Editorial (O Estado de S.Paulo)

O ESTADO DE S.PAULO – 01/01/2016
Editorial
Não há novidade no uso da internet como plataforma de propagação de mentiras, sobretudo durante as campanhas eleitorais. O que tornou a recente eleição presidencial norte-americana um caso particularmente alarmante é o novo patamar que essa, digamos, “estratégia” atingiu. Enquanto o mundo, ainda atordoado, tenta entender como um candidato controvertido como Donald Trump foi eleito presidente dos Estados Unidos, questiona-se a influência que a usina difusora de boatos a serviço de sua campanha possa ter tido na escolha feita pelos eleitores.

Paul Horner é um empresário de 38 anos que administra um conglomerado de sites cuja principal atividade é produzir e disseminar notícias falsas por meio do Google e do Facebook. Ganha dinheiro com os anúncios publicitários veiculados em suas páginas. Horner publica suas infâmias há mais de seis anos e no curso da eleição nos EUA chegou a dizer que a candidata Hillary Clinton teria vendido armas secretamente ao Estado Islâmico, de acordo com o WikiLeaks. Outro absurdo propagado por seus robôs foi a suposta morte de um dos agentes do FBI envolvidos na investigação da candidata democrata. Também partiu de sua fábrica de mentiras a “notícia” de que o Papa Francisco teria abençoado a candidatura de Trump, entre outros embustes. Sua ação não é inofensiva ou simples pilhérias. Uma postagem dando conta de que Barack Obama iria abolir a execução do hino nacional norte-americano antes dos eventos esportivos no país teve mais de 250 mil compartilhamentos no Facebook. A repercussão foi tal que tanto a cúpula do Facebook como a do Google precisaram vir a público para garantir que não exerceram influência alguma na escolha do novo presidente, embora tenham informado que destacariam suas “melhores cabeças” para buscar soluções que, no futuro, impeçam ou diminuam o tráfego de mentiras por suas estradas virtuais.

É ingenuidade afirmar que a internet, de fato, tenha determinado a escolha do presidente dos Estados Unidos, mas não se pode negar a transformação que a tecnologia vem empreendendo no consumo da informação. Donald Trump deu um sinal claro de que compreende essa transição ao nomear Stephen Bannon como seu “estrategista-chefe”, um cargo tão obscuro na política norte-americana que pouco se sabe da natureza de suas atribuições e dos nomes de seus ocupantes anteriores. Antes de ser convidado pelo presidente eleito, Bannon foi editor do portal Breitbart News, um veículo alinhado à direita ultraconservadora especializado em divulgar notícias de conteúdo racista, homofóbico, sexista e antissemita. Sua ida para a Casa Branca gera desconfiança sobre a influência que poderá exercer nos rumos do governo.

De forma geral, percebe-se um empobrecimento do debate de ideias. Mais do que a necessidade de acreditar em alguma coisa, as pessoas parecem buscar evidências que amparem suas convicções e não informações confiáveis. Sites que praticam o falso jornalismo encontram nesse ambiente a cultura de proliferação ideal. Isso é especialmente preocupante no que concerne à política por ser ela o campo da pluralidade de ideias.

O Jornalismo com “j” maiúsculo tem a grande responsabilidade de iluminar este novo terreno onde a demarcação entre o verdadeiro e o falso ainda é turva. É do Jornalismo a prerrogativa de separar o joio do trigo em meio ao cenário nebuloso da comunicação digital, quando tudo pode ser publicado por qualquer pessoa. Se não pela ética que deve pautar o fazer jornalístico e lastrear sua credibilidade, veículos de informação devidamente registrados estão sujeitos à aplicação da Lei de Imprensa, que não toca outras fontes propagadoras de notícias. São inegáveis os benefícios da popularização da internet, como novas formas originais e democráticas de ativismo digital e a livre difusão de ideias. Mas a possibilidade do anonimato e o descuido com a apuração impõem cautela, pois são incompatíveis com o exercício do Jornalismo de qualidade, pilar fundamental da democracia.

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