The Face: um possível retorno?
The Guardian - 08 de junho de 2009
Rumores de que a revista The Face retornará em um formato diferente instiga perguntas sobre a sobrevivência de outras revistas.
Em 1980, a primeira edição da revista The Face trazia na capa um sorridente Jerry Dammers. Coincidentemente, os ingressos mais concorridos do ano são para os shows da turnê de reencontro do The Specials - sem a participação de Dammers -, e há rumores de que a The Face poderá voltar a ser editada.
De acordo com relatos, executivos da Bauer Media, que detém os direitos da publicação, têm discutido a idéia com Anthony Noguera, ex-editor da revista FHM. A The Face poderá reemergir ano que vem em um novo formato totalmente digital. Ainda não se sabe se conteúdo estará disponível para todos ou somente para assinantes.
Bauer não comenta sobre os rumores - mas isso não impede que a idéia seja discutida. Uma versão grátis da revista foi redondamente rejeitada pelos membros da redação da The Face antiga. "Como você mantém a qualidade se você não cobra pelo conteúdo?" pergunta um ex-editor. "Revistas como Dazed e Vice iriam aniquilá-la. Assim como a Shortlist, a revista seria lida por faxineiras polonesas na volta pra casa depois de terem trabalhado o turno noturno. A questão de assinaturas também é complicada. Como você vende as assinaturas? Quem quer comprar? Ou são assinaturas controladas - grátis para lojas da moda. Nesse cenário não há editorial teeth e dinheiro para tanto."
A idéia de levar o título para uma plataforma digital foi mais bem recebida. "A The Face era considerada o ponto de referência do que era cool antes da Internet aparecer," diz Rana Reeves, fundador da John Doe, a agência de RP do PlayStation. "Se você conseguisse colocar o seu cliente lá dentro, ele ganhava credibilidade instantaneamente. Hoje em dia, a cultura jovem é uma cultura totalmente digital, baseada no imediatismo. The Face ainda é uma marca bastante relevante, até mesmo em âmbito global. Portanto a revista poderia se tornar o site "oficial" sobre o que está na moda na Grã Bretanha."
As revistas de estilo, que oferecem um conteúdo digital decente, apresentam um desempenho melhor do que aquelas com um conteúdo digital apenas razoável. ID, por exemplo, tem um site bem básico com vídeos de ensaios fotográficos e um canal de venda de edições antigas. Em maio, Terry Jones, criador da revista, anunciou que o título passará a ser publicado somente seis vezes por ano. A revista Vice, lançada no Canadá quinze anos atrás e com distribuição global de um milhão de cópias, está prosperando principalmente graças à força de seu website. "Nosso serviço de banda larga de TV, VBS, alcança cerca de quatro milhões de pessoas todo mês - levamos 18 meses para atingir esses números. Se dependêssemos somente da revista, levaríamos 15 anos," diz Matt Elek, o editor europeu da publicação. "Na Europa e na América Norte, estimamos que nossas receitas digitais ultrapassarão as receitas provenientes da mídia impressa esse ano."
Mas será que os anunciantes classe A da The Face acompanharão a revista em sua empreitada online? "Não é correto afirmar que nenhum tipo de publicidade digital funciona para os muito ricos", diz Margaret Johnson, presidente da agência de publicidade Leagas Delaney, responsável pelas campanhas da marca de relógios Patek Phillipe. " Mas os consumidores da classe A ainda esperam que o setor publicitário anuncie os produtos de luxo por meio de anúncios impressos. É difícil ver um detalhe suntuoso em um anúncio pop-up."
"Ainda existem muitos lugares para se colocar anúncios impressos se você não está interessado em compras ou publicações direcionadas à classe AA", diz Tom Morton, diretor executivo de planejamento da agência TBWA; "Muitas revistas que estavam canibalizando a The Face - como as revistas direcionadas ao público clubber - desapareceram, deixando uma lacuna editorial e de estilo para aqueles que não têm muito dinheiro."
Funky GB
Ainda não dá para saber se existe alguém capaz de conquistar um espaço para a revista. "O problema é que não há ninguém na Bauer que seja capaz de colocar a revista na direção certa. Noguera certamente não é a pessoa indicada para essa tarefa," diz um ex-membro do staff da The Face. "Alguém aí sabe a diferença entre bassline e UK funky ou que as bandas Enemy e Gallows são somente a ponta do iceberg em relação às bandas de rock politizadas? Até parece que eles sabem."
A Internet não gerou uma diluição das subculturas jovens. Ele acrescenta: "As pessoas ainda querem sair de casa e se reunir com membros de suas "tribos" nos fins de semana, e a música e a moda ainda representam isso. Mas nenhuma revista da Bauer jamais conseguirá compreender o modo como isso funciona."
Fonte: http://www.guardian.co.uk/media/2009/jun/08/the-face-magazine-press |