20 anos depois da bolha da internet, as sobreviventes viraram trilionárias

EXAME – 11/03/2020

Guilherme Guilherme, Lucas Agrela

Há exatamente 20 anos, a bolha da internet chegava ao fim. A partir do dia 11 de março de 2000, os mercados financeiros entraram numa espiral de queda que fez as ações das empresas de tecnologia derreterem nos meses e nos anos seguintes. O índice Nasdaq, que havia alcançado os 5.000 pontos naquele ano, cairia para cerca de 1.600 pontos em setembro de 2002. Naquele momento, não se imaginava que demoraria mais 15 anos para que o patamar voltasse a ser alcançado.

A euforia foi uma das culpadas. Naquele começo, os investidores deixaram de fazer avaliações básicas sobre o potencial de retorno de seus investimentos em empresas com negócios online.

A Microsoft foi uma das empresas que atingiram um pico de valorização de  suas ações. No fim de dezembro de 1999, os papéis da companhia eram negociados a cerca de 60 dólares. O mesmo patamar só voltou a ser atingido 17 anos mais tarde, em 2016, com o avanço da computação em nuvem. No ano passado, pela primeira vez, a unidade do Azure se tornou a mais rentável da Microsoft.

Um dos símbolos mais emblemáticos dessa geração de empresas, a Amazon chegou a perder 90% do seu valor de mercado entre os anos de 2000 e 2001. Na expectativa de que negócio online fosse se tornar um sucesso, as ações da Amazon acumularam uma alta de 2.051% entre 1998 e 1999, passando de 4,96 dólares para 106,69 dólares. Ainda assim, a Amazon voltou a crescer e sobreviveu para moldar os padrões globais para o comércio eletrônico, junto com o eBay, e se tornou uma das poucas empresas a ultrapassar o valor de mercado de 1 trilhão de dólares.

Uma das vítimas da bolha das empresas ponto com foi o Yahoo. À época, o portal usado por 185 milhões de pessoas no mundo não gerou o dinheiro esperado no primeiro trimestre de 2001 — o faturamento de cerca de 180 milhões de dólares ficou abaixo da expectativa de 240 milhões. O motivo? A maioria das pessoas que visitavam o site não gastava nada por lá, e a receita publicitária despencou. Por fim, com a queda de audiência nos anos seguintes, o site nunca mais recuperou o seu brilho até ser vendido para a empresa de telecomunicações Verizon, em 2016.

Um outro caso memorável é do portal Pets.com, de venda de artigos para animais de estimação. A empresa fez sua estreia na Nasdaq em fevereiro de 2000 e levantou 82,5 milhões de dólares. No entanto, chegou a empregar 12 milhões de dólares em publicidade em 1999, mesmo com um faturamento de somente 600.000. Em janeiro de 2001, ela foi liquidada, com o valor de suas ações indo de 11 dólares para 19 centavos de dólar.

Outra vítima da bolha da internet foi o portal americano Excite. Em 1999, o Excite teve a oportunidade de comprar o Google por 750.000 dólares, mas recusou a oferta. Após uma série de financiamentos e aquisições, o site acabou sendo comprado pela empresa de telecomunicações @Home e foi à falência em 2001, um ano após a o estouro da bolha da internet.

Segundo Maurício Gallego, gestor da empresa de investimentos Constância, o estouro da bolha deixou os investidores ressabiados em relação à capacidade de as empresas de tecnologia darem lucro. “Para retomar a confiança, elas tiveram de mostrar resultado”, diz.

Mas, mesmo vinte anos depois da bolha, os investidores continuam apostando na inovação trazida por empresas que nem sempre são rentáveis, como Uber ou WeWork. A expectativa é que, um dia, elas se tornem uma Amazon. A questão é se elas seguirão o sucesso da gigante do varejo online americana ou ficarão pelo caminho, como tantas outras.

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