De Cleópatra a Justin Bieber
Matthew Shirts - O Estado de São Paulo
Dia desses tive o privilégio de passar uma tarde, aqui em São Paulo, com a superestrela intelectual Camille Paglia. O convite veio do escritor e colega Edward Pimenta. Assistimos a uma entrevista dela na Editora Abril e, depois, fomos almoçar com nossa convidada, uma figura rara no mundo das letras e artes. Já a conhecia de um encontro anos antes no Estadão. Mas ela não se lembraria de mim.
Escrevi sobre a Camille, aluna do lendário crítico literário Harold Bloom, na Universidade Yale, mais de uma vez no Caderno 2. Mas faz tempo. Seu livro Personas Sexuais: Arte e Decadência de Nefertite a Emily Dickinson, um ensaio surpreendente e nada politicamente correto, virou best-seller nos Estados Unidos em 1990, feito raro para um tratado tão intelectual, e foi lançado no Brasil em 1993 (Companhia das Letras), onde a professora seria acolhida com festejos. Nas suas palavras, do prefácio do livro: "Personas Sexuais procura demonstrar a unidade e continuidade da cultura ocidental - uma tese que tem encontrado poucos defensores desde o período anterior à 1.ª Guerra Mundial. A obra aceita a tradição do cânone ocidental e rejeita a ideia modernista de que a cultura se estilhaçou em fragmentos desprovidos de significado. Defendo que o judeo-cristianismo nunca chegou a derrotar o paganismo, o qual continua a florescer em domínios como a arte, o erotismo, a astrologia e a cultura pop".
O livro é genial; pulsante é o adjetivo que me vem à cabeça. Uma obra-prima da história intelectual e da arte. Mesmo assim, Camille é mais conhecida por suas frases de efeito e posições políticas. Atacou com veemência o feminismo americano ("sou da ala pró-sexo do feminismo"), e também os filósofos franceses em voga na época, Jacques Derrida, Jacques Lacan e Michel Foucault. Enalteceu o homossexualismo masculino e criticou o lesbianismo, apesar de ser praticante desta última modalidade sexual. Disse, acho que no próprio Personas Sexuais, uma frase com o seguinte sentido: o homem, ao se tornar homossexual, fica 50% mais esperto; ao virar lésbica, uma mulher perde 25% da inteligência. Insisto em reafirmar que a ideia é dela, não minha. Nunca consegui formular uma opinião a esse respeito.
O modelo da mulher nos anos 90, para Camille, era a cantora Madonna. Esta, sim, uma verdadeira feminista. Hoje, a escritora está fascinada por Daniela Mercury, que considera uma "gênia", uma verdadeira diva.
Pois é. Camille está vidrada pelo Brasil. Já fez sete viagens para cá. Aos 60 e poucos anos de idade estuda o português, que acha parecido com o latim, e diz conhecer "muitos substantivos".
O inglês ela fala sem parar. É capaz de comentar com genialidade qualquer assunto, de Cleópatra a Justin Bieber. Foi pioneira, diga-se, na internet. Escreve para o site Salon.com desde quando era movido a lenha. Durante nosso almoço explicou por que as bandas de rock masculinas tendem a permanecer juntas enquanto as femininas cedem lugar a uma só estrela. Descascou os intelectuais de esquerda por não terem entendido o sentido do casamento real do príncipe William e Catherine Middleton. Como é que querem falar em nome do povo, perguntou, se não têm capacidade para entender o apelo de um evento com tamanha relevância para os cidadãos comuns?
Camille não é modesta. Gaba-se da sua capacidade de entender e analisar qualquer manifestação de cultura pop. Mas admitiu, ali, para nós, que não entende por que Jennifer Aniston continua a ser a celebridade que mais vende revistas nos Estados Unidos. Camille analisa com regularidade esses dados. É revisteira. Acredita ser básico para qualquer crítico cultural saber o que vende e o que não vende "na banca"; por assim dizer, no varejo. A cara da Jennifer vende. Até hoje.
Para quem não sabe, Jennifer Aniston é a atriz americana que fez o papel de Rachel no seriado de sucesso Friends. Estrela inúmeras comédias românticas no cinema. Na vida real, perdeu o marido Brad Pitt, ator, para a atriz Angelina Jolie.
Camille diz não compreender a graça da Jennifer. Acha-a sem sal, nada demais. Por que será que continua a vender tantas revistas?
Cheguei à redação da National Geographic Brasil, depois do encontro, entusiasmado, contando tudo da Camille para meus colegas, aos brados. Encerrei o meu resumo do encontro com a dúvida da Camille a respeito do sucesso de vendas da Jennifer Aniston. Afinal, ali na redação somos todos revisteiros. E não é que o designer Roberto Sakai deu a resposta na lata? "É que não sabemos ainda como termina a história dela."
Fonte: http://www.estadao.com.br/noticias/impresso,de-cleopatra-a-justin-bieber,728408,0.htm |