégia de negócios.

Orbis – O site e o release de divulgação do projeto falam em colaboração, em construção de uma comunidade. Quem pode se vincular ao NPA e quais são as condições para integrar esta comunidade?

Luciana – Todos que desejam fazer parte desta comunidade são bem-vindos. Nosso foco é apoiar profissionais de produtos que trabalhem em organizações de notícias para alinhar as áreas editoriais, de tecnologia e estratégia de negócios. Acreditamos que construir alianças é essencial, pois todos trabalhamos com o mesmo objetivo de produzir jornalismo de qualidade e sustentável que beneficie nossas comunidades.

Orbis – Há muitos anos se fala da necessidade de as redações conhecerem suas audiências, o que, até agora, tem ficado majoritariamente limitado à leitura de analytics ou enquetes de mercado. O que está sendo feito – ou o que o grupo pretende fazer – para concretizar este objetivo?

Luciana – Um dos princípios da comunidade é justamente o de auxiliar na disseminação de conhecimento entre os seus participantes. Este fica ainda mais rico com participantes de todo mundo, pois sabemos que alguns países já estão mais evoluídos no entendimento das audiências do que outros. Através dos programas de treinamento e mentoria buscamos aprofundar em questões tão importantes quanto estas.

Os profissionais de produtos de notícias em todo o mundo estão enfrentando muitos dos mesmos desafios e se sentem isolados ou sem apoio.

Orbis – Para além do grupo que hoje integra o NPA – e outros participantes que possam vir a somar-se ao projeto – quem deve se beneficiar dos trabalhos a serem desenvolvidos?

Luciana – Acreditamos que a criação de uma organização internacional é essencial para nossa missão, pois os profissionais de produtos de notícias em todo o mundo estão enfrentando muitos dos mesmos desafios e se sentem isolados ou sem apoio. É por isso que estamos procurando ativamente por mais profissionais de produtos de notícias internacionais para nos ajudar. Se você estiver interessado em ingressar na diretoria da NPA ou nos ajudar a aconselhar-nos sobre como fazer desta uma comunidade global, informe-nos por e-mail, hello@newsproduct.org

Orbis – O Estadão é o único veículo brasileiro a integrar o NPA. De que forma o projeto se encaixa aos planos do Estadão?

Luciana – Desde 2017, o Estadão vem investindo ativamente na Transformação Digital da empresa e, um dos pilares de grande foco é o de Produto. Precisamos cada vez mais entender quem é a nossa audiência, suas necessidades para assim construir produtos que surpreendam o público.

Por esta razão, estamos cada vez mais focados em iniciativas como esta, que inspiram mais e mais organizações a criarem produtos de qualidade. A disciplina de Produto dentro das organizações de notícia ainda é muito nova e, por isso, acreditamos que a troca seja essencial.

Orbis – Pela declaração da Becca Aaronson no release e pelo que diz no próprio site do NPA, existe uma preocupação em atender comunidades tradicionalmente marginalizadas, negros, latinos, indígenas e imigrantes. De que forma a visão de produto nas redações se associa ao discurso de inclusão social?

Luciana – Para criar produtos para o público, precisamos que ele esteja representado dentro das redações e em todo o ambiente jornalístico. Por isso, desde o início das conversas do NPA buscamos a diversidade no comitê gestor e também nos participantes. Hoje já temos membros de diversos países com diferentes realidades e necessidades.

Precisamos de mais líderes de produto que estão projetando novos produtos para atender às comunidades marginalizadas. Apoiaremos a transformação da liderança das organizações de notícias e permitiremos que mais pessoas que estão pensando sobre as necessidades dos grupos marginalizados orientem a indústria de notícias.

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